Antônio vive em "Casa de Boneca" e mantém cor por amor à esposa
Campo Grande News - Conteúdo de Verdade [Unofficial]
May 28, 2026
Há mais de duas décadas, Antônio Belarmino dos Santos, de 62 anos, mora no que os vizinhos chamam de “casa de boneca". No bairro Center Park, a estrutura de madeira pintada toda de rosa, com detalhes em azul, chama atenção de quem passa pela Rua Maria Nagib Budib. O imóvel é o sonho, a realização e a lembrança de uma vida ao lado da esposa, Cirene Maciel Fernandes, de 63 anos. Com zero masculinidade frágil, Antônio mantém viva a cor preferida da pessoa com quem dividiu 40 anos de histórias e adianta: não vai trocar nunca! Depois de tantos anos juntos, um problema no coração levou Cirene dele. Tudo aconteceu em janeiro deste ano. As palavras ainda custam a sair quando ele fala sobre ela, mas o marido não poupa elogios à companheira, que viveu cada etapa do sonho de ter a casa própria e, melhor ainda, do jeito deles. “Sempre o pessoal fala que parece casa de boneca por ser pintada de cor-de-rosa, e eu tenho uma paixão muito grande por ela. Isso foi o começo da minha vida e eu consegui ela na luta. Eu me sinto muito feliz aqui dentro. Essa casa é uma lenda, uma relíquia. Pretendo ter ela até o resto da minha vida”, afirma. A estrutura, segundo ele, tem mais de 40 anos de existência e Antônio é o terceiro dono. A cor rosa, que virou marca registrada da residência, também carrega afeto. Antônio diz que sempre gostou do tom, mas que Cirene amava rosa. “Quando ela era viva, a gente decidiu por sempre pintar ela dessa cor. Eu não pretendo trocar nunca”. De acordo com Antônio, a esposa já havia passado por uma cirurgia para trocar a válvula cardíaca, mas precisaria fazer um novo procedimento. A perda, segundo ele, foi rápida e dolorosa. “A gente era muito unido. Onde um estava, o outro também estava. A minha vida foi toda com ela”, relembra. Mas nem sempre a casinha foi toda cor-de-rosa. Antes, a parte de dentro era azul, assim como os detalhes da parte de fora. A cor, inclusive, foi um erro do qual o casal gostou no fim das contas. “Comprei essa tinta e era pra ser vermelho cereja. Minha esposa queria, mas deu esse rosa bonito. Eu pintei ela assim em novembro de 2025. Minha esposa chegou a ver. Quando troquei esse telhado, ela ajudou a pintar”. Antônio relembra a história da casa, que começou antes mesmo de ela chegar ao terreno onde está hoje. O imóvel pertencia a um conhecido, que vendeu para um colega dele. Foi então que surgiu a ideia de comprar parte da estrutura e remontá-la em seu próprio terreno. “Passei um ano montando a casa. Era algo pré-montado”, explica. Sem condições financeiras para fazer tudo sozinho, Antônio contou com a ajuda de amigos. Cada um ajudou como pôde. Por isso, ele chama o imóvel de “casa do tiquinho”. “Cada amigo meu me deu uma mão. Todo domingo a gente vinha pra cá. Eu e minha esposa acreditávamos”, lembra. De novo, Antônio se esforça para completar a frase e conseguir dizer mais sobre Cirene. “Ela era uma guerreira. Onde eu tava ela tava junto. Eu ia tirar a cor, mas minha esposa gostou muito e a palavra dela era a que ficava. A gente conversava sobre tudo o que a gente ia fazer. Se era bom pra ela, era bom pra mim. Se era bom pra mim, era bom pra ela”. Antes de conquistar o próprio canto, Antônio morava com o pai. Ele conta que chegou a pensar que nunca conseguiria sair de lá. Por isso, o dia da mudança para a casa rosa ficou marcado. “Quando juntei a mudança pra vir pra cá foi um sonho”, diz. Nem todo mundo acreditou no projeto. O vendedor aposentado lembra que, na época, ouviu críticas por construir uma casa de madeira em uma região onde muitos defendiam apenas imóveis de alvenaria. Mesmo assim, seguiu em frente. “Quando comprei aqui só podia fazer casa de alvenaria. Todo mundo falava que eu iria estragar o bairro, por ser de madeira. Era a que Deus me deu. Eu não ligo para o que o pessoal fala. Isso foi uma luta e barreiras muito grandes. Lutei para realizar meu sonho”. Antônio trabalhou por muitos anos como promotor de vendas e em mercado, até conseguir se aposentar. Cirene era dona de casa. Juntos, tiveram quatro filhos e 10 netos. Alguns moram com ele na casa de boneca. Na garagem, outro personagem também guarda histórias: um Fusca antigo, chamado por Antônio de “guerreiro”. O carro, mesmo com pneu furado, ainda funciona, segundo ele. Há mais de 10 anos, ele chegou a ser usado até para levar um corpo ao cemitério, depois que o transporte funerário ficou caro demais para a família. Hoje, entre a casa rosa, o Fusca e as lembranças de Cirene, Antônio segue vivendo no lugar que ajudou a construir com as próprias mãos. Enquanto depender de Antônio, o rosa continua. E não é só por estética, é amor “pintado” na madeira.
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