Mãe e CEO: "A maternidade não pode ser tudo, mas pode ser o que transforma tudo"
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May 14, 2026
Sabrina Zanker sempre soube que queria chegar longe na carreira. Passou por finanças, comercial, marketing, fusões e aquisições, virou Country Manager da divisão de luxo da L'Oréal aos 36 anos, depois foi presidente da BP para a América do Sul. Cada movimento foi intencional, cada transição foi construída. Quando chegou o convite para assumir o comando da Época Cosméticos, empresa do grupo Magalu, ela mesma define como uma consolidação. Não uma chegada, mas um reconhecimento de tudo que veio antes. E no meio de tudo isso, ela criou dois filhos, Sofia, de 11 anos, e Téo, de 8, se divorciou, recasou e aprendeu, na prática, que ambição e maternidade não são polos opostos. São papéis que precisam aprender a coexistir, nem sempre de forma tranquila, mas sempre de forma possível. Sabrina Zanker, CEO da Época Cosméticos, com seus filhos, Sofia e Theo Arquivo Pessoal Mãe do jogador Lucas Paquetá conta como criou, protegeu e gerenciou a carreira dos filhos dentro do futebol A jornada até o topo e o peso de querer chegar lá Sabrina cresceu numa casa onde trabalhar era esperado, crescer era incentivado e ter ambição não era um traço a esconder. Ela mesma reconhece que isso foi um privilégio. Mas, mesmo com essa base sólida, os momentos de dúvida chegaram. "Eu tive vários momentos onde eu me culpava por ter essa ambição, onde eu me sentia mal de estar quase tendo que fazer uma escolha entre ser a mãe ideal e ser ambiciosa. A mãe que eu deveria ser, mas segundo quem? Segundo qual livro? Que norma?" Um dos momentos mais marcantes foi quando aceitou sua primeira posição de board com filho pequeno. A oportunidade era única, a vontade era real, mas a sensação que ficou não foi só de conquista. "Fui, mas fui dolorida. Me senti mal de estar tendo que fazer uma escolha. Mas depois entendi: essa escolha era minha, e eu precisava conviver bem com ela." Com o tempo, aprendeu que sofrer pela escolha feita é tão desgastante quanto não fazer escolha nenhuma. E parou de fazer isso. Organização como estratégia de sobrevivência Para quem olha de fora, parece impossível: CEO de uma das maiores plataformas de beleza do Brasil, mãe de dois, agenda cheia, viagens frequentes. Sabrina não nega a complexidade. Mas tem um método ou, pelo menos, três pilares que funcionam para ela. O primeiro é aceitar que não vai dar para tudo. "A priorização faz parte do amadurecimento. No início, eu achava que tudo dava, depois fazia escolhas e sofria por elas. Hoje, escolho e convivo bem. Isso leva tempo, mas chega." O segundo pilar é o que ela chama de parentalidade compartilhada, e vale dizer que ela usa esse conceito de forma ampla. Separada do pai dos filhos e casada novamente, ela construiu uma rede onde o ex-marido cumpre ativamente o papel de pai, e o marido atual participa como padrasto presente, buscando as crianças na escola, ajudando no dever de casa quando ela está num evento. "Eu reconheço esse lugar de privilégio, porque posso dividir. E essa divisão não é só fazer o dever de casa ou buscar na escola. É dividir também a carga mental, os aniversários, os passeios, o que tá chegando no calendário escolar." O terceiro pilar é a rede de apoio que vai além da família. Para Sabrina, pedir ajuda não é fraqueza, é estratégia. E, para quem ainda tem dificuldade com isso, ela deixa claro: sem rede, o equilíbrio não existe. Ele é uma ilusão bonita. A executiva conta com uma rede de apoio bem estratégica para dar conta da posição de CEO Arquivo Pessoal "Nossa realidade é caótica, mas cheia de amor", afirmam Bia e Branca, mães de 6 crianças Ambição feminina: o tema que ainda assusta Há uma pressão silenciosa que muitas mães conhecem bem. É aquela que aparece quando você começa a falar sobre onde quer chegar, que cargo quer ocupar, que negócio quer abrir, e sente os olhares se fechando levemente ao redor. Como se ambição e maternidade fossem palavras que não cabem bem na mesma frase. Sabrina discorda com firmeza. "Nas culturas latinas, a gente não consegue dissociar a mulher da mãe e essa mãe doadora é o grande problema. A gente tem essa questão da doação muito intensa, e se ela não se doa por completo, ela falha. Esse é o julgamento que ainda existe." E vai além: para ela, ressignificar a maternidade