Como cientistas descobriram um novo remédio promissor contra o câncer mais letal de todos
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May 13, 2026
Um medicamento experimental pode mudar o prognóstico de um dos diagnósticos mais temidos da medicina. Em ensaio clínico de fase avançada, boa parte dos pacientes com câncer de pâncreas metastático que receberam a droga, chamada daraxonrasib, viveram mais de 13 meses após serem diagnosticados — o dobro dos menos de sete registrados entre os que fizeram quimioterapia convencional. As informações são do The New York Times. O medicamento, desenvolvido pela empresa americana Revolution Medicines, já recebeu designação de análise acelerada da Food and Drug Administration (FDA), a agência regulatória dos Estados Unidos, e pode ser aprovado ainda em 2026. Enquanto a avaliação não é concluída, a agência autorizou um programa de acesso antecipado para alguns pacientes. De acordo com os últimos dados publicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2022, o câncer de pâncreas foi responsável pela morte de quase 470 mil pessoas naquele ano. No Brasil, o Instituto Nacional do Câncer (INCA) informou mais de 13.500 mortes causadas pela doença em 2023, ano do último levantamento publicado pela entidade. Apesar do câncer de pulmão fazer mais vítimas no total, o câncer de pâncreas é considerado por especialistas como o de pior prognóstico: apenas 3% dos pacientes com a doença disseminada sobrevivem cinco anos após serem diagnosticados. Por décadas, nenhum tratamento experimental conseguiu resultados expressivos, e muitos pesquisadores chegaram a acreditar que seus obstáculos biológicos eram insuperáveis. Alvo "impossível" A história do daraxonrasib começa nos anos 1980, quando pesquisadores do MIT e de Harvard identificaram que mutações em uma família de genes chamada RAS — em especial o gene KRAS — podiam provocar certos tipos de câncer. O KRAS regula o crescimento celular, direcionando a produção de proteínas que ativam a replicação das células. Nas versões mutadas, presentes em quase todos os tumores pancreáticos e em muitos cânceres de pulmão e cólon, essa proteína fica permanentemente "ligada", alimentando o crescimento desordenado das células cancerígenas. O problema era que a proteína KRAS, descrita pelos cientistas como uma "bola gordurosa" de superfície lisa, não apresentava pontos de ancoragem evidentes para que uma droga pudesse se fixar. Diversas farmacêuticas tentaram e falharam, e o campo foi praticamente abandonado. A virada veio em 2013, quando o cientista Kevan Shokat, da Universidade da Califórnia, em São Francisco, publicou uma descoberta considerada um marco. Após cinco anos rastreando 500 moléculas, ele identificou uma fissura na proteína KRAS onde uma delas conseguia se encaixar. A molécula não virou medicamento, mas foi a primeira evidência de que o alvo não era intocável. Paralelamente, o cientista Greg Verdine, de Harvard, fundou uma empresa para explorar o que chamou de "colas moleculares": substâncias naturais capazes de unir duas proteínas que normalmente não interagem. A ideia era projetar uma dessas moléculas justamente para neutralizar o KRAS. Sua equipe desenvolveu uma estratégia em que a droga se gruda a outra proteína celular, a ciclofilina, formando uma superfície maior capaz de envolver o KRAS e desligá-lo antes de se soltar e atacar outra molécula da proteína. Em 2018, a Revolution Medicines adquiriu a empresa de Verdine e expandiu o trabalho. Os químicos da companhia foram além e desenvolveram um composto capaz de agir sobre o KRAS tanto em células cancerosas quanto em células saudáveis. A abordagem havia matado camundongos em experimentos anteriores com estratégias semelhantes, mas os animais tratados com o novo composto não apenas sobreviveram como tiveram seus tumores reduzidos. Da pesquisa aos pacientes Em 2022, a Revolution iniciou um estudo de segurança com doses reduzidas em pacientes humanos. "Começamos a ver tumores encolhendo, e os efeitos colaterais eram administráveis", afirmou o CEO da empresa, Mark Goldsmith. O estudo ainda não foi publicado em periódico científico revisado por pares, mas os resultados do ensaio clínico de fase avançada serão apresentados ainda neste mês. A etapa incluiu pacientes com câncer de pâncreas metastático que já haviam passado por quimioterapia, casos considerados sem muitas saídas. Para esses pacientes, os 13 meses de sobrevida mediana representam um resultado sem precedentes. O medicamento, no entanto, não é uma cura. Ele eventualmente para de funcionar, e muitos pacientes não respondem ao tratamento. Além disso, os efeitos colaterais podem ser severos: erupções cutâneas, diarreia, fadiga, náuseas e feridas nos dedos. Mas o preço é pequeno para a maioria dos pacientes. Rhea Caras, advogada aposentada de 67 anos da Califórnia, foi diagnosticada com câncer de pâncreas metastático em 2023 e informada de que provavelmente tinha apenas meses de vida. Três anos depois, ainda toma os comprimidos todo dia, e planeja uma viagem ao Havaí com a família. "Tenho quase certeza de que não estaria mais viva sem este medicamento", disse ela. "Estou vivendo uma vida bastante boa, e não esperava por isso." Alguns cientistas já comparam o avanço ao impacto da imunoterapia, que transformou o tratamento oncológico há cerca de 15 anos; mas o processo é longo. "É o começo, não o fim", afirmou a Dra. Elizabeth Jaffee, pesquisadora de câncer pancreático da Universidade Johns Hopkins. *Com supervisão de Rennan Julio Mais Lidas
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