"Bafo de Ozempic" faz com que empresas vendam mais balinhas e chicletes para usuários de canetas emagrecedoras
Home | Época Negócios [Unofficial]
April 30, 2026
A crescente adoção dos remédios para obesidade e diabetes da classe GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, está gerando um efeito pouco intuitivo no mercado de alimentos: o aumento nas vendas de balas de menta e chicletes. Segundo a CNBC, o CEO da Hershey, Kirk Tanner, revelou que as vendas da marca Ice Breakers subiram mais de 8% no primeiro trimestre de 2026, e atribuiu a alta ao fenômeno. "Vimos uma demanda forte por chicletes e balas de menta, à medida que a categoria se beneficia de tendências de consumo funcional, incluindo a adoção dos GLP-1", disse Tanner em declaração antes da teleconferência de resultados da empresa. O que os remédios têm a ver com o hálito Os GLP-1 agonistas atuam estimulando a produção de insulina, reduzindo o apetite e retardando o esvaziamento gástrico. O que não constava nas bulas e passou a ser relatado por pacientes em grande volume é o mau hálito, apelidado informalmente de "boca do Ozempic". Trata-se de um efeito colateral não reconhecido oficialmente pelos fabricantes, mas que já mobiliza a comunidade odontológica. De acordo com a American Dental Association, casos de boca seca, inflamação nas gengivas e cáries estão sendo registrados com frequência entre usuários dessas medicações. A explicação mais aceita entre especialistas é que a semaglutida (princípio ativo do Ozempic e do Wegovy) afeta as glândulas salivares, reduzindo a produção de saliva. Com menos saliva circulando, bactérias associadas ao mau hálito e à formação de cáries, como Streptococcus mutans e Porphyromonas gingivalis, encontram condições favoráveis para se multiplicar, segundo análise publicada no The Conversation por pesquisador da Universidade de Lancaster, no Reino Unido. O consumo reduzido de líquidos, outro efeito dos GLP-1, que também suprimem a sede, agrava o quadro. A combinação de desidratação e alteração na composição da saliva forma o cenário que leva muitos pacientes a recorrer a balas e chicletes para aliviar o desconforto. Um mercado em expansão, com consequências para a indústria alimentícia O crescimento do uso de GLP-1 é uma das principais forças que a indústria de alimentos e bebidas monitora de perto. De acordo com projeções do J.P. Morgan Global Research, o mercado global de incretinas, classe que inclui os GLP-1, pode atingir US$ 200 bilhões até 2030. Cerca de 10 milhões de americanos já estavam em tratamento com essas medicações em 2025. A Hershey não é a única a registrar impactos positivos dessa dinâmica. A fabricante suíça Lindt & Sprüngli informou em março que as vendas de chocolate premium nos Estados Unidos cresceram mais entre usuários de GLP-1 do que entre o restante dos consumidores no ano passado. Já a Magnum Ice Cream Company comunicou a investidores que dados internos apontam para uma tendência de migração dos usuários dessas drogas para produtos mais caros — versões menores, com mais proteína ou ingredientes naturais. O CEO da empresa, Peter ter Kulve, descreveu o fenômeno como "efeito de substituição por produtos premium": à medida que os usuários de GLP-1 reduzem o consumo de alimentos ultraprocessados e de baixa qualidade, categorias como chocolate premium, sorvete gourmet e snacks proteicos tendem a ganhar participação de mercado. Para além das balas de menta, a Hershey também viu as vendas de suas barras de proteína subirem 17% no período. O conjunto desses fatores ajudou a receita trimestral da companhia a crescer mais de 10% no primeiro trimestre de 2026. Ainda assim, as ações da empresa recuaram mais de 2% durante o pregão do dia em que os resultados foram divulgados.
Discussion in the ATmosphere