"É Meu": o movimento que quer ajudar pais a conversarem sobre o corpo com os filhos antes que seja tarde
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May 21, 2026
Um dado alarmante e que precisamos começar a olhar com mais atenção e ação: seis crianças de até 14 anos são estupradas por hora no Brasil. Esse é o número registrado em boletins de ocorrência — e representa apenas 10% dos casos, já que a maioria dos abusos nunca é denunciada. Esse foi só um dos números trazidos por Renata Greco, gerente de comunicação do Instituto Liberta, durante o evento de lançamento do movimento "É Meu", em São Paulo, capitaneado pelo O Boticário. Essas e outras informações que foram fornecidas aos presentes no evento da marca, na capital paulista, ajudam a dimensionar o tamanho de um problema que ainda encontra um obstáculo simples e poderoso pela frente: muitos pais nunca conversaram com os filhos sobre o próprio corpo. O movimento 'É Meu' foi lançado em evento no Boticário Lab Pinheiros, na capital paulista Tainá Goulart e Divulgação Veja por que 7 em cada 10 vítimas de violência sexual têm até 6 anos Um levantamento da YouGov, citado pela NSPCC, principal organização britânica de proteção infantil, mostrou que metade dos pais de crianças entre 6 e 17 anos nunca havia abordado o tema com os filhos. É para mudar essa realidade que a marca brasileira tomou a iniciativa de lançar o movimento, que foi desenvolvido em parceria com a psicopedagoga, educadora e autora de livros infantis Laila Romano. A proposta é simples e poderosa: transformar a rotina diária, especialmente a hora do banho, em um momento possível e natural para essa conversa. Por que essa conversa ainda não acontece? Para a diretora de Branding e Comunicação do Boticário, Carolina Carrasco, a ausência do diálogo não é falta de amor ou cuidado. É falta de ferramentas. "A gente sabe que existem temas que podem ser considerados sensíveis ou delicados, mas que são possíveis de serem abordados em rotinas de cuidado e diálogo. Criamos uma iniciativa que une conteúdo especializado, experiência e linguagem acessível para apoiar de forma prática, dentro da rotina diária", explica. Ela contextualiza o dado que motivou a iniciativa: as denúncias de abuso infantil cresceram mais de 190% nos últimos quatro anos no Brasil. "Entendemos que esse era um espaço em que deveríamos entrar como marca, com a missão de incentivar uma conversa necessária entre pais, adultos responsáveis e seus filhos." Para Laila Romano, o principal desafio está na forma como o tema é compreendido pelas famílias. Muitos adultos ainda confundem educação corporal com antecipação de assuntos que julgam ser 'para mais tarde'. "Na prática, trata-se de apoiar o reconhecimento do próprio corpo, a compreensão de limites e o desenvolvimento da autonomia de forma gradual e adequada à idade. O mais importante é que a criança tenha espaço para perguntar, se expressar e construir esse entendimento ao longo do tempo", explica a psicopedagoga. Ela também conecta esse diálogo ao desenvolvimento emocional mais amplo da criança. "Quando a gente ensina a nossa criança sobre o corpo, sobre limites e sobre proteção, ela aprende que o corpo dela tem valor. Vai criando autoestima ao longo do seu desenvolvimento. É no vínculo do dia a dia que a criança entende o que pensa, o que sente, que o seu corpo tem valor." Pais devem pedir permissão ao bebês antes de trocar a fralda, diz especialista O que os especialistas dizem: nomes certos, desde cedo O pediatra Tiago Ribeiro Vannucchi foi direto ao ponto durante o evento: educação sobre o corpo não é estimular a sexualidade precoce. É o contrário. "Educação e sexualidade é prevenção de abuso, é início mais tardio da vida sexual, prevenção de gravidez na adolescência. Não é estimular a prática sexual. É ter mais proteção." Ele defende que essa conversa começa muito antes do que a maioria dos pais imagina, e que o ponto de partida é nomear corretamente as partes do corpo. "A gente tem que nomear adequadamente, porque isso é proteção. Tivemos um caso triste em que um menino falava que o tio 'mexia' em um apelido que ele usava para o pênis. Se ele soubesse o nome correto, a comunicação teria sido mais clara desde o início." Para ele, assim como existe braço, perna e cabeça, existem pênis e vulva, e usar os nomes corretos desde bebê não é inadequado: é necessário. Vannucchi reforça que essa não precisa ser uma conversa formal e solene. "A gente tem que ensinar a privacidade com o sentimento, no dia a dia, conforme as dúvidas vão aparecendo. Às vezes, os pais têm a fantasia de que vai ter um dia fatídico, quando você vai dar uma grande conversa para seus filhos. Não é isso. É no dia a dia. Você está dando banho e a criança toca no próprio corpo: 'Calma, aqui é o meu corpo.' É assim." Renata Greco, do Instituto Liberta, trouxe um exemplo simples que ilustra bem a lógica do respeito ao corpo infantil. "Se uma criança está com o nariz escorrendo, eu vou lá e limpo. Não faço isso com um adulto, aviso que o nariz está escorrendo. Por que não fazemos isso com a criança? A partir do momento que ela nasceu, ela é um ser humano. Está aprendendo, está se desenvolvendo." Para ela, pedir licença antes de tocar, nomear o que está fazendo e explicar os cuidados com o corpo desde o início da vida são atitudes que constroem, com o tempo, uma criança capaz de reconhecer e comunicar quando algo está errado. Fausto Carvalho, o 'Menzinho', conta como transformou abuso sexual no esporte em humor e gratidão aos pais Como funciona o movimento "É Meu" O projeto se estrutura em três frentes principais. A primeira é uma plataforma educativa com materiais voltados para pais e responsáveis, orientando como abordar o tema de forma acolhedora e adequada a cada faixa etária. A segunda é um adesivo que pode ser colado em qualquer produto de higiene infantil, com QR Code que direciona para vídeos com orientações da especialista. A ideia é que qualquer sabonete possa se tornar um ponto de partida para a conversa, sem depender de um produto específico. A terceira frente é musical: uma canção original, desenvolvida em parceria com Jairzinho e Tania Khalill, do projeto Grandes Pequeninos, foi criada para traduzir a mensagem para a linguagem das crianças. "O uso da linguagem lúdica é essencial porque traduz temas complexos para a linguagem da criança. Música, repetição e brincadeira ajudam a fixar conceitos importantes de forma leve e didática", contextualiza Laila. A música estará disponível na plataforma S de Samba e nas redes sociais do O Boticário. Como parte do impacto social da iniciativa, uma linha do sabonete líquido infantil "É Meu" estará disponível no e-commerce da marca, com 100% da renda destinada ao Instituto Liberta, organização sem fins lucrativos dedicada à prevenção da violência sexual contra crianças e adolescentes. "Essa parceria é um reforço para transformar a realidade de um país", afirma Luciana Temer, presidente do Instituto.
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