DNA humano de milhares de anos é coletado pela 1ª vez em paredes de cavernas
Galileu [Unofficial]
June 25, 2026
Pela primeira vez, pesquisadores coletaram DNA humano antigo de milhares de anos atrás diretamente das paredes de cavernas pré-históricas, demonstrando que o material genético pode sobreviver por milênios. A pesquisa foi registrada na terça-feira (23) na revista Nature Communications. Os achados fazem parte do projeto Art, liderado por pesquisadores da Espanha e de Portugal, que tem como objetivo datar as pinturas rupestres mais antigas e caracterizar sua composição química. Em colaboração com pesquisadores do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva, na Alemanha, a equipe ampliou a investigação para incluir análises de DNA. Usando métodos de extração e sequenciamento de DNA de ponta, a equipe analisou fragmentos de paredes de cavernas pigmentados e não pigmentados, sedimentos, ossos e uma rara ferramenta antiga de aerógrafo usada para aplicar tinta. Ao todo, o estudo abrangeu 24 painéis de arte rupestre de onze cavernas. “Sabemos que algumas das pinturas rupestres foram aplicadas nas paredes das cavernas soprando ou esfregando pigmento na superfície", afirma em comunicado Hipólito Collado Giraldo, arqueólogo e especialista em arte rupestre do Governo da Extremadura, na Espanha, que reuniu a equipe do projeto. "Dada a enorme sensibilidade das atuais técnicas de análise de DNA antigo, estávamos ansiosos para ver se esse tipo de contato poderia deixar vestígios de DNA na arte rupestre, permitindo-nos obter perfis genéticos dos criadores da arte.” Principais achados Os pesquisadores encontraram vestígios de DNA humano antigo em uma crosta de calcita pigmentada coletada na Caverna do Escoural, em Portugal, assim como em várias partes não pigmentadas. Também havia indícios na Caverna de Covarón, no norte da Espanha, em superfícies sem pigmento. Das 120 amostras analisadas, apenas cinco continham DNA mitocondrial humano antigo: uma crosta de calcita com pigmento da Caverna Escoural, duas amostras sem pigmentação de uma galeria mais profunda do mesmo sítio e duas amostras sem pigmento coletadas ao lado de pinturas rupestres em Covarón. Coleta de amostras de pigmentos em uma figura de arte rupestre claviforme em Tebellín, Espanha © Alberto Martínez Villa; de: Bossoms Mesa et al., Nature Communications (2026) Duas dessas amostras não apresentaram DNA de fauna, um resultado raro que indica forte possibilidade de deposição direta por humanos, por meio de saliva, suor ou outros fluidos corporais. Já as outras três continham DNA humano e animal, sugerindo uma deposição indireta, provavelmente causada pelo transporte de sedimentos ou pela ação da água. “Embora não possamos conectar diretamente os vestígios de DNA humano antigo que encontramos à criação da arte rupestre, esta é a primeira evidência de preservação de DNA humano em paredes de cavernas por milhares de anos”, destaca a primeira autora do estudo, Alba Bossoms Mesa, pesquisadora de doutorado no Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva. DNA feminino e masculino Entre as cinco amostras com DNA humano antigo, três apresentaram perfis genéticos predominantemente femininos, uma foi associada a um indivíduo masculino e outra permaneceu indeterminada. Em Covarón, análises de amostras coletadas em áreas sem pigmentação mostraram que o DNA pertencia a humanos modernos ligados aos caçadores-coletores ocidentais, em linha com o que já foi observado em outras populações pré-históricas da Península Ibérica. Os pesquisadores também analisaram um aerógrafo pré-histórico feito de osso de ave encontrado na Caverna de Altamira, utilizado para aplicar ocre vermelho nas paredes. Apesar da expectativa de recuperar DNA proveniente da saliva dos artistas, nenhum material genético antigo foi identificado no objeto. Segundo a equipe, a intensa contaminação por DNA humano moderno e a limitação das amostras coletadas provavelmente impediram a detecção. Fragmento de calcita com pigmento na parte inferior, proveniente de Escoural, Portugal, armazenado em caixa de membrana. © Alba Bossoms Mesa Os resultados mostram que a presença de DNA humano em arte rupestre é rara. Entre os 24 painéis analisados, material genético antigo foi encontrado em apenas um deles e em dois pontos próximos a outros painéis. “A preservação de DNA humano em paredes de cavernas é altamente variável”, afirma Bossoms Mesa. “Mas, quando sobrevive, ele conta uma história poderosa.” O estudo abre novas possibilidades para investigar quem frequentou essas cavernas, permitindo identificar características como sexo biológico e ancestralidade genética. “Não se trata apenas de arte rupestre”, afirma o arqueólogo Hipólito Collado Giraldo. “Trata-se de compreender como as pessoas utilizavam esses espaços e onde deixavam seus vestígios.” O estudo demonstra que paredes de cavernas podem funcionar como verdadeiros arquivos genéticos, preservando evidências da presença humana muito depois do desaparecimento dessas populações. “Isto é apenas o começo”, afirma o paleogeneticista Matthias Meyer. Segundo ele, futuras pesquisas deverão ampliar as análises para outros sítios, estilos e técnicas artísticas, como estênceis de mãos e representações figurativas. Com isso, poderá ser possível identificar geneticamente alguns dos autores da arte rupestre produzida há milhares de anos.
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