Novo remédio contra aumento da próstata na velhice diminui efeitos colaterais do tratamento
Galileu [Unofficial]
March 6, 2026
Tudo começa com um jato de urina mais fraco do que o normal. Depois, o hábito de acordar no meio da noite para ir ao banheiro (às vezes, mais de uma vez) vira rotina. Então, a vontade de fazer xixi, que antes era controlável, passa a ser mais difícil de dominar, exigindo que você esteja sempre em busca do mictório mais próximo. Só que a tarefa de se aliviar se tornou mais ingrata: urinar, agora, demora mais tempo do que antes — e sempre sobram gotas demais na cueca ao final do processo. Se identificou com esses sintomas? Pode ser que você esteja sofrendo de hiperplasia prostática benigna (HPB), condição que afeta metade dos homens acima dos 50 anos. A HPB é causada por um aumento anormal da próstata, que não tem ligação com câncer. Trata-se de um processo comum na velhice, que começa entre os 40 e 45 anos e chega a afetar 80% dos homens com 80 anos ou mais. Esse crescimento da região acaba comprimindo a uretra, canal do pênis por onde expelimos a urina, o que dificulta a tarefa de se aliviar. "O jato fica fraco; você urina, para um pouquinho, depois começa outro jato", explicou o médico Mauro Muniz, presidente da Sociedade Brasileira de Urologia e professor da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro ), em entrevista dada à GALILEU durante o 40º Congresso Brasileiro de Urologia, que aconteceu em Florianópolis (SC) em novembro. "A bexiga não enche na plenitude, ela começa a encher e dá sinal, e a vontade vem forte. Daí você é obrigado a ir ao banheiro". O impacto social é notório: "muitos pacientes deixam de ir a eventos sociais porque não sabem se vai ter banheiro". A condição faz com que a próstata, órgão que normalmente tem o tamanho de uma noz e pesa entre 10 e 20 gramas, possa chegar, em alguns casos, a 100 gramas, assumindo um tamanho próximo ao de uma bola de tênis. Casos extremos de crescimento da próstata demandam cirurgia. Porém, a maioria dos pacientes consegue controlar o problema usando remédios, como a tansulosina, receitada contra HPB há pelo menos três décadas. Só tem uma questão: as opções de tratamento mais usadas, muitas vezes, podem acabar trazendo efeitos colaterais indesejados. Afinal, ao relaxar a musculatura da próstata para facilitar o xixi, medicamentos podem causar tontura e a chamada "hipotensão ortostática", nome técnico para a queda rápida de pressão arterial. Esses efeitos adversos costumam acontecer quando uma pessoa tem uma troca de posição ao se levantar de uma cadeira ou da cama, por exemplo. A chance de sintomas desmaios causados por tontura e quedas de pressão, como você pode imaginar, liga um sinal de alerta para pacientes idosos. Na velhice, o risco aumentado de quedas faz crescer também a chance de fraturas e lesões. Quedas domésticas podem causar traumas de difícil recuperação ou até mesmo fatais. Muniz também aponta que idosos, muitas vezes, usam vários remédios ao mesmo tempo, para diferentes problemas de saúde — o que contribui para os riscos do tratamento da HPB. "Recentemente, tive um paciente com quatro remédios para hipertensão, com histórico de queda e dificuldade de locomoção por sequelas de AVC. Para um caso do tipo, usar uma droga que pode fazer ele cair é uma coisa perigosíssima", exemplifica. Nova opção de tratamento no Brasil A silodosina, nova alternativa de tratamento da HPB que promete menos efeitos colaterais, chegou ao Brasil no final de 2025. Vendida no Brasil com o nome SIL-HP pela farmacêutica Apsen, a molécula foi aprovada nos Estados Unidos em 2008 e pela União Europeia em 2010. Desde o início da sua comercialização nacional, em novembro do ano passado, ela já pode ser receitada por médicos e comprada por pacientes. A silodosina se apresenta como uma opção mais seletiva para tratar o aumento da próstata. Assim como outras substâncias usadas no tratamento de HPB, ela também é um alfabloqueador. Funciona assim: após chegar à corrente sanguínea, a substância foca no bloqueio da ação dos "receptores alfa-1A adrenérgicos". Essas proteínas são responsáveis por relaxar relaxa a musculatura lisa da próstata, facilitando o ato de urinar. Mais relaxada, a próstata alivia a compressão da uretra, sem alterar o tamanho do órgão. Em um intervalo de até 6 horas, o aumento do fluxo urinário já pode ser perceptível. Como consequência, o paciente passa começa a levantar menos para ir ao banheiro à noite, o que melhora seu sono. O foco específico da silodosina nos receptores alfa-1A da próstata faz com que ela não ative os receptores alfa-1B presentes nos vasos sanguíneos — justamente os responsáveis pela queda de pressão arterial observada em medicamentos mais antigos. Segundo comunicado da Apsen, a ação do remédio nos receptores alfa-1A é 162 vezes maior do que o efeito nos receptores alfa-1B. O resultado são menos efeitos colaterais para os pacientes da HPB. A bula do SIL-HP aponta também que, em testes clínicos, apenas 1,3% a 1,9% dos pacientes apresentaram hipotensão (queda de pressão) postural — números próximos aos apresentados pelo grupo de voluntários que recebeu placebo durante os testes clínicos da substância. Outra