External Publication
Visit Post

História de Recife é resgatada em livros que destacam seus edifícios modernistas

Casa e Jardim | Sua casa linda do seu jeito [Unofficial] June 26, 2026
Source
Recife, capital de Pernambuco, com quase 500 anos de história, abriga um vasto conjunto arquitetônico que reúne construções de estilos variados — das propostas coloniais e ecléticas aos edifícios modernistas. Com o objetivo de pesquisar, documentar, valorizar e divulgar a arquitetura moderna da cidade, nasceu o projeto Prédios do Recife, idealizado por Maria Laura Pires, arquiteta, especialista em design de interiores e escritora. A iniciativa começou em 2016, quando Maria Laura ainda cursava Arquitetura e Urbanismo na Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Durante a graduação, ela percebeu que muitos exemplares importantes da arquitetura moderna faziam parte do cotidiano dos recifenses, mas raramente eram reconhecidos como patrimônio cultural. “Um marco decisivo foi a participação nas visitas guiadas realizadas durante o seminário Docomomo 2016, o que me permitiu ter um contato mais profundo com as experimentações da arquitetura moderna presentes tanto na zona central quanto na orla de Boa Viagem”, ela conta. O projeto Prédios do Recife, iniciado ainda durante a graduação de Maria Laura Pires, ganhou corpo e se materializou em duas publicações que serão reeditadas pela Editora Paradoxum Editora Paradoxum/Divulgação A partir dessa inquietação, a arquiteta passou a registrar os edifícios por meio de fotografias e a compartilhar o conteúdo nas redes sociais: primeiro no Facebook e, depois, em seu blog e no Instagram. Leia mais Em 2020, a escritora lançou uma campanha de financiamento coletivo para imprimir 500 exemplares do primeiro livro Prédios do Recife: Volume I, reunindo 20 edifícios modernos. A obra foi lançada oficialmente em 2021. Dois anos depois, mais 500 exemplares foram publicados com um novo catálogo de construções, dando origem ao Prédios do Recife: Volume II. O segundo volume do livro Prédios do Recife amplia o escopo da pesquisa e apresenta mais 24 edifícios modernistas recifenses Editora Paradoxum/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim Uma pesquisa construída nas ruas Para produzir as obras, a autora ampliou o levantamento bibliográfico, consultando guias especializados, sites, dissertações acadêmicas e estudos sobre arquitetos que desempenharam papel fundamental na construção da identidade arquitetônica pernambucana — entre eles o português naturalizado brasileiro Delfim Amorim (1917–1972) e o carioca Acácio Gil Borsoi (1924–2009). Além da pesquisa teórica, foram realizadas investigações com grupos focais e questionários, a fim de compreender como especialistas e frequentadores da cidade percebiam essas edificações. O arquiteto português naturalizado brasileiro Delfim Amorim foi um dos grandes representantes da arquitetura moderna no Recife. Sua obra se destacava pela atenção ao clima quente e úmido da cidade, o que o levou a experimentar soluções inovadoras em fachadas, como quebra-sóis, aberturas para ventilação cruzada e, especialmente, o uso de azulejos como revestimento. Um exemplo marcante dessa abordagem é o projeto do Instituto Materno-Infantil de Pernambuco (IMIP), concluído em 1965 no bairro recifense dos Coelhos Prédios do Recife/Maria Laura Pires/Divulgação Grande parte do trabalho aconteceu nas ruas. Durante sua graduação, Maria Laura percorreu bairros como Santo Antônio e Boa Viagem, observando fachadas, registrando detalhes e documentando construções que ajudam a narrar a história do Recife. "Priorizei o centro, onde é situada a UNICAP, onde saía para fotografar após as aulas, ou durante visitas de campo; e Boa Viagem, bairro que vivi até meus 30 anos", revela. Essa trajetória resultou no primeiro livro. O edifício residencial Portinari, localizado na orla da praia de Boa Viagem, foi projetado em 1969 pelo arquiteto Acácio Gil Borsoi. A obra explora um sofisticado jogo de volumes côncavos e convexos nas varandas da fachada principal, criando enquadramentos que dialogam diretamente com a paisagem marítima Prédios do Recife/Maria Laura Pires/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim O segundo volume ampliou o recorte e incorporou 24 marcos arquitetônicos, entre eles o histórico Hotel Central (1927–1928) e o Cine Art Palácio (1936), projetado pelo renomado arquiteto Rino Levi (1901–1965). Em ambos os livros, a estrutura segue um formato semelhante. Primeiro, os edifícios são apresentados com seus nomes, ano do projeto, arquiteto responsável e localização. Em seguida, acompanhada das fotografias, cada construção recebe um breve texto narrando sua história. O Hotel Central (1927–1928) é um dos edifícios destacados no segundo