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Primeiro vertebrado a conquistar ambiente terrestre não era como cientistas imaginavam

Galileu [Unofficial] June 19, 2026
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Um estudo publicado nessa quinta-feira (18) na revista Science sugere que os primeiros vertebrados tetrápodes — grupo que deu origem aos anfíbios, répteis, aves e mamíferos — provavelmente não passavam por uma fase de desenvolvimento larval, como se imaginava até então. Em vez de nascerem como girinos e sofrerem metamorfose para se tornarem adultos terrestres, da mesma forma como os anfíbios modernos fazem, esses animais primitivos já apresentavam desenvolvimento direto, crescendo como versões menores de si mesmos até atingirem a fase reprodutiva. Para chegar a essa conclusão, os autores, uma dupla de cientistas do Museu Field de História Natural, nos Estados Unidos, analisaram fósseis raros de recém-nascidos de embolômeros, predadores que lembravam uma mistura de crocodilo e enguia e viveram entre 350 e 280 milhões de anos atrás. Os exemplares, bem preservados, foram encontrados no sítio paleontológico de Mazon Creek, em Illinois, Nova peça no quebra-cabeça da evolução Os primeiros tetrápodes surgiram durante o período Devoniano, entre aproximadamente 419 milhões e 359 milhões de anos atrás. Foi nessa época que alguns vertebrados começaram a abandonar gradualmente os ambientes aquáticos e explorar a terra firme, uma mudança que abriu caminho para a enorme diversidade de animais terrestres existente hoje. Durante muito tempo, cientistas associaram essa transição aos anfíbios modernos, como sapos e salamandras. A lógica parecia simples: se os anfíbios atuais começam a vida na água como larvas e depois passam por uma metamorfose para viver em terra, talvez seus ancestrais também tenham seguido esse modelo. Mas os novos fósseis contam uma história diferente. Ao examinarem os exemplares juvenis dos embolômeros, os pesquisadores não encontraram sinais de brânquias externas nem de outras características típicas de larvas aquáticas. A ausência desses traços sugere que os animais já apresentavam, desde cedo, uma forma corporal semelhante à dos adultos. “Esses são detalhes íntimos dos primeiros momentos da vida desses animais. Nunca vimos isso antes para toda essa parte da árvore evolutiva”, afirma o pesquisador de pós-doutorado em biologia evolutiva Jason Pardo, que assina como coautor do estudo, em entrevista ao portal Live Science. Desenvolvimento direto Em termos simples, desenvolvimento direto significa crescer sem passar por uma transformação corporal radical. Os seres humanos são um exemplo desse processo. Um bebê nasce com a mesma estrutura básica que terá quando adulto: cabeça, tronco, braços e pernas. O organismo amadurece, mas não sofre uma metamorfose. Por sua vez, muitos anfíbios apresentam desenvolvimento indireto. Um sapo, por exemplo, nasce como girino, equipado com cauda e estruturas adaptadas à vida aquática. Apenas depois ocorre a metamorfose que transforma o animal em um adulto terrestre. Segundo os autores, os primeiros tetrápodes analisados parecem ter seguido o primeiro modelo. A equipe também examinou fósseis de outros grupos relacionados, incluindo peixes megalictídeos — que viveram antes da conquista da terra — e os aistópodes, criaturas alongadas e sem membros que viveram durante esse período de transição. Em todos os casos, os sinais observados apontaram para o desenvolvimento direto. Impacto da descoberta no debate científico Embora o estudo tenha recebido atenção por desafiar uma visão amplamente difundida sobre a evolução dos primeiros vertebrados terrestres, os próprios autores reconhecem que a questão é mais complexa do que uma simples revisão de paradigma. Para Pardo, a ideia de que os primeiros tetrápodes passavam necessariamente por uma metamorfose semelhante à dos anfíbios modernos persistiu por muito tempo como uma interpretação comum da transição entre a vida aquática e terrestre. Os novos fósseis, porém, sugerem que essa narrativa pode não refletir a diversidade de estratégias de desenvolvimento existentes naquele período. “Desde que entendemos a evolução, presumimos essa história de como fizemos a transição da água para a terra. Na verdade, temos uma história completamente diferente”, destaca o pesquisador. Assim, os dados obtidos em Mazon Creek ajudam a preencher uma lacuna importante sobre os estágios iniciais da vida desses animais, oferecendo evidências diretas de como eles cresciam e se desenvolviam. Para além das implicações para a história evolutiva dos tetrápodes, o estudo destaca a importância de revisar hipóteses antigas à medida que novas evidências surgem. Os pesquisadores lembram que muitas interpretações sobre organismos extintos foram construídas a partir de comparações com espécies atuais, especialmente os anfíbios modernos. A descoberta de fósseis juvenis tão bem preservados permite testar essas hipóteses de forma mais rigorosa. “Acho que a principal mensagem deste estudo é que devemos sempre questionar o conhecimento convencional na ciência, especialmente quando essas ideias antigas não têm respaldo substancial”, avalia Arjan Mann, curador assistente no Museu Field de História Natural e coautor da pesquisa.

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