vantagem, segundo aponta Muniz, é que, ao contrário de outros tratamentos que exigem aumento gradual de dose, médicos podem receitar a silodosina diretamente em sua "dose eficiente", de 8 mg. Para o tratamento de HPB, é comum que a receita primeiro comece com dosagens menores, até que o paciente se adapte e passe a tomar concentrações mais altas. Isso, considerando pessoas idosas, pode acelerar os resultados. "Você pode começar direto. Geralmente, o idoso esquece de tomar remédio. Então, a dose única ajuda na aderência [ao tratamento]", diz o urologista. Fernando Meyer, cirurgião urologista de Curitiba (PR) e professor de urologia da PUC-PR, prevê que a adoção da molécula para tratamento da HPB no Brasil tende a ser alta. "Já é uma classe de medicação muito utilizada pelos urologistas e, agora, terá a vantagem de ser um pouco mais segura, um pouco mais eficaz", pontua. "A tendência é que seja incorporada, até porque já está [à venda] no mercado, principalmente no mercado americano, há muitos anos. Isso também nos deixa mais tranquilos, porque a gente sabe que o FDA [órgão equivalente à Anvisa nos EUA] é mais rigoroso, tem uma regulação maior." Ainda que não seja prescrita normalmente para tratamentos além da HPB, a silodosina também demonstrou resultados promissores em outras aplicações ligadas a problemas renais. A primeira está ligada ao alívio dos sintomas após colocação do "duplo J", um tipo de catéter inserido na uretra após a cirurgia para retirada de pedras nos rins. Outro ganho potencial atribuído à silodosina envolve a própria expulsão de cálculos renais. Estudos indicam que seu uso acelera a eliminação de pedras em cerca de 5 dias em comparação com outras moléculas — um dado relevante para pacientes em crise de cólica renal. A chance de que um tratamento para a próstata também contribua para outros problemas urológicos também se mostra promissora. "Um paciente que está com cólica renal pode ter 5 dias a menos de dor", diz Meyer. A importância do diagnóstico Apesar de ser muito comum em homens idosos, a HPB chama a atenção por ter seus sintomas constantemente negligenciados — e associados puramente ao envelhecimento. Uma pesquisa feita pela Apsen em parceria com as sedes da Sociedade Brasileira de Urologia no Rio de Janeiro e em São Paulo aponta que 60% dos homens com idade acima dos 50 anos estão em atraso com os exames para detectar aumento da próstata. O levantamento estimou também que 36% dos homens nunca realizaram toque retal, PSA (um tipo de teste para avaliar a saúde da próstata) ou ultrassonografia. "O homem ainda tem uma dificuldade de buscar o profissional de saúde. É o oposto das mulheres, que costumam uma mentalidade diferente em relação à sua própria saúde ao longo da vida", explica Williams Ramos, gerente médico da Apsen. "O homem acha que 'não pode fraquejar'. Por isso, só procura especialista quando fica muito ruim ou quando os sintomas impossibilitam ele de trabalhar", resume. Além de comprometer a qualidade de vida e o bem-estar, a condição também pode evoluir e causar complicações mais sérias. Casos mais graves envolvem infecções urinárias, danos à bexiga e aos rins e até retenção urinária aguda. Com o objetivo de ampliar o diagnóstico precoce da hiperplasia benigna de próstata (HPB) e do câncer de próstata no Brasil, a Apsen lançou a campanha "FelizIdade" em agosto do ano passado. A iniciativa envolveu a criação de um VPSS (sigla em inglês para Visual Prostate Symptom Score), teste visual feito em 1 minuto pelo próprio paciente para identificar sinais e sintomas da HPB. O resultado do questionário pode orientar os usuários a fazerem um exame de PSA em farmácias credenciadas. O exame PSA analisa o sangue para estimar os níveis de determinadas proteínas e avaliar a saúde da próstata. No ano passado, a Apsen estima que foram feitos 18 mil testes VPSS e 4 mil exames de PSA em farmácias parceiras. Após o envio das respostas e análise, o paciente recebe a orientação para procurar um urologista, o que pode confirmar o diagnóstico e iniciar o tratamento logo no início dos sintomas. "A gente faz esse papel de chamar a atenção de forma mais precoce. Se não existe um olhar preventivo, o caso desse paciente vai se agravar e vai demandar uma cirurgia", resume Ramos. A ideia de que a HPB possa "evoluir para o câncer", é equivocada. No entanto, como o aumento da próstata pode ser um sintoma da presença do tumor, o teste para hiperplasia pode ser uma porta de entrada para um acompanhamento mais próximo da condição e melhor avaliação dos sintomas. "O câncer de próstata, muitas vezes, não vai ter sintoma [próprio]. O sintoma vem através dos sinais da hiperplasia. Começa a diminuir o fluxo, a ter uma dificuldade de urinar", diz o médico. "Ao fazer os testes, podemos atuar em duas frentes: primeiro, a dos pacientes que têm HPB e vão ser tratados da melhor forma. Mas também a dos que já estão com esses sintomas e eles não são da HPB — são do câncer de próstata." Você pode conferir o questionário para sintomas da HPB feito pela Apsen neste link. *O jornalista viajou a Florianópolis (SC) para o 40º Congresso Brasileiro de Urologia a convite da Apsen
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