Ela cogitou interromper a gravidez às vésperas da Olimpíada e hoje é mãe, atleta olímpica e capitã de time no X Games League
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May 29, 2026
A notícia chegou no início de janeiro. A Olimpíada era em julho. Gabriela Mazetto, skatista profissional e uma das principais representantes do Brasil na modalidade street feminino, descobriu a gravidez quando já estava com quase quatro meses — e com um pé dentro dos Jogos de Paris. O impacto foi imediato e brutal. "Eu fiquei muito, muito, muito mal. Cheguei a querer tirar", conta ela, sem rodeios e com a naturalidade de quem já processou aquilo e hoje consegue nomear o que sentiu sem se envergonhar disso. Gabi Mazetto e a filha Liz, de 4 anos Divulgação Jade Barbosa fala sobre a chegada da Eva e os desafios de ser ginasta e mãe pela primeira vez: "Ser mãe e ser atleta é algo novo" A gravidez de Liz não foi planejada. Gabriela menstruava normalmente, não havia sinal. Quando descobriu, o sonho olímpico, construído ao longo de anos de treino, sacrifícios e lesões, parecia desmoronar de uma vez. "Eu não conseguia aceitar. Achei que ia ter que abandonar tudo para cuidar dela." A rede de apoio que fez a diferença O que a tirou desse lugar foi uma combinação de fatores que ela mesma lista com gratidão: a psicóloga, que ela passou a ver duas a três vezes por semana; a mãe, que chegou a levar um padre à casa para rezar e 'tirar essa ideia da cabeça da filha'; e a família, que se colocou ao redor dela sem julgamento. "A psicóloga foi fundamental. Ela me explicou os riscos de interromper, que eu podia me arrepender depois, e foi me mostrando as coisas boas. Falou que eu era uma pessoa muito forte e que ia conseguir fazer tudo que eu queria fazer", relembra a atleta. Aos poucos, com seis ou sete meses de gestação, algo mudou. Gabriela começou a entender a maternidade não como um fim, mas como uma adição. "Percebi que ia ser mais uma coisa que eu precisaria fazer. E que não seria só por mim, mas por ela também. Aí eu falei: vou dar ainda mais do que já dava." Essa virada não aconteceu sozinha. E ela faz questão de dizer isso. A saúde mental teve papel central num momento em que a tendência era calar, engolir e seguir em frente como se nada tivesse acontecido. Falar sobre ter cogitado interromper a gravidez, num esporte em que se valoriza a garra acima de tudo, exige uma coragem diferente da que se vê nas descidas de pista. Gabriela não se esquiva. E ao não se esquivar, abre espaço para que outras mulheres em situação parecida se vejam representadas — e busquem ajuda. Initial plugin text Bia e Branca: "As comparações não vinham de dentro de casa, mas de fora" O que a maternidade transformou dentro e fora da pista Liz nasceu em julho de 2020, no auge da pandemia, e mudou tudo o que havia de organizável na vida de Gabriela. A atleta que, antes ia ao treino sem olhar o relógio, passou a operar com horários cirúrgicos. "Antigamente, eu ia sem preocupação, ficava o tempo que quisesse. Agora, tem hora exata para tudo", conta. No entanto, a mudança mais profunda não foi na agenda: foi na cabeça. "A maternidade me trouxe mais equilíbrio. Eu amadureci, mas sem perder minha criança interior. E eu não quero perder isso nunca, porque sou uma das pessoas mais felizes que existem, dependendo de tudo que aconteceu na minha vida." Essa frase, dita com leveza e sem nenhuma contradição, resume bem o que a maternidade parece ter feito com ela: acrescentou uma camada de maturidade sem apagar o que já existia antes. Essa transformação chegou à performance. Gabriela entrou nos Jogos Olímpicos de Paris com o braço machucado e o tornozelo torcido, mas estava lá, realizando o sonho de criança que uma gravidez inesperada quase impediu. Não foi o resultado que queria, mas foi presença. Foi a prova de que era possível. E que a Liz de certa forma, foi parte disso. "Ela me dá mais segurança de querer seguir em frente. Já pensei em desistir, mas acho que ela tá ali para me dar mais força, mais vontade de chegar em algum lugar." Initial plugin text Aos 16 anos, esgrimista Ana Beatriz Fraga vira a primeira brasileira campeã de Copa do Mundo e tem o pai como maior aliado Capitã de time, mãe de pista e a rotina que precisou ser reinventada Hoje, Gabriela é capitã do time São Paulo no X-Club, equipe ligada ao X Games League, que tem como General Manager Bob Burnquist, ícone do skate mundial. O papel vai além de andar bem: envolve liderança, referência e a responsabilidade de carregar o espírito de uma equipe. Uma função que, ela mesma reconhece, a maternidade ajudou a preparar. A rotina que construiu para conciliar tudo isso seria difícil de sustentar sem uma estrutura muito bem pensada. Às segundas, quartas e sextas, treino físico de manhã em Itanhaém. Liz vai junto, brinca por ali, aparece no meio dos exercícios para chamar a mãe. "Ela fica me chamando, querendo saber o que eu estou fazendo", conta Gabriela, rindo. Depois, voltam juntas para o almoço, seguem para a escola. À tarde, durante toda a semana, a atleta vai à pista. Quando não chove, treina até as 16h30 e corre para buscar Liz às 17h. Os fins de semana têm o skate também, mas de um jeito diferente. Às vezes, Liz vai à pista, pede para andar, fica olhando. "Eu fico com medo de ver ela tentando cair. Mas, eu não forço nada. Quero ser uma mãe bem de boa, quero que ela faça o que quiser. O que ela escolher, vou apoiar." Essa postura, de observar sem empurrar, aparece também na forma como Gabriela lida com as jovens atletas que estão chegando ao skate brasileiro. O Brazil é um fenômeno no skate, tanto no feminino, quanto no masculino, e ela acompanha de perto, e com um olhar que tem algo de maternal mesmo que ela não use essa palavra. "Se me pedem ajuda, vou e ajudo. Quando não me pedem, às vezes, dou uma dica. Mas, acima de tudo, respeito. Se a pessoa tá ali andando skate, ela escolheu. Tem os motivos dela." Rumo à próxima Olimpíada, com Liz do lado Atualmente em segundo lugar no ranking brasileiro, Gabriela está de olho nos Jogos de Los Angeles 2028. A vaga não está garantida, há etapas pela frente, tudo pode mudar. Mas, ela não fala sobre isso com ansiedade. Fala com a calma de quem já passou pela coisa mais difícil e sobreviveu. "Quero ir para mais uma Olimpíada. Tô ansiosa, mas vou seguir andando de skate, fazendo o que tenho que fazer e dando meu melhor." Liz vai fazer cinco anos em julho. Ainda não anda de skate de verdade, mas já sobe no shape. A mãe observa, com aquela mistura de orgulho e coração na mão que qualquer mãe de criança em cima de alguma coisa com rodas reconhece. "Eu quero que ela faça o que quiser." É a mesma coisa que a psicóloga disse para ela, anos atrás, quando o mundo parecia pequeno demais para caber uma gravidez e uma Olimpíada ao mesmo tempo.
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