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Macacos desta ilha estão se automedicando para digerir comida dos turistas

Galileu [Unofficial] April 22, 2026
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No alto do Rochedo de Gibraltar, um dos destinos turísticos mais emblemáticos da Península Ibérica, uma cena aparentemente banal tem intrigado cientistas: macacos selvagens ingerindo punhados de terra. Longe de um comportamento aleatório, essa prática, conhecida como geofagia, pode ser uma estratégia de sobrevivência diante de uma dieta cada vez mais artificial, moldada pela presença humana. De acordo com um estudo liderado pela Universidade de Cambridge, no Reino Unido, esses primatas estão, na prática, se “automedicando” para lidar com os efeitos colaterais de alimentos ultraprocessados oferecidos ou roubados de turistas. Detalhes da pesquisa foram compartilhados em um artigo publicado no último domingo (19) na revista Scientific Reports. Mudanças na dieta Macacos-de-gibraltar (Macaca sylvanus), únicos primatas em liberdade na Europa, tradicionalmente se alimentam de folhas, sementes, ervas e insetos. No entanto, a intensa interação com visitantes mudou radicalmente esse padrão. Chocolates, salgadinhos, sorvetes e biscoitos passaram a compor uma parcela relevante da dieta desses animais. Estima-se que os ultraprocessados representem cerca de 18,8% de tudo o que eles consomem em um dia. Macaco-de-gibraltar terminando um pacote de M&Ms Martin Nicourt/Projeto Macacos de Gibralta “O que eles estão comendo agora é extremamente rico em calorias, açúcar, sal e laticínios”, explica o antropólogo biológico Sylvain Lemoine, líder da pesquisa, em comunicado. “Isso é completamente diferente dos alimentos normalmente consumidos pela espécie.” Tal mudança alimentar tem levado a diversas consequências fisiológicas. Segundo os pesquisadores, o excesso de açúcar e gordura pode alterar a microbiota intestinal e provocar desconfortos gastrointestinais, como náuseas e diarreia, por exemplo. Terra como “remédio” É nesse contexto que a geofagia ganha sentido. O estudo registrou, em média, 12 episódios semanais de ingestão de terra — um índice elevado, comparável ao observado em outros primatas conhecidos por usar essa prática para neutralizar toxinas ou suplementar nutrientes. Os cientistas defendem que o solo fornece minerais e bactérias benéficas ausentes nos alimentos processados, além de criar uma espécie de barreira no trato digestivo. A análise reforça que os macacos parecem ingerir terra deliberadamente para compensar os impactos negativos da dieta rica em produtos humanos. Um macaco mastiga solo argiloso vermelho, de forma a complementar a sua alimentação com produtos processados Martin Nicourt/Projeto Macacos de Gibraltar “Nossos resultados corroboram essa hipótese de proteção”, aponta Lemoine. “O solo ingerido atua como uma barreira no trato digestivo, limitando a absorção de compostos nocivos. Isso pode aliviar sintomas gastrointestinais.” Mais do que só uma resposta biológica, a geofagia parece ter se transformado em um hábito socialmente aprendido. Em cerca de 89% dos casos, outros macacos estavam presentes observando o comportamento, e quase um terço das ocorrências envolvia ingestão coletiva de solo. Além disso, diferentes grupos demonstram preferências específicas por tipos de terra. Tais variações sugerem o surgimento de tradições locais. “O surgimento desse comportamento nos macacos é tanto funcional quanto cultural”, observa Lemoine. Turismo como experimento involuntário Os dados mostram uma correlação clara entre presença humana e geofagia. Macacos que vivem em áreas com maior fluxo turístico têm 2,5 vezes mais probabilidade de consumir alimentos inadequados e concentram mais de 70% dos episódios de ingestão de solo. Um macaco-de-gibraltar se apossou de um tubo de batatas Martin Nicourt/Projeto Macacos de Gibraltar Durante o verão, que marca o período de maior visitação da região, tanto o consumo de alimentos ultraprocessados quanto a geofagia aumentam significativamente (1). Já grupos com pouco ou nenhum contato com turistas não apresentaram esse comportamento. Para os pesquisadores, Gibraltar funciona como um “experimento natural” sobre o impacto humano na vida selvagem. “A variedade de interações humanas entre os grupos cria uma oportunidade única para entendermos como ambientes antropogênicos afetam o comportamento e a cultura dos primatas”, destaca Lemoine. Risco ecológico Os macacos são um símbolo local e uma das principais atrações do território britânico. Apesar da proibição de alimentá-los, a prática persiste, muitas vezes incentivada pela curiosidade dos visitantes ou pela facilidade com que os animais furtam comida. Como resultado disso, mantém-se um ciclo preocupante: quanto mais dependentes de alimentos humanos, maior o impacto fisiológico e maior a necessidade de compensação comportamental, como a ingestão de terra. Embora a geofagia possa oferecer alívio, ela também evidencia um desequilíbrio mais profundo. Ao adaptar seus hábitos para lidar com uma dieta artificial, os macacos de Gibraltar revelam não apenas sua capacidade de aprendizado, mas também a extensão da influência humana sobre ecossistemas aparentemente protegidos. Nesse cenário, o comportamento de “automedicação” deixa de ser apenas uma curiosidade científica e passa a ser um sinal de alerta sobre os efeitos invisíveis do turismo na vida selvagem.

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