Como as células guardam uma "memória" da obesidade, segundo este estudo
Galileu [Unofficial]
May 3, 2026
Pesquisadores descobriram que o sistema imunológico pode guardar uma espécie de "memória" do excesso de peso, um efeito que persiste por anos, mesmo após a perda significativa de massa corporal. A pesquisa, conduzida por uma equipe europeia liderada pela Universidade de Birmingham e publicada na revista EMBO Reports, acompanhou diferentes grupos de pacientes ao longo de uma década. Os resultados apontam que células imunológicas específicas, chamadas linfócitos T auxiliares (CD4+), sofrem alterações duradouras em seu DNA. Essas mudanças ocorrem por meio de um mecanismo conhecido como metilação do DNA, um processo que funciona como uma espécie de "etiqueta química" capaz de regular o comportamento das células. No caso da obesidade, essas marcas parecem registrar o histórico metabólico do organismo. Para entender como esse processo ocorre, os pesquisadores também analisaram células de modelos de ratos alimentados com uma dieta rica em gordura e amostras de sangue de voluntários humanos saudáveis. Esses modelos experimentais ajudaram a investigar os mecanismos celulares que sustentam a desregulação imunológica associada à obesidade. “Os resultados sugerem que a perda de peso a curto prazo pode não reduzir imediatamente o risco de algumas doenças associadas à obesidade, incluindo diabetes tipo 2 e alguns tipos de câncer”, afirma Claudio Mauro, do Departamento de Inflamação e Envelhecimento da Universidade de Birmingham, coautor principal do estudo, em comunicado. Segundo o pesquisador, essa memória imunológica pode persistir por um período de cinco a dez anos após o emagrecimento. “O controle contínuo do peso após a perda fará com que essa ‘memória da obesidade’ desapareça gradualmente, mas isso pode levar vários anos”, explica. Impacto silencioso nas células A equipe identificou que essas alterações afetam diretamente dois processos fundamentais do sistema imunológico: a autofagia, mecanismo de limpeza celular, e a senescência imunológica, relacionada ao envelhecimento das células de defesa. Na prática, isso significa que o organismo pode continuar operando em um estado de desregulação mesmo depois da redução do peso corporal, o que ajuda a explicar por que algumas doenças associadas à obesidade continuam a surgir mesmo após o emagrecimento. “Nossos resultados mostram que a obesidade está associada a modificações epigenéticas duradouras que influenciam o comportamento das células imunológicas”, diz Belinda Nedjai, do Instituto Wolfson de Saúde Populacional da Queen Mary University London e autora principal do artigo. “Isso sugere que o sistema imunológico retém um registro molecular de exposições metabólicas passadas.” Além de aprofundar a compreensão sobre os efeitos da obesidade, o estudo também levanta novos desafios para o tratamento da condição. “Sabemos que a obesidade é uma condição crônica, progressiva e que pode acontecer novamente. Nossas descobertas ajudam a entender os mecanismos moleculares que podem impulsionar o risco de recaída”, conta Andy Hogan, do Instituto Kathleen Lonsdale de Pesquisa em Saúde Humana da Universidade de Maynooth, na Irlanda. Os cientistas também apontam possíveis caminhos terapêuticos. Entre eles está o uso de medicamentos que possam reduzir a inflamação e ajudar a eliminar células envelhecidas do sistema imunológico, como os inibidores de SGLT2, já utilizados no tratamento do diabetes. O estudo mostra que perder peso continua sendo fundamental para a saúde, mas seus benefícios podem não ser imediatos em todos os aspectos do organismo. Os pesquisadores agora buscam formas de acelerar a reversão dessas alterações, com o objetivo de reduzir riscos e melhorar a recuperação do sistema imunológico em pacientes que passaram por períodos de obesidade.
Discussion in the ATmosphere