Como Chernobyl se tornou um santuário de animais, segundo estudo
Galileu [Unofficial]
June 2, 2026
Se você acompanha a GALILEU, deve se lembrar da usina nuclear de Turkey Point, nos Estados Unidos, que hoje serve de habitat para crocodilos. Por vezes, locais como esse acabam proporcionando condições ótimas para o desenvolvimento de diversos animais. Tudo “melhora” se uma calamidade desastrosa, como a ocorrida em Chernobyl, na Ucrânia, tiver levado à ausência humana na região por décadas. Passados 40 anos desde o desastre de 1986, as ruínas da usina começaram a testemunhar o ressurgimento da vida selvagem na região, incluindo o de espécies raras como os cavalos-de-przewalski, linces, alces, cervos-vermelhos, cães-guaxinins e ursos-pardos. Espécies mais comuns e adaptáveis, por outro lado, não se recuperaram como esperado. Isso é o que revelou um novo estudo publicado em 20 de maio na revista Proceedings of the Royal Society. Território morto? Mexer com usinas nucleares é esperar surpresas. O famoso “a água é molhada”, entende? Ainda que seja previsível, quanto mais se procura, mais descobertas são feitas. A equipe de pesquisadores instalou armadilhas fotográficas em uma área de 60 mil quilômetros quadrados no norte da Ucrânia, que incluiu a Zona de Exclusão de Chernobyl (CEZ), quatro reservas naturais próximas e várias zonas sem proteção oficial. Essas armadilhas fizeram registros durante os anos de 2020 e 2021. O que os cientistas não esperavam era que a CEZ fosse ter mais vida do que as reservas naturais: das 31.200 detecções feitas de 13 espécies silvestres diferentes, 19.832 foram registradas dentro da área onde a usina explodiu. Esse resultado é ainda mais fascinante quando lembramos que os números não representam animais individuais, mas espécies. Os modelos estatísticos elaborados a partir desses dados surpreenderam os cientistas, pois a diversidade, a densidade e a frequência de detecção da fauna foram significativamente maiores dentro da zona de exclusão do que em reservas para a conservação. Lobo-cinzento em uma área central da Zona de Exclusão de Chernobyl (CEZ) Svitlana Kudrenko Grande parte do motivo pelo qual a fauna voltou a se desenvolver na região se deve à uma explicação simples: a falta de interferências humanas desde 1986. Esse afastamento dos seres humanos permitiu que a fauna se adaptasse à Chernobyl. Não à toa, Svitlana Kudrenko, da Universidade Freiburg (Alemanha), em entrevista à IFLScience, compartilhou que ficou “surpresa com o fato de a diversidade geral de espécies ser menor nas reservas naturais em comparação com a CEZ”. Dentre as mudanças que ocorreram em diferentes populações de animais que convivem na região, ela destacou que esperava um número maior de raposas-vermelhas, já que se trata de uma espécie bem adaptável. A notícia boa, por outro lado, foram os mais de mil registros feitos de cavalos-de-przewalski. Tratam-se de animais que eram considerados extintos da natureza desde a década de 1990 e que, após uma forte reformulação ecológica, voltaram à prosperar. Mas… e a radiação? Apesar de o estudo não ter acompanhado os efeitos da contaminação radiológica, os pesquisadores afirmaram que os animais parecem estar se adaptando ao ambiente hostil. Uma das justificativas vem de um projeto de pesquisa realizado em 2024, que indicou que os lobos-cinzentos da CEZ apresentavam sistemas imunológicos semelhantes aos de pacientes humanos submetidos à radioterapia, e podem ter desenvolvido mutações protetoras. Ainda assim, o artigo reforça a necessidade de continuar o monitoramento das áreas de vida selvagem a longo prazo, mesmo que as condições se tornem difíceis ou perigosas. “Pesquisas precisas e sistemáticas sobre a vida selvagem são vitais para uma gestão eficaz da fauna e flora. Reduzir os padrões e requisitos de pesquisa para áreas complexas é muito tentador, mas deve ser evitado, pois isso poderá levar a uma gestão equivocada. Nosso estudo, assim como muitos outros, forneceu evidências de que áreas protegidas espaçosas são vitais para a sobrevivência a longo prazo de espécies raras”, concluiu Kudrenko.
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