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SB64: Os babados por trás das negociações de adaptação climática na ONU

Um só Planeta [Unofficial] June 22, 2026
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Olá minha lindeza climática <3 Essa semana participei da #SB64, a 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários da UNFCCC. O encontro, conhecido por ser uma reunião preparatória para a próxima COP, ocorreu entre os dias 08 a 18 de junho de 2026 na cidade de Bonn, na Alemanha. Basicamente, representantes das partes (diplomatas e funcionários técnicos do governo) realizaram diversas negociações sobre mitigação, adaptação, financiamento, medidas de resposta e meios de implementação para avançar nos textos que serão discutidos durante a próxima Conferência das Partes, que será realizada em novembro, na Turquia (COP 31 - Antalya). Como integrante da delegação do Instituto Perifa Sustentável, membro da Rede Vozes Negras Pelo Clima e correspondente da Agência Jovem de Notícias, decidi me dedicar à agenda de adaptação. Essa foi a primeira vez que acompanhei a #SB e confesso que foi um baita desafio entender toda a dinâmica, siglas, vocabulário técnico e metodologia das negociações. No entanto, sobrevivi e vim aqui para contar as fofocas rs :) Escrevo este texto para dividir percepções, resultados e alguns sentimentos que ficaram bem vivos durante a conferência. Além de ocupar espaços, também quero abrir caminhos. Desse modo, preparei um compilado bemmm didático com alguns pontos que observei na agenda de adaptação (até porque não quero que as próximas jovens mulheres negras que participarem das SBs se sintam tãoooo perdidas como eu me senti rs). Initial plugin text A COP 30, que aconteceu no ano passado no Brasil, trouxe resultados bem positivos para a agenda de adaptação, principalmente em relação à aprovação do Belém Adaptation Indicators - BAI (conjunto de 59 indicadores para medir o progresso global em adaptação) e do Belém-Addis Vision on Adaptation - BAV (processo de 2 anos para alinhar esses indicadores às políticas nacionais). Também rolou um esforço grande para triplicar o financiamento de adaptação, mas as perguntinhas de sempre ficaram ecoando na sala: “Dinheiro para quais países? Quais serão os indicadores utilizados? Quem vai coordenar esse processo? Quem vai assumir a responsabilidade e financiar todo esse rolê???” Pois é, minha cara leitora. Ano vai, ano vem e todo esse bafafá climático parece preso num eterno déjà-vu... Cerca de 8 meses após a COP 30, a SB64 até tentou transformar essas decisões em algo mais prático, mas grande parte das negociações apenas mostrou a incapacidade dos países em entrar num consenso. Apesar dos pesares, eu cheguei mega animada para acompanhar a segunda semana de negociações, com foco em 3 agendas: Global Goal on Adaptation - GGA: busca aumentar a capacidade adaptativa dos países, fortalecer a resiliência e reduzir vulnerabilidades diante da crise climática; Nairobi Working Program - NWP: levanta perguntas sobre como produzir conhecimento para implementar o GGA; Adaptation Communication - AdComs: plano para entender como os países vão comunicar suas prioridades, ações e necessidades de adaptação dentro dessa nova arquitetura. Mas olha, foi só eita atrás de vixe! D: Com a aprovação do Belém Adaptation Indicators (BAI) na COP 30 - Belém, os países tinham a missão de operacionalizar esses resultados, respondendo questões sobre como esses indicadores vão funcionar, quem é que vai coordenar, como os países vão reportar e quem vai financiar toda essa implementação. De forma direta, os Países em desenvolvimento queriam que a discussão sobre GGA fosse sobre financiamento e meios de implementação. Já os Países desenvolvidos tentaram manter a conversa mais concentrada na parte técnica, na metodologia dos indicadores, metadados e composição da força-tarefa. Mas a real-oficial é que não adianta nada criar indicadores chiques se os países mais vulneráveis não tiverem dinheiro e capacidade institucional para coletar dados, planejar políticas e implementar as ações! Outro ponto que gerou disputa foi em relação à força-tarefa do BAV. Enquanto Brasil e a União Europeia defendiam um grupo de trabalho conduzido por especialistas técnicos, o grupo LMDCs (Like-Minded Developing Countries/Países em Desenvolvimento com Posições Semelhantes), Grupo Árabe e Grupo SUR queriam que o processo fosse conduzido e controlado pelas partes, ou seja pelos países membros da UNFCCC. Na minha visão, o Brasil teve essa postura porque queria manter o seu legado e proteger a viabilidade do processo, que foi aprovado a duras penas em Belém. Já a União Europeia queria manter o texto mais técnico, focando mais em como medir adaptação para evitar