Denise Fraga: "Exercício de presença pode ser aprendido diariamente olhando nos olhos de quem está falando"
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June 22, 2026
Tenho pensado muito a respeito da memória. Vejo tanta gente falar que anda esquecendo as coisas. É verdade que meu círculo de amigas e amigos é composto por várias pessoas que começam a demonstrar os primeiros sinais de envelhecimento da mente. Denise Fraga: "Todo mundo deveria fazer terapia" Denise Fraga: “O medo já faz parte da vida de qualquer cidadão, e prestamos um desserviço quando colocamos mais medos nas nossas crianças” Há também a menopausa com seu famoso nevoeiro mental, a covid que parece ter deixado sequelas... Enfim, motivos não faltam para justificar o esquecimento de palavras, nomes de pessoas, chaves e bolsas. Denise Fraga: "Exercício de presença não se aprende só no curso de meditação ou mindfullness. Pode ser aprendido diariamente olhando nos olhos de quem está falando" Magnific Mas sinto que não é só uma questão de idade ou fisiologia. A quantidade brutal de estímulos da vida digital talvez não esteja comprometendo apenas a nossa capacidade de imaginação, mas também a nossa capacidade de lembrar do que vivemos. O que faz a gente lembrar de alguma coisa? Tenho me perguntado. Acho curioso o fato de, muitas vezes, me lembrar de coisas banais e esquecer outras importantes. Lembrar do dia em que perdi um brinco do qual nem gostava tanto e não lembrar da primeira vez que dirigi um carro sozinha, por exemplo. Desconfio que tem a ver com o grau de presença. Nosso grau de presença é algo variável desde que o mundo é mundo. É algo que não pode ser bem controlado por nós, mas, mesmo na histeria desse tempo que nos rouba a plenitude das experiências, sinto que pode ser exercitado. Você já parou para pensar qual é a sua primeira memória? O que você lembra de mais antigo, de quando você era criancinha? Faça esse exercício. Tenho lembranças de uma casa da qual nos mudamos quando eu tinha 3 anos recém-feitos. Uma delas é bem curiosa. Eu sentada num peniquinho no meio da sala com pessoas me olhando esperando o meu xixi sair. Lembro do constrangimento. Não sei se por não conseguir fazer o tal xixi esperado ou por estar sentada num penico no meio da sala. Apesar da minha pouca idade, talvez eu já soubesse que aquele não era o melhor lugar para se fazer xixi. Ainda mais com torcida. Sempre tive uma curiosidade sobre esta memória. Porque, junto com ela, vem a lembrança de que eu tinha dificuldade para fazer xixi, digo, fisiologicamente, algum probleminha no aparelho urinário. E daí a torcida organizada. Mas eu só poderia saber disso pela mãe. Acho difícil, com 3 anos ou menos, ter a consciência de que eu não conseguia fazer xixi facilmente e por isso aqueles adultos legais estavam ali me incentivando. Por conta disso, fico me perguntando de quem é essa memória? Minha ou da minha mãe? Ou será que é uma imagem produzida pela minha mente quando minha mãe me contou, alguns anos depois, que, pequenininha, eu não conseguia fazer xixi? Coisa que ela mesma esqueceu e não pôde nem me confirmar, pois, já adulta, perguntei se se lembrava disso e ela disse que não. Mas me lembro vagamente de uma enfermeira, um hospital, a questão do xixi, ou seja, acho que é verdade. Mas o fato é que não sei mais se essa memória é minha ou construída pelo que minha mãe contou. A fronteira entre o que eu sentia e vivia e o que a minha mãe disse que eu sentia e vivia se diluiu. E aí chego onde eu queria chegar. Acho que somos um misto do que lembramos que somos, do que sentimos que somos e do que nos falam que somos. É fato que somos sempre a síntese de nosso ser mais íntimo com o nosso ser social, mas, se tivermos uma crise de amnésia, seremos simplesmente o que sentiremos no presente e o que dirão de nosso passado. Terceirizaremos a nossa memória e, portanto, a nossa história. A história do penico no meio da sala não é só minha. É minha e de minha mãe que, abrindo aqui um parênteses, pode ter sido a grande culpada por eu ter sido uma criança meiguinha. Me lembro dessa palavra, do número de vezes que ela contava coisas dizendo como eu era meiguinha. E, se isso a alegrava, mais meiga eu tentava ser para ter a certeza que ela gostaria de mim. E hoje, na maturidade, com muita terapia nas costas, vejo que não sou e não era tão meiguinha assim. Mas isso é matéria para outra crônica. Minhas investigações sobre nossa memória, sobre o enfraquecimento de nosso poder de lembrar das coisas tem me feito pensar no quanto precisamos criar entre nós, com nossa família, nossos amigos e nossas crianças, a noção de que construir memórias é uma capacidade. Um poder que depende da presença na experiência que se vive e que precisa ser cuidado porque, sim, está sendo, como tantas outras faculdades que temos, dinamitado pelo uso do digital. Exercício de presença não se aprende só no curso de meditação ou mindfullness. Pode ser aprendido diariamente olhando nos olhos de quem está falando, dando um abraço que abraça, um aperto de mão que aperta, dando bom dia lembrando que se quer que a pessoa tenha mesmo um dia bom, segurando a porta para alguém que vem logo atrás de você, perguntando e lembrando o nome de uma pessoa que te atende. Pode-se aprender a ouvir escutando, a ver enxergando, para finalmente se conseguir viver vivendo. Assim, poderemos seguir contando e ouvindo histórias, as que vivemos e as que ainda restam em nossa memória, algumas até construídas com relatos de alguém sobre nós, mas que, junto com todas as outras, podem nos devolver quem realmente somos. E seríamos muito melhores se ouvíssemos a história de alguém antes de ouvir a sua opinião. Demoraríamos a formar a nossa e teríamos menos preconceitos. Difícil? Eu diria divertido. Tenho me divertido com isso, verdadeiramente. Ativar a disponibilidade e a curiosidade para a experiência humana nesse planeta torna a vida, mesmo no meio do caos, mais divertida. Denise Fraga é atriz, casada com o diretor Luiz Villaça e mãe de Nino, 23 anos, e Pedro, 21 (Foto: Cauê Moreno/Editora Globo) Crescer
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