é uma questão quase política, especialmente para quem cria filhas. "Uma mãe feliz, realizada, que tem a própria vida, é muito melhor do que uma mãe que se doa, mas não está bem. Uma mãe feliz é um modelo." Ela é formada em psicanálise e faz análise há mais de dez anos. Não à toa, tem uma forma muito precisa de nomear o que acontece quando uma mulher sufoca a própria ambição. "O inconsciente coletivo já te limita. A cultura já faz esse trabalho de te dizer que é ou carreira ou maternidade. E aí você, inconscientemente, se limita, porque parece que é assim que tem que ser. Mas não é." O antídoto, segundo ela, é o autoconhecimento. Não o genérico, o de palco de evento corporativo. O real, que vem de entender, sem os filtros externos, que tipo de mãe você quer ser, e que espaço a maternidade vai ocupar na sua vida. Glória Pires e Cleo, mãe e filha na vida e no cinema: "O olhar carrega muita história" Que mãe você quer ser? A pergunta que muda tudo Sabrina faz coaching com mulheres que estão voltando da licença-maternidade e diz que a dificuldade mais comum não é técnica nem logística. É a culpa. E, para ajudá-las, o ponto de partida é sempre o mesmo: entender, sem julgamento externo, qual é a sua maternidade. "Você tentar tirar um pouco esses filtros, se escutar, entender qual é a maternidade que te cabe, como ela te serve, como você quer que ela seja. A partir daí, você consegue entender como as outras esferas coexistem." Ela leva onze anos de maternidade para falar isso com convicção. "Só hoje eu estou confortável nesse papel. Entendi qual é a mãe que eu quero ser. Me aceitei, me descobri. Mas, foi um processo, não foi rápido." E faz questão de dizer que a maternidade, apesar de transformadora e fundamental, não pode ser o centro de tudo. "Ela é uma parte muito importante, mas ela não pode ser tudo. E algumas mulheres vão querer que seja tudo, e tudo bem. O importante é que seja uma escolha consciente, não uma imposição." Sabrina afirma que a beleza pode ser um instrumento de resgate de identidade de muitas mães Arquivo Pessoal Mãe revela luta pela autonomia do filho autista: “Quero ficar em paz, porque um dia não estarei mais aqui” Beleza como ferramenta, não como padrão Como CEO de uma empresa de beleza, Sabrina tem uma visão clara e direta sobre o papel que o setor pode cumprir na vida das mulheres. E ela não romantiza. "A beleza pode ser um ato de opressão, dependendo dos padrões que se coloca. Mas, também pode ser um ato de mudança, porque a gente pode falar de diversidade, quebrar padrões, levantar autoestima." Para ela, a beleza funciona como ferramenta de resgate, especialmente no pós-parto, quando a autoestima feminina costuma estar mais fragilizada. Um creme, um perfume, um ritual de cuidado, podem parecer pequenos gestos, mas têm o poder de devolver à mulher uma sensação de presença em si mesma que a maternidade intensa muitas vezes apaga. "A ferramenta da beleza pode ser transformadora, e a Época acredita muito numa beleza plural, diversa, que realmente levante a autoestima de todas as mulheres, sejam elas mães ou não." Os filhos que entendem por que a mãe gosta de ir trabalhar Sofia e Theo sabem que a mãe é chefe. Recebem produtos em casa, veem propagandas, já foram ao trabalho com ela em eventos de família. E fazem perguntas. "Você gosta do seu trabalho?" Sabrina responde que sim, sempre, com entusiasmo real. Para ela, mostrar esse engajamento é também uma forma de educação. "Quero que eles sejam pessoas realizadas. Que, quando for a hora, escolham algo que os apaixone, não algo transacional." Sofia, aos 11 anos, já transita entre Arquitetura e Direito ao pensar no futuro. Já superou a fase das astronautas, o que Sabrina comenta com leveza. E há orgulho nisso, especialmente, quando a filha observa a mãe e começa a se projetar. É o ciclo que ela mesma viveu, de longe, observando as mulheres ao redor trabalharem e entendendo que isso também era possível para ela. "Eu sempre tive a clareza da minha ambição e que a carreira era muito importante para mim. Mas, isso não impediu os momentos de culpa, de dúvida, de questionar se eu estava fazendo certo." O que ficou, depois de tudo, é que fazer certo não tem um formato único. Tem o formato que cada mulher, com honestidade e sem os filtros do julgamento alheio, consegue construir para si.
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