abrir o diálogo sobre quem é que vai arcar com o financiamento para a adaptação dos países menos desenvolvidos. E juro, essa foi a questão de maior tensão: a triplicação do financiamento de adaptação, que se refere a sair da meta anterior de US$40 bilhões por ano acordada na COP 26 - Glasgow para algo em torno de US$120 bilhões por ano até 2035. Os países em desenvolvimento queriam manter essa referência forte no texto, mas é óbvio que os países ricos não quiseram se comprometer oficialmente… Gif Money Reprodução Outra rusga que surgiu nos debates de adaptação foi em relação ao papel do Baku Adaptation Roadmap, o famoso BAR. Esse processo foi lançado na COP 29 - Baku, com o intuito de organizar a agenda de trabalho de adaptação entre 2026 até 2028. Para os países em desenvolvimento, o BAR deveria tratar de meios de implementação, mas para os países desenvolvidos, ele poderia ficar mais focado em coerência, workshops e aspectos técnicos. “Enquanto países em desenvolvimento desejam que esse processo seja capaz de discutir as condições reais para que a adaptação aconteça, os países ricos querem ficar apenas de conversinha técnica para alinhar metodologias.” Foi tanta treta que as negociações foram elevadas ao nível dos Chefes de Delegação. No último dia, as presidentes da SB até tentaram sair com algum acordo dessa agenda, propondo encontros bilaterais e huddles (conversas dos países em rodinhas com seus grupos de interesse). No entanto, o GGA foi um caos total e entrou na Regra 16: as partes não conseguiram chegar num consenso e as discussões foram adiadas para a COP 31 - Antalya. Para piorar, as negociações sobre Adaptation Communications - AdComs também não avançaram. Basicamente, Adcoms são a "comunicação para a Adaptação”, ou seja, documento no qual os países apresentem à UNFCCC suas prioridades de adaptação, necessidades de implementação e planos para avançar com a agenda. A treta que rolou foi que Japão, União Europeia e Reino Unido defendem que qualquer revisão das orientações das AdComs deveria acontecer depois da revisão das regras do sistema de transparência do Acordo de Paris, o Enhanced Transparency Framework (ETF). É neste processo que a cada dois anos, os países entregam os BTRs, os Relatórios Bienais de Transparência (o primeiro relatório deveria ter sido entregue até 31 de dezembro de 2024, mas muitos países atrasaram ou fizeram entregas incompletas). O LMDCs e o Grupo Africano, se posicionaram contra. Eles disseram que se as AdComs ficassem explicitamente amarradas a esse processo de transparência, elas se tornariam apenas mais um instrumento burocrático de prestação de contas. Contudo, elas possuem uma função política bem importante dentro da própria agenda de adaptação, servindo para comunicar necessidades, vulnerabilidades, prioridades nacionais e demandas por apoio. É aqui que ecoam as perguntas: Qual deve ser o papel das Comunicações de Adaptação nesse novo sistema? Elas devem dialogar com os indicadores do GGA? Devem ser conectadas ao sistema de transparência do Acordo de Paris? Ou isso criaria mais carga de reporte para países em desenvolvimento? Como você já deve ter percebido minha cara leitora, as negociações sobre AdComs não produziram consenso e foram encaminhadas para continuidade na COP 31, com todo o texto permanecendo entre colchetes. Masssss, apesar do sentimento de derrota que imperou na conferência, houve pequenos avanços na pauta: o Nairobi Working Program (NWP) avançou como uma das poucas trilhas de adaptação que conseguiu concluir suas negociações. Mesmo com a torta de climão das outras frentes, a aprovação do texto reforçou o papel do NWP como plataforma de conhecimento para apoiar a implementação da adaptação, fortalecendo a cooperação internacional e aproximando governos, universidades, especialistas e outros órgãos da UNFCCC. Initial plugin text A real é que Bonn foi o primeiro teste político da COP 31, e apesar da falta de consenso, a adaptação esteve no centro das discussões da SB64. Agora, é necessário entender como será feito o financiamento e quais serão os meios de implementação utilizados. Países em desenvolvimento desejam recursos, tecnologia, capacitação, fortalecimento institucional e condições efetivas de acesso. Já os países desenvolvidos querem ir com calma, discutir parágrafo por parágrafo e se esquivar de novas obrigações econômicas. Num mundo marcado pela crise do multilateralismo, elevação do custo de vida, políticas anti-migratórias, cortes em cooperação internacional e toda uma reorganização geopolítica por conta da Guerra, Bonn mostrou que a adaptação climática está ganhando espaço, mas ainda não encontrou um caminho efetivo para sair do papel. Mais Lidas

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