A aposta da COP 31 na eletrificação
Um só Planeta [Unofficial]
June 23, 2026
A Conferência de Bonn terminou na semana passada com a sensação de que o regime climático continua com dificuldade para enfrentar os temas que realmente definem o futuro da crise. Financiamento, combustíveis fósseis, transição justa e medidas comerciais continuam presos a divergências políticas profundas, que se reproduzem de uma COP para outra. Nesse contexto, a proposta da Presidência da COP 31 de colocar a eletrificação no centro de sua Agenda de Ação merece atenção. A ideia é ambiciosa em sua escala. A Presidência turca propôs elevar a participação da eletricidade no consumo final global de energia de pouco mais de 20% para 35% até 2035. Em termos simples, isso significa ampliar o uso de eletricidade em atividades que hoje dependem diretamente da queima de carvão, petróleo e gás, como transporte, aquecimento de edifícios e parte dos processos industriais. Há uma razão técnica relevante para isso. Em muitos casos, usar eletricidade na ponta é mais eficiente do que queimar combustíveis diretamente. Um carro elétrico, por exemplo, transforma uma parcela maior da energia recebida em movimento do que um veículo movido a gasolina ou diesel. Bombas de calor podem aquecer ou resfriar ambientes com menos energia do que sistemas convencionais baseados em combustão. Na indústria, processos que exigem calor de baixa temperatura também podem ser eletrificados com ganhos relevantes de eficiência. Isso importa porque reduzir o consumo de energia necessário para realizar a mesma atividade já representa uma redução potencial de emissões, de custos e de exposição a mercados fósseis voláteis. Em uma economia ainda fortemente dependente de petróleo, gás e carvão, a eletrificação pode oferecer mais segurança energética e maior previsibilidade para famílias, empresas e governos. No entanto, é preciso evitar uma simplificação perigosa. Eletrificar não é, por si só, descarbonizar. A eletricidade é um vetor energético, e não uma fonte de energia. Ela pode ser produzida por energia solar, eólica, hidrelétrica, nuclear, biomassa, biogás e outras alternativas de menor impacto. Mas também pode continuar sendo gerada pela queima de carvão e gás. Quando um carro elétrico é abastecido por uma rede elétrica altamente fóssil, parte das emissões apenas muda de lugar. Sai do escapamento e passa a estar concentrada na usina. Por isso, a proposta da COP 31 deve ser entendida pelo que ela é. Trata-se, sobretudo, de uma estratégia de eficiência e de reorganização do uso da energia. Ela pode contribuir de forma importante para a transição para longe dos combustíveis fósseis, mas não substitui essa transição. O chamado aprovado na COP 28 para que os países contribuam para se afastar dos fósseis continua sendo o principal elefante na sala. A eletrificação pode ajudar a reduzir sua dimensão, mas não fará o elefante desaparecer sozinha. Há, ainda, outra razão para que essa agenda ganhe força. A eletrificação é politicamente mais vendável do que o debate direto sobre o fim da dependência fóssil. Ela permite falar de inovação, competitividade, eficiência, modernização industrial e segurança energética, sem exigir, ao menos de imediato, que os países enfrentem a pergunta mais difícil. Quais setores fósseis precisam ser reduzidos, em que ritmo e com quais instrumentos de proteção para trabalhadores, territórios e economias dependentes dessas atividades? Essa característica pode ser uma virtude, desde que não se transforme em fuga. Em um cenário em que as negociações formais têm dificuldade para produzir consensos sobre os fósseis, iniciativas capazes de gerar resultados concretos são bem-vindas. A expansão de veículos elétricos, redes de transmissão, armazenamento de energia, bombas de calor, fornos elétricos e sistemas inteligentes de gestão de demanda pode reduzir emissões e abrir espaço para novas cadeias produtivas. Também é uma agenda que mobiliza interesses comerciais. Empresas vendem equipamentos, tecnologias, infraestrutura, serviços e conhecimento associados à eletrificação. Isso ajuda a explicar por que a proposta encontra receptividade em parte do setor privado e pode facilitar a construção de coalizões políticas. Nem toda convergência entre interesse econômico e política climática é um problema. Mas é necessário ter cuidado, de modo a garantir que essa expansão não reproduza dependências tecnológicas, desigualdades de acesso ou concentração de benefícios em poucos países e empresas. A eletrificação também pode ser mais democrática do que um modelo energético inteiramente dependente de uma fonte específica. Uma rede elétrica bem planejada pode integrar diferentes recursos disponíveis em cada território, desde renováveis até biogás, biomassa sustentável e outras soluções adequadas às circunstâncias nacionais. Isso abre espaço para trajetórias diversas de transição, especialmente em países que não partem das mesmas condições econômicas, tecnológicas ou territoriais. A diversidade de caminhos, contudo, não pode significar ausência de direção. A direção continua sendo reduzir rapidamente as emissões e superar a dependência dos combustíveis fósseis. A eletrificação é uma ferramenta importante para isso, sobretudo quando combinada com geração limpa, eficiência energética, planejamento territorial, financiamento e transição justa. Sem esses elementos, ela corre o risco de ser apenas uma modernização tecnológica de um sistema que continua fóssil em sua base. A Presidência da COP 31 parece ter entendido que, em um processo negociador travado, é preciso buscar entregas capazes de mobilizar governos, empresas e investidores. Essa é uma escolha pragmática e, em muitos aspectos, útil. Todos os esforços que reduzam emissões e ampliem o acesso à energia limpa devem ser valorizados. É nesse contexto que não podemos esquecer aquilo que permanece no centro da crise. A eletrificação pode tornar o sistema energético mais eficiente, mais flexível e, se acompanhada de fontes limpas, menos poluente. Mas ela não substitui a decisão política de deixar os combustíveis fósseis para trás. Do contrário, o elefante continuará na sala. E não sairá dela apenas porque aprendemos a usar melhor a eletricidade. Mais Lidas
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