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Recuperação do Ginásio do Paulistano reacende debate sobre obras modernas

Casa e Jardim | Sua casa linda do seu jeito [Unofficial] June 23, 2026
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Há algumas semanas, li que o Clube Athletico Paulistano pretende avançar em um conjunto de intervenções destinadas a recuperar características originais de seu ginásio, uma das obras mais importantes da arquitetura brasileira do século 20. Entre as medidas previstas está a retirada de fechamentos instalados ao longo dos anos nos grandes vãos do edifício. A notícia me interessou por razões que vão além do próprio clube, do próprio edifício ou mesmo da própria arquitetura. Ela toca numa questão que me parece cada vez mais relevante: como cuidar de um patrimônio que ainda não envelheceu completamente aos nossos olhos? Quando pensamos em preservação arquitetônica, tendemos a imaginar igrejas coloniais, casarões do século 19 ou edifícios cuja antiguidade parece evidente. Existe um consenso relativamente amplo sobre a necessidade de proteger essas construções. O tempo, nesse caso, funciona como argumento. Quanto mais distante um objeto está de nós, mais facilmente reconhecemos seu valor histórico. Ginásio Antônio Prado Júnior, popularmente como Ginásio do Paulistano, foi tombado como Patrimônio Histórico Municipal pelo CONPRESP em 2019 Daniela Getlinger/Divulgação Com a arquitetura moderna acontece algo diferente. Ela envelheceu, mas não o suficiente. Muitas de suas obras ainda parecem contemporâneas e continuam em uso. Frequentemente mantêm funções semelhantes às que possuíam quando foram inauguradas. Seus materiais são familiares. Seu vocabulário formal continua influenciando arquitetos e incorporadores. Como consequência, torna-se difícil enxergá-las como patrimônio. O Ginásio Antônio Prado Júnior é um exemplo particularmente interessante desse processo. Projetado por Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de Gennaro após a vitória em um concurso promovido pelo clube em 1958, o edifício ocupa um lugar singular na história da arquitetura brasileira. Costuma ser lembrado como uma das primeiras obras-primas de Paulo Mendes da Rocha, mas essa leitura obscurece frequentemente a participação de Gennaro e simplifica um processo criativo que foi compartilhado. O projeto nasceu do trabalho de dois jovens arquitetos que, naquele momento, ainda estavam construindo suas trajetórias profissionais. O edifício utiliza seis pilares externos de concreto armado dispostos em círculo, contrapondo um sistema leve a uma estrutura pesada Arquivo P. M Rocha/Divulgação O Brasil em que o ginásio foi concebido era um país tomado por uma ideia de futuro que hoje parece quase exótica. Brasília estava sendo erguida, a industrialização avançava e havia uma confiança coletiva na capacidade de transformação da sociedade. O modernismo brasileiro floresceu nesse contexto e produziu obras que despertam até hoje interesse muito além de nossas fronteiras. Não porque fossem apenas belas, mas eram ambiciosas: pretendiam imaginar novos modos de viver, conviver e ocupar o espaço. Leia mais A geração paulista à qual pertenciam Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de Gennaro desenvolveu uma abordagem particular dessa ambição. Em vez de enfatizar a plasticidade das formas, como ocorreu em parte da produção carioca, muitos arquitetos paulistas passaram a concentrar sua atenção na estrutura. Não porque fossem menos interessados em beleza, mas entendiam que a estrutura era capaz de produzir espaço de maneira direta. A beleza surgiria como consequência da precisão construtiva. O Ginásio do Paulistano, como ficou conhecido popularmente, representa de forma exemplar essa visão. Sua cobertura circular, sustentada por um sistema estrutural engenhoso, parece desafiar a lógica convencional dos grandes edifícios esportivos. O que impressiona, no entanto, não é apenas o desempenho técnico da solução, mas a qualidade espacial produzida por ela. A estrutura não existe para ser admirada isoladamente, ela existe para libertar o espaço. Ao observar fotografias antigas do ginásio, percebe-se que a relação entre interior e exterior desempenhava um papel decisivo