"Esquece o controle. Essa foi a melhor lição da minha vida", diz Pamela Paiffer, diretora da Ford, sobre maternidade
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May 19, 2026
Antes de engravidar pela primeira vez, Pamela Paiffer sentou com o marido e foi direta. Ela não iria abrir mão da carreira. Não pediria transferência para uma área com menos viagens, menos eventos, menos demanda. Não ia acontecer. "Eu falei: você entende que a minha profissão é super importante para mim? Está claro, você apoia? E eu não tenho nenhuma previsão de mudar isso." Não foi um ultimato. Foi uma conversa. E foi esse papo, feito antes de qualquer teste positivo aparecer, que criou a base de uma parceria que a acompanha até hoje. Pamela Paiffer com os filhos Lucca e Desirée Arquivo Pessoal Cantora viraliza ao acolher filha no palco durante apresentação, em SP: “Ela só queria colo” Pamela é Diretora de Comunicação e Responsabilidade Social da Ford América do Sul, está na empresa há mais de 20 anos, entrou como estagiária e foi sendo promovida. As duas últimas promoções relevantes da carreira têm uma coincidência que ela mesma conta com orgulho e uma ponta de ironia: as duas aconteceram durante suas licenças-maternidade. A primeira, quando nasceu Lucca, hoje com 9 anos. A segunda, quando nasceu Desirée, hoje com 3. A conversa que ela tem com os filhos sobre isso é simples e poderosa: "Eu amo o que eu faço. As pessoas precisam da mamãe no trabalho. E é isso que a mamãe quer que você um dia descubra pra você: algo que seja absolutamente apaixonante." Uma vida em planilha... até a vida decidir diferente A executiva é, por formação de caráter e por admissão própria, uma pessoa de controle. Ela descreve a forma como sempre encarou a vida como um 'business plan'. Trinta anos: casada. Trinta e cinco: primeiro filho. Cada etapa planejada, cada transição prevista. "Eu olhava para minha vida numa planilha. Aqui eu estou no momento de estudo, aqui eu quero focar na minha carreira, aqui eu quero estar casada, até os 35 eu quero ter o meu primeiro filho." O Lucca nasceu quando ela tinha 34. Quase certo. Mas, é na parte seguinte que a vida começou a ensinar o que nenhuma planilha consegue prever. "A maternidade me ensinou, logo de cara, que esquece... Não tem mais controle. Esquece tudo que você aprendeu até aqui." É esse ensinamento, talvez o mais brutal e o mais libertador, que ela identifica como uma das maiores transformações que a maternidade trouxe para sua vida. E que, de quebra, mudou a forma como ela enxerga o controle no trabalho, nas relações, em tudo praticamente. A rede de apoio que torna tudo possível Pamela não romantiza o equilíbrio. Ela sabe que o que permite que ela trabalhe viajando, aceitando promoções durante licenças, indo a jantares noturnos e eventos de fim de semana, não é força de vontade sozinha. É estrutura. E ela nomeia essa estrutura com clareza e gratidão. "Eu não sei se eu teria a mesma capacidade de progredir profissionalmente se não tivesse alguém e toda a estrutura que eu tenho em casa." Seu marido, Felipe, com quem está há 15 anos, é professor, uma profissão com previsibilidade de agenda que nenhuma viagem de trabalho interrompe no meio do semestre. "Ele é absolutamente pai, em todos os sentidos que essa palavra possa ter." Os pais dela e os sogros também estão próximos e presentes. Essa rede não é detalhe: é o que viabiliza a Pamela profissional e a Pamela mãe coexistirem sem que uma destrua a outra. Mas, ela vai além da gratidão. Nomeia o que essa parceria significa de verdade: não se trata apenas de dividir o dever de casa ou buscar a criança na escola. É dividir a carga mental. É que o outro saiba, sem precisar ser lembrado, que o passeio da escola está chegando, que a roupa do Lucca está guardada no lugar errado, que a Dedé está passando por uma fase nova. "A parceria foi absolutamente vital para que eu continuasse a minha projeção profissional." A rede de apoio de Pamela permite que a executiva e a mãe coexistam de forma harmônica Arquivo Pessoal Mais de 70% das mães deixam de buscar novas oportunidades de trabalho devido aos cuidados com a casa e família O que muda