Como a solidão afeta a memória, segundo este estudo europeu
Galileu [Unofficial]
April 20, 2026
A solidão tem efeitos mensuráveis sobre a memória de pessoas idosas, mas, ao contrário do que parte da literatura científica sugeria, ela não parece acelerar o declínio cognitivo ao longo do tempo. Essa é a principal conclusão de um amplo estudo europeu que acompanhou mais de 10 mil pessoas por até sete anos, oferecendo novos contornos para a relação entre isolamento social e funcionamento cerebral na velhice. Publicada no dia 13 de abril na revista Aging & Mental Health, a pesquisa é baseada em dados do SHARE (Survey of Health, Ageing and Retirement in Europe) e analisou 10.217 pessoas com idades entre 65 e 94 anos, distribuídas em 12 países. Os resultados encontrados indicam que os participantes que relataram altos níveis de solidão apresentaram desempenho inferior em testes de memória já no início do acompanhamento. No entanto, a taxa de declínio dessas habilidades foi semelhante à observada entre aqueles que não se sentiam solitários. “A descoberta de que a solidão impactou significativamente a memória, mas não a velocidade do declínio ao longo do tempo, foi um resultado surpreendente”, afirma Luis Carlos Venegas-Sanabria, pesquisador da Universidade del Rosario, na Colômbia, e autor principal do estudo, em comunicado à imprensa. “Isso sugere que a solidão pode desempenhar um papel mais proeminente no estado inicial da memória do que em seu declínio progressivo.” Diferença entre ponto de partida e trajetória O estudo ajuda a esclarecer uma questão que há anos divide especialistas: a solidão é um fator que acelera o envelhecimento cerebral ou apenas influencia o desempenho cognitivo em determinado momento? Os dados apontam para a segunda hipótese. Todos os participantes foram submetidos a testes de recordação imediata e tardia — como memorizar listas de palavras e repeti-las após intervalos de tempo. Aqueles classificados com altos níveis de solidão tiveram pontuações mais baixas desde o início. Ainda assim, ao longo dos anos, os grupos com baixa, média e alta solidão apresentaram ritmos de declínio praticamente idênticos. Isso reforça a ideia de que a solidão atua mais como um fator que reduz o “nível basal” da memória do que como um acelerador de deterioração cognitiva. Em termos práticos, é como começar uma corrida alguns metros atrás, mas correr na mesma velocidade que os demais. Fenômeno multifatorial Embora o estudo não investigue diretamente os mecanismos biológicos por trás dessa relação, especialistas apontam caminhos plausíveis. A solidão frequentemente está associada a menor interação social, maior incidência de depressão e piores condições de saúde, fatores que podem afetar o desempenho cognitivo. Os próprios dados reforçam essa interconexão. O grupo com maior solidão era, em média, mais velho, predominantemente feminino e apresentava maior prevalência de doenças como diabetes, hipertensão e depressão. Esses elementos também estão ligados a piores resultados em testes de memória. Além disso, a pesquisa identificou que fatores como atividade física funcionam como um “amortecedor cognitivo”. Indivíduos que se exercitavam ao menos uma vez por mês apresentavam melhores níveis iniciais de memória, embora isso não alterasse a velocidade de declínio. Questão de saúde pública Como destaca a revista Wired, o tema ganha relevância em um contexto de envelhecimento populacional acelerado. Projeções indicam que, até 2050, uma em cada seis pessoas no mundo terá mais de 65 anos. Nesse cenário, compreender os fatores que influenciam a saúde cognitiva torna-se essencial. A solidão já é considerada um problema de saúde pública, com impactos documentados na longevidade, na saúde mental e em doenças crônicas. O novo estudo reforça que ela também deve ser levada em conta em avaliações cognitivas. Os autores sugerem, inclusive, que a triagem de solidão passe a integrar exames clínicos voltados à população idosa. “O estudo ressalta a importância de abordar a solidão como um fator significativo no contexto do desempenho cognitivo em idosos”, observa Venegas-Sanabria. Próximos passos Apesar da robustez da amostra, os pesquisadores reconhecem limitações no estudo. A principal delas é tratar a solidão como uma condição estática, quando, na prática, ela pode variar ao longo da vida em resposta a mudanças pessoais e ambientais. Mesmo assim, o trabalho contribui para refinar a compreensão sobre o tema. Em vez de um fator diretamente ligado à progressão de doenças neurodegenerativas, a solidão pode ser vista como um elemento que afeta o ponto de partida da função cognitiva. Trata-se de uma diferença sutil, mas com implicações importantes para prevenção e políticas de saúde. Em um mundo que envelhece rapidamente, a mensagem é clara: combater a solidão pode não impedir o declínio da memória, mas pode ajudar a garantir que ele comece de um patamar mais alto. E isso, na prática, pode fazer toda a diferença.
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