nessa experiência. Os grandes vãos permitiam a circulação do ar, ampliavam a percepção do espaço e estabeleciam uma conexão visual permanente com o entorno. A cobertura aparecia quase como um gesto de proteção, não como um mecanismo de isolamento. O edifício não se fechava sobre si. O Ginásio do Clube Atlético Paulistano recebeu o primeiro lugar, “Grande Prêmio Presidente da República”, na premiação da VI Bienal de Arte e Arquitetura, em 1961 Arquivo P. M Rocha/Divulgação Uma das contribuições mais interessantes da arquitetura moderna brasileira foi justamente sua tentativa de construir edifícios capazes de dialogar com as condições climáticas locais. Brises, cobogós, pilotis, pátios, sombreamentos e ventilação cruzada não eram apenas recursos estéticos. Eram instrumentos para estabelecer relações mais inteligentes entre construção e ambiente. A arquitetura procurava mediar, não bloquear, a experiência do mundo exterior. Ao longo do tempo, porém, muitas dessas estratégias passaram a ser vistas como insuficientes ou inconvenientes. O avanço dos sistemas de climatização artificial alterou parâmetros de conforto. Exigências operacionais tornaram-se mais complexas. Novos usos surgiram. Como resultado, inúmeros edifícios modernos foram progressivamente fechados, compartimentados ou isolados. O problema não está na adaptação em si, que é inevitável, mas no fato de que certas adaptações acabam comprometendo precisamente aquilo que torna uma obra singular. É nesse ponto que o debate sobre o ginásio do Paulistano se torna interessante. O projeto de recuperação atualmente conduzido pelo clube não pretende simplesmente restaurar uma imagem do passado. O que está em jogo é a tentativa de recuperar determinadas qualidades espaciais que foram sendo obscurecidas ao longo das décadas. A remoção dos fechamentos, nesse sentido, possui um significado que ultrapassa a questão estética. Trata-se de restabelecer relações entre estrutura, espaço, luz e ventilação que estavam presentes na concepção original do edifício. Croqui do projeto do Ginásio do Clube Atlético Paulistano mostra as primeiras ideias para as estruturas que se tornaram a principal característica do projeto Arquivo P. M Rocha/Divulgação Ao mesmo tempo, seria ingênuo imaginar que exista um retorno puro às origens. Toda restauração é uma interpretação realizada no presente. Escolhemos o que preservar, o que remover e o que enfatizar. Decidimos quais camadas históricas merecem permanecer visíveis e quais devem desaparecer. Não recuperamos simplesmente um passado. Construímos uma narrativa sobre ele. Há algo simbólico no fato de que uma das intervenções mais significativas previstas para o edifício consista justamente em retirar elementos acrescentados posteriormente. Vivemos em uma época obcecada pela produção constante de novidades. Construímos, ampliamos, revestimos, substituímos, atualizamos. Diante dessa lógica, a decisão de remover em vez de acrescentar parece quase contracultural. Como arquiteto, vejo nessa escolha uma lição que ultrapassa os limites da própria disciplina. Nem sempre melhorar significa adicionar. Em certos momentos, melhorar significa revelar. Significa retirar camadas acumuladas ao longo do tempo para permitir que uma ideia originalmente potente volte a se manifestar. Talvez seja isso que esteja acontecendo no Paulistano. Não a recuperação nostálgica de um passado idealizado, mas o reconhecimento de que algumas obras ainda têm muito a nos ensinar. Em um momento em que grande parte das cidades brasileiras parece cada vez mais orientada pela lógica do enclausuramento e da separação entre interior e exterior, a reabertura de um edifício concebido para respirar adquire uma dimensão inesperadamente contemporânea. Leia mais O ginásio projetado por Paulo Mendes da Rocha e João Eduardo de Gennaro não pertence apenas à história da arquitetura brasileira. Ele pertence também ao debate sobre o tipo de espaço que desejamos produzir hoje. Talvez seja essa a razão pela qual a notícia de sua recuperação tenha me interessado tanto. Porque ela sugere que preservar não é apenas olhar para trás. Às vezes, preservar é uma forma de voltar a enxergar possibilidades para o futuro.

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