Conferência em Santa Marta tenta acelerar fim dos combustíveis fósseis e reforçar agenda da COP30
Um só Planeta [Unofficial]
April 24, 2026
A primeira Conferência Internacional sobre Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis inicia a partir desta sexta-feira (24) e vai até o dia 29 de abril em Santa Marta, na Colômbia. Veja a programação completa. É mais uma tentativa de dar força política a um dos pontos mais sensíveis das negociações climáticas globais: transformar compromissos em ações concretas para reduzir, sobretudo, o uso de carvão, petróleo e gás – vilões do clima mundial. Não coincidentemente, a cidade de Santa Marta congrega o passado e o presente, com combustíveis fosseis, a um futuro necessário – com biodiversidade. Localizada no litoral do Caribe colombiano, Santa Marta é uma das cidades mais antigas da América do Sul e tem cerca de 500 mil habitantes. Sua economia é baseada no turismo, no porto e na exportação de commodities como carvão - o que a insere na dinâmica dos combustíveis fósseis. Ao mesmo tempo, a cidade está próxima da Sierra Nevada de Santa Marta, região estratégica em biodiversidade e território de povos indígenas, num aparente contraste entre desenvolvimento econômico, pressão ambiental e conservação. Espaço Complementar Anunciada pelos governos da Colômbia e dos Países Baixos durante a COP30, em Belém, a Conferência em Santa Marta é um espaço complementar às negociações formais da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), com foco em articulação política entre países que já sinalizaram compromisso com a transição energética. A expectativa é que o evento contribua diretamente para o chamado “Mapa do Caminho” sobre o fim dos combustíveis fósseis, que está sendo elaborado pela presidência brasileira da conferência do clima. Estão sendo aguardados representates de 60 países, embora mais de 80 países já haviam concordado, durante a COP30, em apoiar a iniciativa, mesmo sem uma menção explícita aos combustíveis fósseis no texto final da Conferência em Belém. O Brasil confirmou presença, com uma equipe do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, além de lideranças da sociedade civil e outras entidades. O fato é que o encontro na Colômbia é mais uma esperança que os países assumam um compromisso formal. “A Conferência de Santa Marta pode fortalecer uma coalizão de países comprometidos com a transição energética justa para que a pauta avance por meio de cooperação internacional”, projeta a especialista em políticas climáticas do Greenpeace Brasil, Anna Cárcamo. Pressão por implementação A conferência acontece em um momento de agravamento da crise climática e de aumento da pressão sobre governos que avançam em declarações formais, mas ainda pecam na implementação dos acordos. De acordo com análise do Fundo Mundial para a Natureza (WWF), o evento representa uma oportunidade crítica para acelerar a implementação do acordo firmado na COP28, que prevê a transição para longe dos combustíveis fósseis. “O clima da Terra está mais desequilibrado do que em qualquer outro momento da história já documentado”, alerta a organização, ao destacar que carvão, petróleo e gás são os principais “motores” do aquecimento global. A proposta da Conferência na Colômbia é atuar em três frentes prioritárias: reduzir a dependência econômica dos combustíveis fósseis, transformar os sistemas de oferta e demanda de energia, além de fortalecer a cooperação internacional e a diplomacia climática. Líder global de clima e energia do WWF e ex-presidente da COP20, Manuel Pulgar-Vidal, considera que o momento exige decisões céleres e coordenadas. “Os combustíveis fósseis são o fósforo que continuamos a acender em um mundo já em chamas. Precisamos de uma mudança rápida e global para energia renovável”. Amazônia A escolha da Colômbia como sede do evento também carrega um peso simbólico. Com território amazônico, o país está no centro de uma disputa crescente entre expansão da indústria fóssil e preservação ambiental, cenário semelhante ao do Brasil, por exemplo, especialmente, nos debates da região da Foz do Amazonas. “É alarmante ver a Amazônia se consolidar como a nova fronteira global da indústria dos combustíveis fósseis”, lamenta a coordenadora de Oceanos do Greenpeace Brasil, Mariana Andrade. “Explorar petróleo e gás na região terá consequências socioambientais locais e globais, já que o bioma é essencial para o equilíbrio climático”. Organizações ambientais reiteram a necessidade de frear a expansão de novos projetos fósseis, especialmente em áreas sensíveis, antes que os impactos se tornem irreversíveis. Multilateralismo Embora não faça parte do processo formal da ONU, a conferência é vista como um teste de um modelo mais flexível de articulação internacional, combinando negociações oficiais com iniciativas políticas paralelas, estratégia defendida pela presidência brasileira da COP30. O multilateralismo, pela exigência de consenso entre os países, gera negociações arrastadas e incompatíveis com a velocidade imposta pela crise climática. “Santa Marta oferece uma oportunidade concreta para testar, na prática, um modelo de multilateralismo em dois níveis, no qual trilhas formais e informais se articulam em torno de um objetivo comum”, avalia a líder de estratégia internacional do WWF-Brasil, Tatiana Oliveira. Há perspectiva de que a Conferência produza um relatório, com recomendações e insumos técnicos para orientar a construção do Mapa do Caminho global. O desafio da transição No centro das discussões está um dilema que atravessa a política climática global: como reduzir rapidamente o uso de combustíveis fósseis sem aprofundar desigualdades sociais e econômicas. Para o WWF, isso passa por medidas como eliminar subsídios aos fósseis, reduzir a demanda, investir em energias renováveis e garantir que a transição seja justa, ordenada e baseada em evidências científicas. “O que estará em discussão em Santa Marta é justamente a necessidade de transformar compromissos globais em ações concretas”, enfatiza o diretor executivo do WWF-Brasil, Mauricio Voivodic. “O Brasil já tem condições de liderar essa transição, mas precisa definir com clareza um caminho, com metas e prazos”. A pergunta que segue em aberto nas negociações internacionais é não mais se a transição vai acontecer, mas com que velocidade e sob quais condições vai ocorrer. A Conferência de Santa Marta responderá o questionamento? Mais Lidas
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