volume do projeto Prédios do Recife. Localizado no bairro da Boa Vista, em Recife, PE, o hotel foi projetado pelo arquiteto italiano Giacomo Palumbo (1891–1966) Prédios do Recife/Maria Laura Pires/Divulgação Durante a pesquisa, algumas descobertas chamaram a atenção da autora. Entre elas está a história do Edifício JK, que ainda conserva motores alemães trazidos por navio e hoje se tornou objeto de estudos acadêmicos. Outro caso marcante é o da Igreja Nossa Senhora de Fátima, considerada a primeira igreja do mundo dedicada à aparição de Fátima, que combina elementos futuristas ao uso do concreto armado. Também ganhou destaque o Edifício AIP, cuja cobertura guarda vestígios de um antigo cinema. Nomeado em homenagem ao presidente Juscelino Kubitschek, o edifício abrigou o INSS e a SUDENE, integrando o Conjunto do Governo Federal entre 1955 e 1960. Projetado em 1951 por uma equipe de arquitetos do banco IAPI, está localizado no bairro recifense de Prédios do Recife/Maria Laura Pires/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim Fotografia é pilar fundamental Um dos elementos centrais dos livros é a fotografia. "Ela funciona como ferramenta de memória e publicidade, capaz de educar o olhar do público para elementos como cobogós, brises e azulejos, não apenas fotos da estrutura. Busquei revelar uma beleza que passava despercebida na correria do cotidiano, procurando transformar prédios comuns em objetos de apreciação cultural", comenta a arquiteta. A Igreja Nossa Senhora de Fátima é um projeto de 1933 do arquiteto francês Georges Munier (1895–2000). Considerada pioneira, foi a primeira igreja do mundo dedicada à aparição de Fátima, e se destaca por unir elementos futuristas ao uso do concreto armado Prédios do Recife/Maria Laura Pires/Divulgação | Montagem: Casa e Jardim O trabalho fotográfico ultrapassou as páginas dos livros: algumas imagens foram utilizadas em 2020 para apoiar o pedido de tombamento da Igreja Nossa Senhora de Fátima junto ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Além disso, evidenciou a dimensão do abandono, do descaso e da desvalorização de construções urbanas. "As fotografias revelam não apenas a beleza, mas também o estado vegetativo de prédios significativos. Observar o abandono de obras de arquitetos renomados e a ocupação inadequada de espaços projetados para habitação reforçou a urgência de debater a salvaguarda desses bens", destaca Maria Laura. A fotografia é um eixo fundamental no projeto Prédios do Recife, pois além de registrar a memória arquitetônica, expõe a dimensão do abandono e da desvalorização de muitas construções modernistas. Um exemplo emblemático é o Edifício Duarte Coelho, que abrigou o tradicional Cinema São Luiz. Projetado em 1943 pelos arquitetos Américo Campello e Maurício Coutinho, com interiores concebidos pelo artista visual Pedro Correia de Araújo (1874–1955), o edifício se destacou como um dos primeiros a ocupar toda uma quadra da cidade Prédios do Recife/Maria Laura Pires/Divulgação Para a arquiteta, razões culturais e temporais ajudam a explicar esse cenário. "A sociedade tende a relacionar o valor de patrimônio apenas à antiguidade, resistindo ao reconhecimento de obras mais recentes", afirma. Leia mais O excessivo funcionalismo e o uso de materiais experimentais — características marcantes do movimento modernista — também contribuíram para uma percepção negativa por parte do público. "Aspectos como esses geraram um custo elevado de manutenção para muitos exemplares da época, levando ao descaso tanto do poder público quanto do privado", complementa. O Edifício Guararapes foi projetado entre 1963 e 1967 por três nomes centrais da arquitetura e engenharia modernista em Pernambuco: o arquiteto Acácio Gil Borsoi, o arquiteto Vital Pessoa de Melo (1936–2010) e o engenheiro-poeta Joaquim Cardozo (1897–1978) Prédios do Recife/Maria Laura Pires/Divulgação A busca pela aproximação do público Na visão da arquiteta, um dos maiores ganhos do projeto foi ver o debate público se ampliar, com o reconhecimento dos patrimônios arquitetônicos e a indignação diante do descaso. Para ela, a midiatização é essencial para que a arquitetura modernista continue despertando interesse e fortalecendo o sentimento de pertencimento em um público mais amplo. O Edifício Trianon (1937–1940), projetado pelo arquiteto Rino Levi, marca o início da arquitetura moderna em Recife nos anos 1930 Prédios do Recife/Maria Laura Pires/Divulgação "A preservação é uma responsabilidade mútua: da esfera pública, dos moradores e de toda a população, para que a memória urbana do Recife não seja apagada pelo abandono", reflete Maria Laura, que está trabalhando na reedição das obras pela Editora Paradoxum.

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...