De vantagem evolutiva a risco à saúde: como comer carne vermelha moldou nossa espécie
Galileu [Unofficial]
May 18, 2026
A carne vermelha pode ter sido uma grande aliada na evolução humana, ajudando ancestrais da nossa espécie a sobreviver, desenvolver seus cérebros e obter nutrientes essenciais. Mas o que um dia foi vantagem adaptativa pode estar hoje associado a doenças crônicas e crises ambientais. Isso é o que sugere um novo estudo publicado na revista The Quarterly Review of Biology. Conduzido por pesquisadores norte-americanos, o estudo analisou cerca de 3 milhões de anos da relação entre hominídeos e o consumo de carne vermelha, combinando evidências arqueológicas, dados evolutivos, epidemiológicos e moleculares. Segundo os autores, os primeiros hominídeos já consumiam alimentos de origem animal, em complemento a uma dieta predominantemente vegetal, antes mesmo do surgimento do gênero Homo. Evidências arqueológicas indicam que esses humanos ancestrais incorporaram de forma gradual a carne em suas dietas, não como alimento principal nas refeições, mas como uma estratégia alimentar ampla e flexível de sobrevivência. A equipe de pesquisa destaca que carnes magras, que estão incluídas em muitas dietas modernas, podem não ter sido a parte mais valorizada de um animal para esses ancestrais. “A presença cultural da carne vermelha nas dietas euro-americanas modernas, tipicamente centradas em bifes e assados, reflete ideais e preconceitos que influenciam as suposições sobre as dietas dos primeiros hominídeos”, afirmaram os autores em comunicado. Ao contrário da imagem comum que o ser humano moderno têm de que caçadores focavam em grandes bifes em suas refeições, os pesquisadores sugerem que eles provavelmente valorizavam partes mais gordurosas dos animais — como medula óssea, órgãos, tecidos ricos em calorias e até mesmo tecido cerebral. Isso porque esses alimentos forneciam alta densidade calórica e lipídios essenciais, especialmente importantes para o desenvolvimento do cérebro infantil. O estudo também questiona a ideia de que a proteína, sozinha, teria sido a principal responsável pela expansão cerebral humana. Para os pesquisadores, o sucesso evolutivo da espécie humana pode ter vindo de uma estratégia alimentar flexível e diversificada, combinando vegetais e alimentos de origem animal. A mudança de dieta e os impactos que ela trouxe O estudo aponta que a relação humana com a carne mudou após a expansão da agricultura, há cerca de 10 mil a 12 mil anos. Embora a agricultura tenha tornado o alimento mais disponível, ela também reduziu a diversidade alimentar. Os caçadores-coletores, que antes consumiam diversos alimentos, passaram a ter dietas baseadas em cereais e grãos, o que contribuiu para o aumento da deficiência de ferro, algo considerado incomum entre essas sociedades. Como aponta a revista Discover, a maior transformação alimentar, no entanto, pode ter ocorrido muito depois disso. Com a produção industrial de alimentos, a carne vermelha passou a ficar mais disponível e a ter um papel central nas refeições. Hoje, a indústria global da carne movimenta cerca de US$ 1,3 trilhão (cerca de R$ 6,52 trilhões na cotação atual) e continua crescendo, especialmente em países de baixa e média renda. Os pesquisadores alertam que os seres humanos e o meio ambiente podem estar pagando o preço devido a esse alto consumo moderno. A pesquisa destaca que estudos epidemiológicos anteriores, feitos durante anos, associam o consumo frequente de carne vermelha e carne processada a maiores riscos de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2, câncer colorretal e mortalidade geral. Vale a menção de que a Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC) classifica carnes processadas como um carcinógeno do Grupo 1 (que causa câncer em humanos), já as carnes vermelhas não processadas são consideradas como “provavelmente carcinogênicas” (Grupo 2A). Há literatura científica suficiente para embasar, também, que o consumo moderado de carne vermelha como fonte de proteína traz, sim benefícios comprovados à saúde. O lado negativo da carne vermelha Um dos pontos abordados pelo novo estudo é uma molécula chamada Neu5Gc (ácido N-glicolilneuramínico). Há cerca de 2 milhões de anos, os humanos perderam a capacidade de produzir naturalmente esse açúcar. Ainda assim, ele continua presente em carnes vermelhas consumidas atualmente. Quando ingerida, essa molécula de açúcar pode ser incorporada aos tecidos humanos e desencadear uma inflamatória crônica de baixa intensidade — processo conhecido como xenosialite. Essa inflamação pode estar relacionada ao desenvolvimento de aterosclerose (quando artérias sofrem acúmulo de gordura), progressão do câncer colorretal e até declínio cognitivo. A indústria pecuária se mostra uma grande responsável pelos efeitos ambientais no planeta, já que contribui com cerca de 15% das emissões globais de gases de efeito estufa, além do desmatamento, contaminação da água e resistência a antibióticos. Apesar dos resultados, os autores deixam claro que o estudo não é uma ordem para eliminar completamente a carne vermelha da alimentação. Em vez disso, contextualizam como os padrões modernos de consumo são totalmente diferentes daqueles vividos pelos ancestrais humanos. “A natureza, a escala e o contexto do consumo de carne vermelha hoje diferem drasticamente daqueles do nosso passado evolutivo”, concluíram os autores. Para eles, entender a história evolutiva da alimentação humana ajuda a explicar por que um alimento que já foi essencial para a sobrevivência pode trazer consequências negativas, quando consumido em excesso em outro período.
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