A revolução no tratamento da obesidade infantil: o que você precisa saber
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June 6, 2026
Ontem recebi uma mãe no consultório quase em lágrimas. Seu filho de 14 anos tinha passado a infância inteira ouvindo que precisava “comer menos e se mexer mais”. Ela já tinha tentado de tudo: nutricionista, educador físico, conversas difíceis na hora do almoço. Nada parecia funcionar de verdade. Quando funcionava, era por pouco tempo, e logo tudo voltava ao ponto inicial. Em um momento muito sincero, ela me perguntou: “Doutora, por que parece que meu filho está lutando contra o próprio corpo?” Hábitos formados nos primeiros anos de vida são fundamentais na prevenção à obesidade infantil Freepik Essa pergunta marca uma virada importante na medicina. Durante muitos anos, e estamos falando de mais de uma década sem grandes atualizações, tratamos a obesidade infantil como se fosse apenas uma questão de comportamento. Falávamos de força de vontade, de disciplina, de hábitos. Muitas vezes, sem perceber, colocávamos a culpa na criança e na família. Mas em janeiro de 2023, a Academia Americana de Pediatria trouxe novas diretrizes que mudaram completamente essa forma de enxergar o problema. A mensagem é clara: obesidade não é falha de hábito. É uma doença crônica, progressiva e com base biológica. Quando a conversa sobre o corpo se torna prejudicial: entenda o “fat talk” e como mudar essa dinâmica em casa Obesidade infantil: mães contam como lidam com o problema, que atinge cada vez mais crianças e adolescentes O que mudou nos últimos anos? Durante muito tempo, as opções de tratamento eram bastante limitadas. Tínhamos basicamente o orlistate, aprovado ainda no final dos anos 90, que atua reduzindo a absorção de gordura no intestino. O resultado, na prática, era uma redução modesta do índice de massa corporal. Nos últimos anos, porém, surgiram novos medicamentos que mudaram esse cenário. A liraglutida e a semaglutida passaram a fazer parte das opções terapêuticas, com um mecanismo completamente diferente. Em vez de agir no intestino, elas atuam no cérebro, nos centros que regulam fome e saciedade. A semaglutida, em especial, chamou atenção pelos resultados. Em estudos com adolescentes, houve redução significativa do índice de massa corporal. Para muitas famílias, isso representa mais do que números. Representa alívio, qualidade de vida e a sensação de que, pela primeira vez, o corpo começa a colaborar. Muita gente estranha e pergunta: “mas esses não são medicamentos para diabetes?” Sim, são. E isso ajuda a entender algo importante. Eles foram desenvolvidos para controlar a glicemia, mas também atuam nos mecanismos que regulam o apetite. Isso reforça uma ideia central: a obesidade tem raízes biológicas profundas. O novo paradigma, que ainda está chegando aos poucos Hoje, as recomendações já consideram o uso de medicamentos em adolescentes com obesidade a partir dos 12 anos, quando indicado. E não mais como última alternativa, depois de várias tentativas frustradas, mas como parte de um plano mais amplo desde o início. Para crianças mais novas, ainda existe mais cautela, e os estudos continuam em andamento. O que chama atenção é a velocidade com que novas evidências estão surgindo. A ciência tem avançado rápido, e isso muda a forma como pensamos o cuidado. 3 hábitos para combater a obesidade infantil Por que mudamos de ideia? Porque começamos a enxergar o impacto real dessa abordagem antiga. Repetir para uma criança que ela precisa emagrecer, que precisa se controlar, que precisa tentar mais, pode gerar sofrimento profundo. E, muitas vezes, não resolve o problema. Também entendemos melhor a fisiologia. Pedir para uma criança “ter mais controle” quando o próprio organismo está desregulado é como pedir um esforço impossível. Não é falta de tentativa. É o corpo funcionando de um jeito diferente. Outro ponto fundamental é o tempo. Quanto mais cedo a gente intervém, maiores são as chances de mudar a trajetória daquela criança. Não estamos falando só de peso. Estamos falando de prevenir diabetes, problemas cardiovasculares e também impactos emocionais importantes. Uma ressalva importante Esses medicamentos não são soluções mágicas. Podem causar efeitos colaterais, especialmente no início. Precisam de acompanhamento constante. E ainda não temos respostas de longo prazo para todas as faixas etárias. Por isso, o cuidado precisa ser individualizado e bem monitorado. Crescimento, desenvolvimento, estado nutricional, tudo isso deve ser acompanhado de perto. Mas qual é a grande mudança? Pela primeira vez, temos ferramentas que realmente ajudam. Não são perfeitas, mas fazem diferença. Aquela mãe do início da conversa agora tem opções reais. E o filho dela não precisa mais enfrentar isso sozinho. Enquanto isso, vale lembrar algo essencial: você não falhou. E seu filho não é fraco. Durante muito tempo, simplesmente não tínhamos as ferramentas certas. Ganho de peso acelerado em bebês eleva risco de obesidade infantil Receita para fazer em família: Wrap de frango desfiado com legumes Uma opção prática, versátil e que permite que cada um monte o seu, respeitando preferências e promovendo autonomia. Wrap de frango Arquivo pessoal Ingredientes 2 xícaras de frango cozido e desfiado (cerca de 300 g) 1 cenoura média crua ralada (80 g) 1/2 pepino picado em tiras finas (100 g) 1/2 xícara de tomate picado (80 g) 4 folhas grandes de alface 4 unidades de pão folha ou tortilha integral 2 colheres de sopa de iogurte natural (ou iogurte de sua preferência) 1 colher de sopa de azeite Sal e temperos a gosto (como limão, ervas secas ou páprica) Modo de preparo: Em uma tigela, misture o frango desfiado com o iogurte, o azeite e os temperos. Ajuste o sal se necessário. Deixe os legumes já lavados e cortados disponíveis em recipientes separados. Aqueça levemente as tortilhas ou pães, se desejar. Monte os wraps com o frango e os legumes, deixando que cada pessoa escolha a combinação que quiser. Enrole e sirva. Essa é uma receita simples, mas com um propósito maior. Envolver a criança na escolha e montagem dos alimentos ajuda a desenvolver autonomia, reduz a rigidez em relação à comida e torna o momento da refeição mais leve e participativo. Paula Pires é especialista em Endocrinologia, membro da Endocrine Society, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e da Associação Brasileira para Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (ABESO). Também é idealizadora do projeto "Médicos na Cozinha" e editora do livro "Médicos na Cozinha" Arquivo pessoal
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