Como este bicho estranho sobrevive a 85ºC por mais de uma hora
Galileu [Unofficial]
May 30, 2026
Por serem chamados de “ursos d’água”, podemos acreditar que os tardígrados são seres grandes e intimidadores. Na realidade, trata-se de animais minúsculos – atingindo, no máximo 1,2 milímetro de comprimento – com capacidades impressionantes de resistir a ambientes extremos. Esses pequeninos conseguem sobreviver a calor intenso, temperaturas baixíssimas, radiação e baixos níveis de oxigênio, situações impossíveis até mesmo para humanos. Os tardígrados conseguem essas proezas por conta da anidrobiose, uma processo de vida suspensa que esses animais entram ao perderem a maior parte da água corporal e seu metabolismo parar temporariamente. Isso permite que eles sobrevivam em lugares extremamente secos, “voltando a vida” com a recuperação da umidade. Pesquisadores do Instituto Indiano de Ciência realizaram um estudo, publicado em 13 de maio na revista científica Journal of the Royal Society Interface, que buscou entender melhor o funcionamento do estado de hibernação desses seres através de experimentos em temperaturas altas. Corpo como abrigo indestrutível A espécie de tardígrado escolhida para a pesquisa foi a Paramacrobiotus sp.de cepa BLR. Ela foi descoberta em Bangalore, na Índia, e é conhecida por sua “indestrutibilidade” a níveis letais radiação ultravioleta. Um dos experimentos consistiu em colocar indivíduos da espécie – tanto no estado ativo quanto no de hibernação – em tubos de PCR a temperaturas variando de 45°C a 85°C, durante um hora. As fotos acima mostram a aparência de um tardígrado em seus dois estados, ativo (na esquerda) e em estado de hibernação (na direita) Sandeep Eswarappa, Arindam Ghosh, Divya Vishnu/Journal of the Royal Society Interface "O objetivo do nosso artigo era descobrir o limite de termotolerância do tardígrado e seu mecanismo. Para isso, construímos um aparelho de vácuo para direcionar o fluxo de calor através dos tardígrados. Isso nos ajudou a estimar as taxas de transferência de calor em dois estados diferentes dos tardígrados ", diz Sandeep Eswarappa, principal autor do estudo, em comunicado. A primeira conclusão do experimento não foi tão surpreendente: os tardígrados ativos não sobreviviam em nenhuma das altas temperaturas estipuladas, enquanto 90% daqueles em estado de hibernação sobreviveram nas mesmas condições, inclusive com alguns saindo vivos após uma hora numa temperatura de 85 °C. O que os pesquisadores descobriram é que uma redução da condutividade térmica dos tardígrados no estado de hibernação protege as suas células internas de danos associados ao intenso calor do ambiente. É uma conclusão interessante, já que sugere que a anidrobiose é sustentada não só por processos bioquímicos, mas também físicos. Leia mais notícias: Um propósito, diferentes adaptações “Diversos mecanismos de isolamento térmico são conhecidos em organismos macroscópicos, incluindo pelos em mamíferos, penas em aves e conchas em caracóis. Alguns organismos constroem estruturas isolantes externas, como cupinzeiros e casulos. Portanto, o amortecimento térmico por meio da redução da transferência efetiva de calor parece ser uma estratégia comum na biologia”, destacam os pesquisadores no artigo. As diferenças de isolamento térmico existentes nas espécies são uma informação que, para os pesquisadores, serve como incentivo a estudar outras espécies de tardígrados para investigação de suas capacidades de condução de calor em ambientes extremos. “A razão por trás da baixa condutividade térmica dos tuns estados de hibernação ainda precisa ser investigada. É provável que esteja intimamente ligada ao mecanismo da anidrobiose, que por si só é pouco compreendido”, completam.
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