Austrália cria primeira área protegida indígena voltada ao mar e reforça papel dos povos tradicionais na conservação
Um só Planeta [Unofficial]
June 15, 2026
A Austrália deu um passo inédito na conservação da biodiversidade ao reconhecer oficialmente sua primeira Área Protegida Indígena Marinha, ampliando o protagonismo dos povos originários na gestão de ecossistemas estratégicos para o clima e a natureza. Batizada de Karajarri Jurarr Ngurra, a nova área foi declarada em março pelo povo Karajarri e abrange 237.489 hectares de ambientes marinhos e costeiros na região de Kimberley, no noroeste australiano. O território inclui parte de Malumpurr, nome tradicional dado pelos indígenas à famosa Eighty Mile Beach, uma faixa costeira conhecida por sua riqueza ecológica. A iniciativa representa mais um capítulo de uma trajetória de décadas dos Karajarri para obter reconhecimento formal de seus territórios e fortalecer a gestão ambiental baseada em conhecimentos tradicionais. Antes da criação da área marinha, a comunidade já havia conquistado direitos territoriais sobre suas terras ancestrais, estabelecido uma Área Protegida Indígena terrestre e estruturado um programa de guardiões ambientais responsáveis pelo monitoramento e manejo da região. Initial plugin text Saiba mais A nova área abriga espécies emblemáticas da fauna australiana, como a tartaruga-marinha-de-casco-chato (Natator depressus), que utiliza as praias locais para reprodução, além de aves migratórias e peixes-serra que dependem dos ambientes costeiros e das áreas úmidas da região. Embora essas espécies sejam monitoradas por pesquisadores e programas de conservação, os Karajarri destacam que o conhecimento sobre seus ciclos e habitats vem sendo construído há gerações por meio da observação direta e da relação contínua com o território. Ao site Mongabay, Jesse Ala’i, ex-gerente de Terras e Mar da Associação de Terras Tradicionais Karajarri, explica que a conservação e o bem-estar das comunidades são inseparáveis. “Para ter um território saudável, é preciso ter pessoas saudáveis”, afirmou. “E pessoas saudáveis precisam de um território saudável.” Batizada de Karajarri Jurarr Ngurra, a nova área foi declarada em março pelo povo Karajarri e abrange 237.489 hectares Site Karajarri Traditional Lands Association As Áreas Protegidas Indígenas se tornaram um dos principais instrumentos da Austrália para cumprir a meta internacional de proteger 30% de seu território até 2030, compromisso assumido no âmbito do acordo global para a biodiversidade aprovado em Montreal, no Canadá. Hoje, mais de 90 áreas desse tipo estão distribuídas pelo país e respondem por mais da metade do avanço australiano rumo à meta dos 30%. Defensores do modelo argumentam que essas iniciativas combinam conservação da biodiversidade, valorização cultural e geração de renda para comunidades indígenas. Os programas costumam incluir equipes de guardiões ambientais responsáveis por monitorar espécies, restaurar ecossistemas e prevenir ameaças como incêndios, espécies invasoras e degradação ambiental. Além da proteção ambiental, estudos apontam que os investimentos nessas áreas geram retornos sociais, econômicos e culturais significativos para as comunidades locais. Initial plugin text Ciência e saber ancestral lado a lado A experiência dos Karajarri também tem servido de exemplo para pesquisadores que atuam na região. Projetos desenvolvidos em parceria entre cientistas e guardiões indígenas vêm ampliando o conhecimento sobre a biodiversidade costeira de Kimberley e contribuindo para o monitoramento de espécies pouco estudadas. Segundo especialistas envolvidos nessas iniciativas, a combinação entre métodos científicos e conhecimento tradicional permite compreender mudanças ambientais que muitas vezes passam despercebidas por pesquisas de curto prazo. Em um contexto de crise climática e perda acelerada de biodiversidade, a criação da Karajarri Jurarr Ngurra reforça uma tendência observada em diferentes partes do mundo: o reconhecimento de que os povos indígenas não são apenas beneficiários das políticas de conservação, mas atores centrais na proteção dos ecossistemas. Para os Karajarri, porém, a nova área protegida representa mais do que uma estratégia ambiental. É o reconhecimento formal de uma relação ancestral com a terra e o mar — uma conexão que, para a comunidade, nunca deixou de existir. Mais Lidas
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