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Antes da COP31, Bonn testa se a promessa climática vira entrega

Um só Planeta [Unofficial] June 10, 2026
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A SB64 começou em Bonn, na Alemanha, e talvez seja uma das conferências menos compreendidas por quem acompanha a agenda climática apenas pelas COPs. Ela não tem o mesmo brilho midiático, não costuma reunir tantos chefes de Estado e dificilmente ocupa manchetes por muitos dias. Ainda assim, é aqui que parte importante do jogo começa a ser decidida. Bonn é onde os países testam posições, disputam linguagem e tentam transformar decisões anteriores em caminhos para a próxima COP. Depois da COP30, a Conferência de Clima da ONU em Belém, a SB64 funciona como um teste de implementação: o sistema climático internacional será capaz de transformar reconhecimento político em entrega concreta? Essa pergunta me acompanha de forma muito direta. Como ativista negra, não consigo olhar para as negociações como um debate abstrato entre siglas como GGA, BAR, NAPs, NCQG, GST, BTRs, L&D e Artigo 2.1(c). Quando os países discutem adaptação, financiamento, indicadores e planos nacionais, eu penso na minha família, nos meus amigos, nos territórios de onde venho e por onde caminho, nas periferias que alagam e nas casas que esquentam demais. A crise climática chega primeiro em forma de enchente, calor, doença, insegurança alimentar, remoção, luto e ausência do Estado. E se os impactos têm cor, território e história, as negociações também precisam nomear isso. É por isso que Bonn importa. Uma das discussões centrais desta conferência passa pelo Objetivo Global de Adaptação, o GGA. A ideia é medir se o mundo está se preparando melhor para os impactos climáticos. O problema é que medir adaptação é mais difícil do que contar emissões. Como medir uma comunidade que conseguiu permanecer no território porque houve política pública antes da emergência? Indicador também é poder. O que o sistema mede tende a orientar o que ele financia. E o que ele financia ajuda a definir quem será protegido primeiro. Depois da COP30, os Indicadores de Belém deixaram lacunas importantes. Agora, a SB64 abre uma nova etapa: testar, ajustar e conectar esses indicadores a outros processos, como a Visão Belém-Addis e o Roteiro de Adaptação de Baku. Embora a COP30 tenha aprovado 59 indicadores, muitos ainda são contestados e não estão prontos para serem operacionalizados. Por isso, a SB64 deve iniciar discussões técnicas para definir melhor esses indicadores e alinhar metodologias. Essa é uma das funções concretas de Bonn: organizar o trilho. Definir se chegaremos à COP31 com mais nitidez, coerência e capacidade de implementação, ou se a mudança que precisamos continuará presa em mandatos sobrepostos, respostas frágeis e promessas sem entrega. Bonn não vai drenar uma rua amanhã. Não vai reassentar uma família na semana que vem. Mas pode ajudar a definir se a arquitetura internacional da adaptação vai produzir condições para que isso aconteça: melhores indicadores, planos mais coerentes, financiamento conectado à implementação e pressão política suficiente para que adaptação não siga como agenda lateral. Na COP30, em Belém, o reconhecimento de afrodescendentes em textos das negociações climáticas foi uma conquista importante dos movimentos negros, mas reconhecimento não pode ficar apenas no campo simbólico. Se essa presença não aparecer nas políticas públicas, o texto avança mais rápido que a proteção real. Os Planos Nacionais de Adaptação também precisam sair do PDF. Para o Brasil, isso significa conversar com quem vive o risco, não apenas com quem desenha mapas de risco. Uma política aparentemente universal pode proteger melhor quem já estava mais protegido. Pode falar de resiliência urbana sem perguntar por que algumas pessoas sempre precisam ser resilientes demais. Eu não quero celebrar resiliência enquanto a mesma casa alaga toda vez que chove. Resiliência, sem justiça, vira só outro nome para “sobreviver ao abandono”. E nada disso acontece sem financiamento. Sem dinheiro, adaptação vira intenção vazia. Sem financiamento acessível, previsível, público e justo, países em desenvolvimento seguem sendo cobrados por planos que não têm como implementar. A Nova Meta Coletiva Quantificada estabeleceu US$ 300 bilhões anuais até 2035 para países em desenvolvimento, com o esforço de ampliar o financiamento climático para US$ 1,3 trilhão por ano. Mas o número sozinho não responde ao essencial: dinheiro de onde, para quem, em quais condições e para quais prioridades? Se o recurso chega como empréstimo, pode aprofundar dívida. Se chega tarde, não previne desastre. Se só financia o que dá retorno financeiro, deixa de fora aquilo que salva vidas, mas não dá lucro imediato: saneamento nas periferias, cuidado comunitário, prevenção, moradia segura, saúde pública, reconstrução de territórios. Estar em Bonn, para mim, é carregar essa tensão: reconhecer avanços, celebrar conquista, mas recusar a ideia de que textos oficiais bastam. A diplomacia climática gosta de falar em implementação. Então sejamos objetivos: implementação é fazer com que a próxima chuva não encontre as mesmas famílias no mesmo risco, esperando a mesma nota de pesar. Se isso acontecer, não faltou previsão. Faltou política. Mais Lidas

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