quando você vira mãe — e como isso aparece no trabalho Entre as mudanças que a maternidade trouxe, Pamela compara duas viagens que fez na vida. A primeira é uma viagem que fez com o irmão, quando era jovem. No voo, um bebê chorava algumas fileiras atrás. Ela olhou, teve empatia, continuou. Anos depois, na outra viagem, já mãe, havia um bebê chorando em voo noturno. Dessa vez ela se levantou, perguntou se podia pegar, ficou brincando com a criança de madrugada até o menino cansar. "Eu não faria isso se eu não tivesse passado pela maternidade. Eu olharia, seria simpática. Mas, eu acho que eu não faria." Esse é o tipo de transformação que ela identifica com mais clareza: não mudou só a rotina. Mudou o olhar. "Como é que você não olha para as pessoas de uma forma diferente depois disso? Como é que você não enxerga diferente cada pessoa que está numa situação parecida com a sua?" No trabalho, isso se traduz em empatia mais afinada com outras mães, outros pais, pessoas em fases de vida parecidas. E também em algo mais prático: produtividade com propósito. "Cada segundo conta. Cada segundo a mais em casa com os meus filhos... conta. Então, eu busco ser muito eficiente, muito direta." Antes da maternidade, ela admite, havia uma relação mais serena com o tempo. Hoje, a objetividade entrou como ferramenta de cuidado. Não para ser menos presente no trabalho, mas para ser mais presente em casa. O redimensionamento de prioridades, ela diz, foi inevitável e necessário. Dois filhos, dois aprendizados diferentes Lucca e Desirée chegaram em fases profissionais distintas de Pamela, e cada um trouxe aprendizados diferentes. Com o Lucca, o choque foi maior. A primeira maternidade trouxe todos os sustos de quem nunca tinha passado por aquilo: noites sem dormir, amamentação até os dois anos, a dificuldade de voltar a ser ela mesma depois do nascimento. "Eu demorei muito tempo para voltar para mim e falar "Não, pera. O que eu gosto? O que a Pamela quer?" A culpa de gostar do trabalho, de querer viajar, de estar em eventos à noite, demorou para ser colocada no lugar certo. Com a caçula, apareceu uma Pamela diferente. "Você se trata melhor na segunda gestação. Você se perdoa mais, se cobra menos. A gente sabe que vai passar." E foi justamente no último mês da licença-maternidade de Desirée que chegou a ligação do chefe anunciando a promoção para Diretora. Ela estava mais inteira. Mais pronta para ouvir. Menos assustada. O Lucca, hoje com 9 anos, já questiona as viagens da mãe com a naturalidade de quem cresceu sabendo que ela existe além de casa. "Mamãe, você vai viajar de novo? Não acredito." E a resposta de Pamela é consistente, sempre a mesma: eu amo o que eu faço. Você vai encontrar isso pra você. E ela acredita. Não é discurso: é o que ela vive. Com os carros sendo seu universo, os filhos adoram os modelos que a mãe pega e a família vive aventuras incríveis em suas viagens Arquivo Pessoal Mãe e CEO: "A maternidade não pode ser tudo, mas pode ser o que transforma tudo" A culpa que a maternidade ensinou a largar Há uma frase que Pamela usa que resume muito do processo que ela atravessou: "Eu aprendi a me perdoar mais depois da maternidade." Antes, havia a crença de que dar 100% em tudo era possível e esperado. Depois dos filhos, essa ilusão foi desmontada. "Às vezes, 70% é bom. Às vezes, 80% passa. Tem coisa que você vai saber que 100% você tem que estar lá." Ela conta de uma noite recente em que estava escolhendo roupa até as 23h, exausta, depois de uma semana de eventos. O marido apareceu e perguntou por que ela ainda não tinha dormido. A resposta envolveu cada peça descartada e o motivo de cada uma. Ele olhou, disse que estava linda em qualquer uma, e foi dormir. Ela ficou mais um tempo escolhendo. Depois, acabou rindo de si mesma, pois percebeu que esse é o processo depois da maternidade, do imperfeito e humano, de aprender que não precisa ser tudo ao mesmo tempo o tempo todo. E, indo além, ela identifica essa 'confusão de sentimentos' como um dos maiores legados que Lucca e Desirée trouxeram para ela. Não só como mãe, mas também como pessoa.
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