External Publication
Visit Post

Indústria de alimentos está de olho nos usuários de canetas emagrecedoras

Home | Época Negócios [Unofficial] May 19, 2026
Source
Este ano, 11% das pessoas ao redor do mundo já fizeram uso das canetas emagrecedoras, como Ozempic e Wegovy, de acordo com a pesquisa Consumer Pulse 2026 da Bain & Company. No Brasil, estudo do Instituto Locomotiva mostra que 1 a cada 3 domicílios (33%) tem ao menos um morador que usou ou ainda usa esses medicamentos. Desenvolvida originalmente para o tratamento do diabetes e popularizada por conta da perda de peso que proporciona, essa classe de remédios rapidamente passou a influenciar hábitos cotidianos. O ponto é que, ao reduzir o apetite e prolongar a sensação de saciedade, ela vem alterando não apenas o quanto as pessoas comem, mas também o que comem. O efeito já é sentido pela indústria alimentícia, que se vê pressionada a rever portfólios e fórmulas e repensar estratégias e quantidades. “Como qualquer medicamento, as canetas emagrecedoras também trazem efeitos colaterais, e um dos principais é a perda de massa magra. Em qualquer processo de emagrecimento isso já acontece, em média, na proporção de três quilos de gordura para um de massa magra. Com esses fármacos, no entanto, essa relação pode ser ainda mais desfavorável”, aponta Durval Ribas Filho, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran). “Diante disso, a indústria passou a enxergar uma oportunidade: desenvolver produtos com maior concentração de proteína, nutriente fundamental para preservar ou promover ganho de massa muscular”. O especialista aponta que a recomendação proteica para uma pessoa com dieta padrão de 2.000 calorias gira entre 0,8 e 1 grama por quilo de peso corporal ao dia. Já entre usuários de medicamentos como Ozempic e Wegovy, que costumam reduzir a ingestão calórica para cerca de 1.500 calorias diárias, essa necessidade pode mais do que dobrar, chegando a 2 gramas por quilo. “O problema é que atingir esse volume de proteína com uma ingestão calórica tão baixa é um desafio. Por isso, em muitos casos, torna-se necessário recorrer à suplementação proteica”, explica Filho. Outro ponto de atenção em relação aos medicamentos agonistas incretínicos, ele acrescenta, é que, normalmente, quando as pessoas comem menos ou fazem restrição calórica, é comum que tenham redução da ingestão de fibras dietéticas, solúveis e insolúveis. “Precisamos em torno de 25 a 35 gramas de fibra por dia, em uma dieta padrão de 2.000 calorias. Assim como acontece com a proteína, em dietas de 1.5000 calorias por dia, proporcionadas pelas canetas emagrecedoras, é difícil conseguir ingerir essa quantidade. E aí os alimentos com alto teor de fibra ofertados pela indústria podem ajudar”, salienta. A Nestlé foi uma das primeiras empresas a entrar nessa onda. Em 2024, ela lançou nos Estados Unidos a linha Vital Pursuit, composta por refeições congeladas desenvolvidas para oferecer suporte nutricional para usuários de fármacos antagonistas de GLP-1 e consumidores focados no controle de peso. Linha Vital Pursuit, da Nestlé, desenvolvida para oferecer suporte nutricional para usuários de canetas emagrecedoras e consumidores focados no controle de peso Divulgação Os produtos, segundo a companhia, são ricos em proteína, boas fontes de fibras, contêm nutrientes essenciais e têm porções menores, ajustadas ao apetite de quem utiliza esse tipo de medicação. No mercado norte-americano, inclusive, muitos alimentos estão sendo lançados com o selo “GLP-1 friendly” (ou "amigáveis ​​ao GLP-1”), com o objetivo de aumentar a sua visibilidade e, consequentemente, impulsionar as vendas. Mercado brasileiro Por aqui, a tendência de itens voltados a quem faz uso das canetas emagrecedoras começa a ganhar força. Uma das marcas de olho nesse público é a Vida Veg, fabricante de alimentos e bebidas plant-based. Nos últimos meses, ela lançou as linhas de iogurtes Veg Protein, com 5 gramas de fibra e 15 gramas de proteína por unidade, e IogVeg Zero, com 10 gramas de proteína por unidade. Outra novidade é a proteína culinária, com 60 gramas por pacote. Em junho, em São Paulo, durante a Naturaltech 2026, uma das maiores feiras da América Latina dedicada ao setor de produtos saudáveis, a empresa lançará mais seis SKUs que também terão como principal apelo maior aporte proteico e de fibras. Além disso, está fazendo o rebranding da linha Shake Veg Pro, para que, assim como os demais, entregue mais fibras e proteínas. “Prevemos que esses produtos irão responder por 25% da nossa receita”, diz Álvaro Gazolla, CEO da Vida Veg. “Existe um movimento mundial de consciência alimentar. E agora, com as canetas, os usuários têm feito escolhas alimentares cada vez mais seletivas. Há um cuidado maior com o tipo de proteína, com a densidade nutricional do alimento. E nós, como indústria, estamos de olho nisso.” Mais uma empresa que está levando esse novo público em consideração é a M. Dias Branco, fabricante de massas e biscoitos. Uma de suas diversas marcas, a Jasmine, lançou há pouco algumas opções de granola premium com, no mínimo, 19 gramas de proteína. “As canetas emagrecedoras se inserem dentro de uma pauta mais ampla de saudabilidade, que hoje já não é mais tendência, mas um fato consumado”, afirma Anna Carolina Teixeira, diretora de Marketing da companhia. “Nos últimos anos, observamos um estilo de vida cada vez mais consciente, em que a preocupação com saúde e bem-estar cresce de forma contínua e passa a abranger tanto o corpo quanto a mente.” Ela observa que o avanço de produtos com maior teor de proteína, fibras e melhor perfil nutricional reflete toda essa mudança. “O consumidor está mais informado e mais criterioso. Ele quer produtos saudáveis de verdade, e isso pressiona a indústria a evoluir”, completa. A Kraft Heinz Brasil investiu R$ 50 milhões para lançar no país o Ketchup Heinz Zero, com zero adição de açúcares, 50% menos calorias e 25% menos sódio que a versão tradicional. Apesar de os usuários de antagonistas de GLP-1 não serem o único foco, entram na equação. “Globalmente, a companhia está comprometida em entregar produtos cada vez mais equilibrados nutricionalmente e alinhados às demandas dos consumidores. Nos últimos cinco anos, por exemplo, foram reformuladas mais de mil receitas para adicionar proteínas e fibras, além da redução de açúcar, sal e gordura, sempre mantendo o sabor característico dos produtos”, ressalta o CMO Thiago Lopes. Ele destaca que o consumidor brasileiro tornou-se extremamente criterioso. “Dados de mercado indicam que cerca de 82% dos brasileiros leem os rótulos antes de fechar a compra e 59% buscam ativamente uma alimentação mais equilibrada. Identificamos que o maior desafio desse perfil não é apenas restringir calorias ou açúcar, mas encontrar produtos que entreguem bem-estar sem abrir mão do prazer e do sabor superior”, acentua. E completa: “O lançamento do Ketchup Heinz Zero é parte da nossa iniciativa global que mira reagir a esse perfil de demanda com um portfólio mais amplo e benefícios funcionais ainda mais variados”. Mais Lidas

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...