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Fabi Claudino fala da vida fora das quadras e se abre sobre endometriose: "Mexe com a nossa feminilidade"

Glamour | Home [Unofficial] May 26, 2026
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Fabi Claudino passou a vida inteira aprendendo a suportar dor. Duas décadas no vôlei ensinaram a atleta que o corpo aguenta mais do que imagina, e que cólica, desconforto e exaustão fazem parte do pacote. O problema é que, por anos, o que parecia rotina escondia um diagnóstico que demorou a chegar: endometriose. A descoberta veio no momento em que ela tentava engravidar novamente, depois do nascimento de Asaf, seu filho com o cantor Vinícius de Paula. "O corpo fala. E chega uma hora que ele pede socorro", diz. O diagnóstico levou a uma cirurgia de dez horas, um processo que a bicampeã olímpica descreve como um dos momentos mais vulneráveis da vida. "Por muitos anos eu fui vista como forte o tempo inteiro… e ali eu precisava aceitar que não controlava tudo", conta. A recuperação, ela faz questão de ressaltar, vai muito além do físico. "Acho que eu saí mais humana, mais sensível e também mais consciente de mim mesma." Em entrevista à Glamour, Fabi se abriu sobre o diagnóstico, a cirurgia e o processo emocional de receber uma notícia que mexe com sonhos e medos ao mesmo tempo. A atleta também falou da nova fase fora das quadras, depois de anunciar a aposentadoria em setembro de 2024, e do desejo de seguir sendo potência em outras frentes. Depois de tantos anos dedicados ao esporte de alta performance, como tem sido viver essa nova fase fora das quadras? Tem sido um processo muito profundo… porque durante muitos anos eu fui 'a Fabiana atleta'. Minha rotina, minha mente, meu corpo, tudo girava em torno da alta performance. E quando você para, existe um silêncio que assusta. Você precisa se reencontrar fora do uniforme, fora da medalha, fora da competição. Ao mesmo tempo, sinto que estou vivendo uma das fases mais verdadeiras da minha vida. Hoje eu consigo olhar mais pra mim como mulher, mãe, esposa, empresária, ser humano. Ainda carrego a disciplina e a mentalidade do esporte, mas agora estou aprendendo a viver sem me cobrar o tempo inteiro. Acho que pela primeira vez estou entendendo que eu posso continuar sendo gigante mesmo fora da quadra. Você construiu uma carreira histórica no vôlei. Em que momento percebeu que também queria ampliar seu legado para além do esporte? Quando eu comecei a perceber o impacto que a minha história causava nas pessoas. Muitas vezes alguém me abraçava chorando e dizia: 'você me fez acreditar que eu também podia'. Aquilo mexia muito comigo. Eu entendi que o maior legado não são só as medalhas. É o que você desperta nas pessoas. Hoje eu quero usar tudo que vivi, as dores, as vitórias, os bastidores, as inseguranças, pra ajudar outras mulheres, atletas e meninas a acreditarem nelas mesmas. O esporte me deu voz. Agora eu quero usar essa voz pra transformar vidas também fora da quadra. Sendo uma mulher preta que alcançou o topo do esporte mundial, qual é o peso simbólico que essa trajetória tem para você hoje? Hoje eu entendo que a minha trajetória vai muito além de mim. Quando eu comecei, eu não tinha noção da representatividade que carregava. Eu só queria vencer na vida e ajudar minha família. Mas com o tempo eu fui entendendo o quanto uma mulher preta ocupando espaços de destaque incomoda algumas pessoas… e inspira muitas outras. E isso tem um peso muito grande. Porque eu sei de onde eu vim. Sei das dificuldades, dos olhares, das portas que pareciam impossíveis. Então hoje eu sinto muito orgulho da minha história. Não porque foi perfeita, mas porque ela mostra que uma menina preta também pode chegar no topo do mundo sem deixar de ser quem é. Fabi Claudino @maririghez Você sente que sua história abriu caminhos para outras meninas sonharem mais alto dentro do esporte? Eu acredito que sim, e isso talvez seja uma das coisas que mais me emocionam. Quando vejo meninas negras, altas, tímidas, sonhadoras, olhando pra mim com brilho nos olhos, eu me vejo nelas também. Se a minha caminhada fez alguma menina acreditar que ela merece ocupar espaços grandes, então tudo valeu a pena. Porque às vezes o que falta pra alguém continuar sonhando é simplesmente enxergar alguém parecido com ela chegando lá. Você revelou recentemente o diagnóstico de endometriose. Como começou a perceber que havia algo errado? Eu sentia dores há muitos anos. Cólicas muito fortes, desconfortos que não pareciam normais… mas como atleta, eu fui aprendendo a suportar dor a vida inteira. Então eu normalizava muita coisa. A gente cresce ouvindo que cólica é normal, que mulher sente dor mesmo. E no esporte existe ainda aquela mentalidade de 'aguenta', 'vai passar'. Só que o corpo fala. E chega uma hora que ele pede socorro. O diagnóstico demorou a acontecer? Em algum momento sentiu que os sintomas foram minimizados? Demorou. E sim, muitas vezes senti que era tratado como exagero ou algo emocional. Isso é muito triste, porque a mulher acaba duvidando dela mesma. Eu tive momentos de desmaio de dor, situações muito difíceis, mas seguia treinando, jogando, viajando. Hoje eu olho pra trás e penso: 'como eu consegui suportar tudo aquilo?'