External Publication
Visit Post

Pomme fala sobre sonhos: "As pessoas tratam a ambição das mulheres como falta de noção"

Glamour | Home [Unofficial] June 19, 2026
Source
Para alguém que já dedicou um álbum inteiro às estações do ano, faz sentido que Pomme tenha uma favorita - o verão. "É a minha temporada astrológica e a estação com a qual mais me identifico", diz a cantora francesa, leonina, que explorou as emoções e transformações das quatro estações em Saisons (2022). Conforme o verão chega ao hemisfério norte, Pomme se prepara para realizar uma série de shows e, de quebra, acaba de lançar um novo single para embalar a temporada. "Faz dois anos que não viajo em turnê pela França e queria apresentar algo novo nesses shows. Esta canção é perfeita para festivais", explica, em entrevista à Glamour, poucas semanas atrás, quando se apresentou pela primeira vez no Brasil, com um set acústico em São Paulo, e deu uma palhinha do novo single, le village. Nascida Claire Pommet, Pomme começou a carreira ainda adolescente gravando covers de cantoras como Lady Gaga, Barbara e Lana Del Rey em seu quarto na casa dos pais, nos arredores de Lyon, e postando no YouTube. Mas logo passou a desenvolver seu trabalho autoral, explorando a chanson francesa sob uma lente contemporânea, com elementos de folk acústico, pop alternativo e música clássica, em álbuns como À peu près, seu debut, de 2017, e singles como o contagiante Ma Meilleure Enemie, gravado em parceria com Stromae e Coldplay especialmente para a trilha sonora da série de animação da Netflix Arcane. le village aponta para uma nova direção, com sonoridade mais maximalista, mais folk rock, mas sem perder o aspecto intimista e emocional que conquistou seus quase 1 milhão de fãs no Instagram. "Eu diria que é um folk grunge de verão", define. A música foi composta em parceria com Aaron Dessner, um dos membros da banda The National e produtor musical por trás de faixas de sucesso de artistas como Taylor Swift, Mumford & Sons e Gracie Abrams, com quem colaborou em algumas canções de Saisons e, ao que tudo indica, deve colaborar novamente em um próximo álbum. A letra, inspirada por um jogo popular que Claire passou a infância brincando, em que os participantes se dividem entre lobos (predadores) e aldeões (presas), revela um subtexto que critica a violência sistêmica sofrida por mulheres e pessoas queer. Sendo ela própria uma pessoa queer, a cantora é bastante comprometida com questões LGBTQIA+. "Eu cresci nos subúrbios de Lyon, sem ter muitos exemplos de artistas queer na mídia ou pessoas queer ao meu redor. Para mim, é importante ajudar a criar espaço para essas pessoas", diz. Depois de um rápido passeio no Parque Trianon e passagem de som no Teatro Renault, Pomme conversou com Glamour sobre ambição, a vida à beira dos 30 e sua paixão por Vivienne Westwood. Confira abaixo a entrevista na íntegra: Pomme Léonie Guyot Como se deu a sua relação com a música? Meus pais eram muito fãs de música e me colocaram para fazer aulas de violocenlo e teoria musical aos 6 anos. Eu fui uma criança muito sensível, como a maioria dos artistas [risos], mas tenho TDAH e tinha muita dificuldade de expressar minhas emoções. A música me ajudou a fazer amigos e a processar meus sentimentos. Quando eu entrei para um coral, aos 8 anos, conheci as músicas da cantora francesa Barbara. Foi como a abertura de um portal para mim e eu passei a amar cantar. Fiquei totalmente obcecada pelas músicas dela, que é minha cantora favorita até hoje. Depois de um tempo, fui a um show da Lady Gaga, a primeira cantora pop que vi ao vivo, e isso também virou uma chave: não quero só cantar no meu quarto e escrever canções, quero me apresentar. Quero ser cantora. Foi aí que abri meu canal no YouTube com uma amiga, publicando covers. Mas só tive coragem de dizer aos outros que eu queria ser cantora de verdade quando, de fato, passei a fazer dinheiro com música, por volta dos meus 19 ou 20 anos. É curioso como vocalizar nossa ambição pode ser algo mal visto quando a gente é jovem. Como você lida