Conservar a história também é enfrentar a crise climática
Um só Planeta [Unofficial]
June 3, 2026
Poucos brasileiros sabem, mas o interior do Piauí guarda uma das chaves para compreender o início da ocupação humana nas Américas, ocorrida há pelo menos 30 mil anos. Entre paredões rochosos e paisagens do semiárido, encontram-se evidências arqueológicas que desafiam as narrativas tradicionais sobre o povoamento do continente. Esse patrimônio, porém, permanece vulnerável quando não está plenamente protegido por Unidades de Conservação (UCs) — instrumentos essenciais para preservar a natureza, a história e a memória cultural. Nesta região, foram identificados mais de 800 sítios pré-históricos, pinturas rupestres, instrumentos líticos e vestígios de antigas fogueiras humanas, datados por técnicas como carbono 14 e termoluminescência. O conjunto é resultado de quase cinco décadas de pesquisas lideradas pela arqueóloga Niède Guidon, cujos estudos transformaram o entendimento científico sobre a presença humana na América Latina. A importância dessas descobertas levou à criação, em 1979, do Parque Nacional da Serra da Capivara, marco da preservação arqueológica brasileira. Os grupos humanos pré-históricos ocupavam uma região muito mais ampla que a área abrangida pelo parque. Mudanças climáticas ocorridas ao longo de milhares de anos alteraram a paisagem e deslocaram fauna e populações humanas para áreas com maior disponibilidade hídrica, como a região do Parque Nacional da Serra das Confusões, criado em 1998 após novas descobertas arqueológicas. Parque Nacional da Serra das Confusões. Emerson Antonio de Oliveira Juntos, os dois parques somam mais de 950 mil hectares, porém, essa área ainda é insuficiente para garantir a integridade ecológica regional. A ocupação do solo por diferentes atividades e a caça praticada na área entre as unidades dificultam o deslocamento da fauna. Um corredor ecológico entre os parques, formalizado em 2025, é limitado por não possuir o mesmo grau de proteção legal de uma unidade de conservação. A fragilidade desse território entre parques tornou-se ainda mais evidente com a instalação de um projeto de produção de carvão vegetal na Serra Vermelha, área adjacente à Serra das Confusões. A proposta previa a exploração de 100 mil hectares de florestas perenes em um mosaico ecológico singular de florestas densas, Caatinga e Cerrado. Localização dos Parques Nacionais da Serra das Confusões e Serra da Capivara, ao Sul do Piauí, e de Sete Cidades, polígono menor, ao Norte do Estado Arquivos kml do ICMBio. Pesquisas da Universidade de São Paulo (USP) registraram, nessa região, ao menos 340 espécies de vertebrados terrestres, incluindo espécies ameaçadas, endêmicas e novas para a ciência. Parte dessa área foi incorporada à ampliação do parque em 2010, mas o platô mais preservado da Serra Vermelha permaneceu fora dos limites oficiais, mantendo uma lacuna crítica para a conservação. A demanda para a ampliação das áreas protegidas no Piauí também alcança o Parque Nacional de Sete Cidades, a cerca de 600 quilômetros ao norte. Conhecido pelas formações rochosas esculpidas pela ação do tempo e pelo crescente interesse turístico, o parque reúne evidências importantes sobre antigas rotas de ocupação humana pelo Vale do Rio Parnaíba. Apesar da relevância científica e econômica — comprovada pelo aumento da visitação — sua área atual, de apenas 6,3 mil hectares, é insuficiente para a plena proteção de seus ecossistemas. Pesquisas financiadas pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza revelaram na região uma biodiversidade extraordinária na transição entre Cerrado e Caatinga, com centenas de espécies vegetais registradas e novas espécies ainda em processo de identificação científica. Estudos técnicos conduzidos pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) indicam a viabilidade de ampliar Sete Cidades para cerca de 16,8 mil hectares, incorporando áreas de alta relevância ecológica. A ampliação das unidades de conservação no Piauí é uma decisão estratégica diante da emergência climática global e a oportunidade de honrar o legado arqueológico e cultural da pesquisadora Niède Guidon, que faleceu há um ano. O debate internacional consolidou o conceito das Soluções Baseadas na Natureza (SBN), que reconhece os ecossistemas como aliados diretos no enfrentamento de desafios ambientais e sociais. Em regiões semiáridas, conservar vegetação nativa significa proteger aquíferos, reduzir a desertificação, equilibrar regimes hídricos e armazenar carbono — ações que fortalecem diretamente a resiliência dos ecossistemas e das populações humanas. Garantir a conservação destes ecossistemas e o importante legado para compreensão da história humana no continente americano é afirmar que o país reconhece o valor estratégico de seus territórios naturais em um planeta que busca respostas urgentes para a crise climática — uma decisão efetiva sobre o futuro do Brasil, das Américas e das próximas gerações. * Emerson Antonio de Oliveira é doutor em Engenharia Florestal com ênfase em Conservação da Natureza pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e gerente de Conservação da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário; Carlos Hugo Rocha é doutor em Gestão de Recursos Naturais pela Colorado State University (EUA) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.
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