. Por isso eu faço questão de falar sobre o assunto. Porque muitas mulheres vivem anos sofrendo sem entender o que têm. Como foi emocionalmente receber esse diagnóstico enquanto tentava engravidar novamente? Foi muito delicado. Porque mexe com sonhos, com medo, com culpa, com ansiedade… mexe com a nossa feminilidade também. Eu sempre sonhei em ser mãe. O Asaf foi uma das maiores bênçãos da minha vida. Então quando você escuta algo que pode impactar a possibilidade de gerar outro filho, é impossível não se abalar emocionalmente. Mas ao mesmo tempo eu tentei me apegar muito à fé. Eu acredito muito que Deus conduz os processos da nossa vida mesmo quando a gente não entende. A cirurgia que você enfrentou foi longa e delicada, 10 horas. Como viveu esse processo antes, durante e depois da operação? Foi um dos momentos mais vulneráveis da minha vida. Antes da cirurgia eu senti medo de verdade. Porque por muitos anos eu fui vista como forte o tempo inteiro… e ali eu precisava aceitar que não controlava tudo. Depois da cirurgia veio também um processo emocional muito intenso. A recuperação não é só física. Você para, pensa na vida, nas relações, no corpo, no tempo, em quem realmente está do seu lado. Foram dias de muita reflexão. Acho que eu saí desse processo mais humana, mais sensível e também mais consciente de mim mesma. Fabi Claudino @maririghez E como está se sentindo agora? Hoje estou me sentindo muito melhor, graças a Deus. Me recuperando bem, respeitando meu corpo e o tempo dele. Acho que depois de tudo isso eu aprendi a me ouvir mais e a entender que saúde vem antes de qualquer coisa. Os médicos ficaram muito positivos com o resultado da cirurgia e isso me trouxe esperança. É um processo delicado, claro, mas eu escolhi viver essa fase com fé e leveza. Sem tentar controlar tudo o tempo inteiro. Como foi lidar com a vulnerabilidade depois de uma vida inteira associada à força física e alta performance? Acho que o mais difícil foi aceitar que eu também sou frágil. Durante a vida inteira eu fui treinada pra suportar dor, pressão, cobrança, lesão… então você cria quase uma armadura emocional. Só que quando a saúde te obriga a parar, você percebe que não é invencível. E isso mexe muito com a cabeça. Mas também foi um processo importante, porque eu entendi que vulnerabilidade não é fraqueza. Às vezes ser forte é justamente pedir ajuda, desacelerar e cuidar de si mesma. Você acredita que atletas acabam aprendendo a normalizar dores e desconfortos por estarem acostumadas a superar limites? Com certeza. O atleta aprende desde cedo a ir além do limite o tempo inteiro. Então muitas vezes a gente ignora sinais importantes do corpo. Existe uma linha muito fina entre resiliência e negligenciar a própria saúde. E eu acho que durante muitos anos eu ultrapassei essa linha sem perceber. Hoje eu entendo que performance também é autocuidado. Como enxerga hoje a pressão que muitas mulheres sentem em relação ao chamado “tempo biológico”? É uma pressão muito cruel. Porque a mulher tenta dar conta de tudo: carreira, família, maternidade, corpo, relacionamento… e ainda existe um relógio invisível cobrando o tempo inteiro. Eu acho que cada mulher tem sua história e seu processo. A maternidade não pode ser tratada como uma competição ou uma obrigação. Claro que biologicamente existem desafios, principalmente depois dos 40, mas eu tento não viver no medo. Tento viver com consciência, informação e fé. Você teve seu primeiro filho aos 36 anos e agora tenta a segunda gravidez aos 41. Como a maternidade mudou sua relação com o próprio corpo e com o tempo? A maternidade mudou tudo em mim. Antes eu olhava pro meu corpo muito pela performance. Hoje eu olho com mais carinho, mais respeito. Depois que o Asaf nasceu eu entendi que meu corpo não era só força. Ele também era abrigo, amor, cuidado. Isso muda completamente a forma como você se enxerga. E sobre o tempo… hoje eu valorizo muito mais presença do que velocidade. Antes eu queria controlar tudo. Hoje eu entendo que algumas coisas florescem no tempo certo. A endometriose ainda é cercada por muita desinformação. O que mais te incomoda quando percebe a falta de debate sobre o tema? O que mais me incomoda é ver mulheres sofrendo caladas achando que sentir dor extrema é normal. Não é normal desmaiar de dor. Não é normal viver limitada todos os meses. Falta informação, acolhimento e escuta. Muitas mulheres passam anos sem diagnóstico porque ninguém investiga de verdade. E eu acho muito importante usar minha voz pra trazer consciência sobre isso, principalmente porque durante muito tempo eu também silenciei minha própria dor. Existe algum aprendizado do esporte que tem levado para a vida pessoal? Disciplina, sem dúvida. O esporte me ensinou que constância vale mais do que motivação. Também aprendi muito sobre trabalho em equipe, resiliência e controle emocional. Mas talvez o maior aprendizado tenha sido entender que ninguém vence sozinho. Hoje eu valorizo muito mais as pessoas que caminham comigo do que qualquer troféu. Hoje, o que mais te entusiasma nos projetos que está desenvolvendo fora das quadras? E quais são as novidades? O que mais me entusiasma é poder transformar vidas de uma forma mais ampla. Hoje meus projetos têm muito propósito. Eu quero ajudar meninas, atletas e famílias através do esporte, da mentalidade e da educação emocional. Estou desenvolvendo projetos muito especiais voltados para formação de jovens atletas, experiências imersivas, palestras, conteúdo e iniciativas sociais. Quero criar oportunidades que talvez eu não tive lá atrás. A sensação que eu tenho hoje é que o jogo continua… só que de uma forma ainda mais profunda. Créditos: cabelo e make @larissamaldaner/styling: @callmebylacerda Revistas Newsletter

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