com as suas ambições hoje? Quais são elas? Muito. Especialmente se você é uma garota, as pessoas tendem a tratar sua ambição como falta de noção, como isso nos tornasse exibidas ou descoladas da realidade. Acho que só comecei a vocalizar minhas ambições há uns dois anos. É algo novo para mim - e amo esta pergunta por isso. Meu maior objetivo agora é fazer shows maiores fora da França. Atualmente quando saio em turnê fora do país, só vou eu, meu violão e minha harpa [risos], e é ótimo - fico encantada de pensar que estou no Brasil fazendo isso. Mas quero que a próxima turnê seja com toda a banda, com cenário e tudo mais, em todos os lugares por onde eu passar, não apenas na França. E sei que isso custa caro, portanto, almejo conseguir fazer isso, permanecendo verdadeira, sem comprometer meus valores. Você completa 30 anos em agosto. Sua visão sobre seu trabalho como artista mudou muito desde que começou a carreira? Eu sempre pensei no meu trabalho e na minha vida como uma teia de aranha, não como uma escalada, mas sinto que hoje realmente acredito nisso. Mas não estou muito confortável com a ideia de fazer 30 anos. Tem sido intenso. Talvez porque minha mãe já tinha tido todos os seus filhos nessa idade e eu associo os trinta como um final de ciclo, o que me parece um pouco assustador. Mas eu acho que tem a ver também com o fato de eu ter alcançado meus maiores sonhos durante os meus vinte anos. E nossa cultura gosta tanto dessa história do jovem talento, né? Isso me fazia sentir especial e tenho muito medo de não ser mais interessante. E também sendo uma mulher na indústria musical, a imagem pesa muito... São muitas questões [risos]. Não vejo a hora de cruzar essa fronteira e ver que está tudo bem do lado de lá. Acho que você vai se surpreender positivamente. E dizem por aí que quem tem 30 é mais jovem do que quem tem 29. É o que todo mundo me diz [risos]. Acho que vai ficar tudo bem. Estou me sentindo velha, mas quando completar 30 anos serei jovem de novo! Como é sua relação com a moda? É uma relação de amor e ódio [risos]. Enquanto expressão criativa, a moda é algo realmente fascinante para mim. Mas tenho muitas ressalvas com relação à indústria da moda, especialmente com relação a questões ambientais e sociais. E entro em conflito com relação ao que falamos sobre ambição e valores porque, como você sabe, moda e música caminham juntas, especialmente na França. Tenho muitas amigas que são estrelas pop e têm contratos com maisons como Chanel ou Gucci e elas só podem vestir essas marcas. Eu tento resistir a isso porque gosto da liberdade de poder usar o que eu quiser. Acho que eu e a Oklou - que é uma grande amiga minha - somos algumas das poucas cantoras francesas que não têm um contrato de moda. A gente passou dez anos negando propostas, então, se um dia tivermos um contrato com alguém, pode ter certeza que será especial. A quem você admira na moda? Eu sou muito fã da Vivienne Westwood. Sempre fico impressionada com as criações dela. São peças tão lindas, como obras de arte, que me movem e me inspiram. Eu estive no Festival de Cannes há pouco tempo e foi um privilégio vestir um design da marca, que é uma das poucas do nível dela a permanecer independente, sem se associar a um conglomerado. Essas botas que vou usar hoje também são dela. Ela era demais. Verdadeiramente punk e com uma incrível envergadura política. Sou fã. Quais são seus planos para os próximos meses? Eu vou fazer uma pequena turnê de verão na França, percorrendo festivais com minha banda. No começo da carreira eu estava sempre cantando músicas novas em shows, mas depois que assinei contrato com uma gravadora major [Universal Music], havia toda uma questão da estratégia de marketing para lançar as músicas e tal e parei de fazer isso. Então, agora que esse meu contrato de 10 anos chegou ao fim, quero voltar a apresentar músicas novas em shows, a começar por esse single que escrevi com o Aaron [Dessner], le village. Estou bastante animada para o verão! Revistas Newsletter

Discussion in the ATmosphere

Loading comments...