NR-1: um caminho para o fim da hierarquia das dores
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May 31, 2026
Este mês de maio marca o início da vigência da mais atual versão da NR-1, norma que regulamenta a gestão de riscos profissionais para empresas no Brasil. A principal mudança é a inclusão da gestão de riscos psicossociais, que passam a ser reconhecidos em pé de igualdade com os outros já normalmente considerados, como os riscos físicos, biológicos ou ergonômicos. Essa é uma oportunidade para refletirmos sobre a curiosa dificuldade que temos para lidar com as questões da relação entre mente e corpo. Por que levou tanto tempo, e por que tanta dificuldade para reconhecermos que riscos psicossociais são tão importantes quanto quaisquer outros? Em seu influente livro “Justiça”, o filósofo Michael Sandel discute um interessante caso envolvendo uma medalha de honra, a “Purple Heart”, oferecida aos militares americanos feridos em combate. A honraria sempre foi estendida aos veteranos com ferimentos físicos debilitantes, não para aqueles com feridas mentais, como estresse pós-traumático, mesmo que intensamente debilitantes. Mas essa distinção faz sentido? Intuitivamente, quando não pensamos muito sobre o assunto, todos nós temos a impressão de que mente e corpo são duas coisas diferentes. Nossa vivência comum é a de que temos um corpo, como algo que nos pertence ou que habitamos, e o fato de termos essa relação com nosso corpo implica que nos vemos como algo diferente dele. Mas, se considerarmos a questão mais a fundo, precisaremos de alguma explicação para que “coisa” é essa que somos, além do nosso corpo. O que toda a ciência parece nos indicar, no entanto, é que somos, simplesmente, o nosso corpo. Pensamentos e emoções, personalidade e disposições, vontades e aspirações, tudo parece estar, de alguma forma, intimamente relacionado com estados físicos em nosso corpo: níveis hormonais, conexões neurais, estados metabólicos; o cérebro, que parece imprescindível para a existência e funcionamento dos estados mentais, está o tempo todo influenciando e sendo influenciado por todo o resto do corpo. Isso é mais óbvio, talvez, para quem trabalhe na área da saúde. Especialmente com saúde mental, mas não só. Qualquer pessoa que trabalhe em um pronto-socorro ou um posto de saúde observa essa estreita relação entre mente e corpo todos os dias. Pessoas com paralisia, crises convulsivas, hematomas pelo corpo, tosse, dores intratáveis, desmaios, perda de cabelo, tudo sem nenhuma outra causa que não estados mentais. Até a linguagem para falar disso é difícil. Falamos em “sem causas físicas” ou “sem causas médicas”, ou “psicossomático”, quando não se recorrem aos termos pejorativos, como “piti” ou “histeria”. Mas isso acontece porque ainda temos dificuldade de entender que estados mentais são estados físicos, são causas físicas, médicas, como quaisquer outras. Por isso, parece que só um preconceito incômodo, uma espécie de ignorância atávica, continua nos levando, como sociedade, a fazer essa separação arbitrária entre mente e corpo. A achar que quem adoece psicologicamente é de alguma forma menor, mais fraco, ou menos digno de ser levado a sério, que quem adoece fisicamente. A NR-1, ao menos textualmente, faz o movimento correto ao equiparar os riscos físicos e psicológicos. Mas ainda corremos riscos. O principal, a meu ver, é que uma vez que as empresas estejam em dia com seus certificados de gestão de riscos psicossociais, isso sirva de desculpa para desvalorizar ainda mais as queixas nessa área. Mas, para as empresas que se dispuserem a olhar para além da burocracia regulatória, e aproveitarem essa oportunidade para realmente ver a saúde mental de seus trabalhadores como prioridade, será um grande avanço. *Guilherme Spadini é psiquiatra, professor da The School of Life Brasil e diretor da área de psicoterapia da escola Mais Lidas
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