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Corvos têm um 'GPS mental' que os leva direto às presas dos lobos, revela estudo

Um só Planeta [Unofficial] March 13, 2026
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Existe uma velha história da vida selvagem sobre corvos que seguem lobos esperando o momento em que a caça é abatida. Quando o predador termina de comer, sobra algo para os oportunistas. Mas uma pesquisa feita no Parque Nacional de Yellowstone, nos EUA, mostra que a realidade é ainda mais engenhosa. Os corvos não passam dias atrás dos lobos. Na verdade, eles lembram onde as caçadas costumam acontecer, e voltam a esses lugares quando bate a fome. "Eles conseguem voar até seis horas seguidas, diretamente para áreas onde é provável que haja uma carcaça" explica o pesquisador Matthias Loretto, autor principal do estudo publicado na revista Science. Figura 1. Movimentos de corvos, lobos e pumas rastreados por GPS em MT, WY e ID, EUA. De outubro de 2019 a março de 2022, todas as localizações de corvos (cinza), lobos (roxo) e pumas (laranja) são mostradas, exceto as posições de GPS de dois corvos após se dispersarem a mais de 350 km de todos os carnívoros. Os polígonos azuis no mapa grande e no mapa inserido representam os limites do Parque Nacional de Yellowstone e as linhas pretas referem-se às fronteiras estaduais. M.-C.L. A ideia de que corvos vivem “colados” aos lobos não surgiu do nada. Biólogos frequentemente observam aves sobrevoando alcateias ou caminhando logo atrás dos predadores durante uma caçada. Para os corvos, faz sentido, afinal os lobos "produzem" comida. "Sempre presumimos que as aves seguiam uma regra simples: ficar perto dos lobos", diz o biólogo Dan Stahler, que acompanha os predadores de Yellowstone há décadas. O problema é que ninguém tinha testado a hipótese olhando o mundo do ponto de vista dos corvos. Lobo Cinzento (Canis Lúpus) protege sua presa Getty Images 69 corvos com GPS Então a equipe decidiu investigar. Pesquisadores instalaram pequenos rastreadores em 69 corvos, o que não foi simples, porque estas aves são bem desconfiadas. Para capturá-las, foi preciso criatividade: armadilhas perto de acampamentos tinham de ser camufladas com lixo e restos de fast-food. "Se algo parece estranho, eles simplesmente não chegam perto" diz Loretto. Os cientistas também usaram dados de GPS de 20 lobos monitorados no parque. Durante dois invernos, acompanharam os movimentos dos animais e registraram os pontos exatos onde os lobos mataram presas como alces, bisões e cervos. O resultado derrubou a hipótese clássica. Em dois anos e meio de observação, houve apenas um caso claro de um corvo seguindo um lobo por mais de um quilômetro. Mesmo assim, as aves continuavam chegando rapidamente às carcaças. O mistério só se resolveu quando os cientistas analisaram o padrão de deslocamento. Em vez de perseguir predadores, os corvos visitavam repetidamente certas regiões da paisagem áreas onde as caçadas de lobos costumam dar certo. Saiba mais O mapa invisível da paisagem Lobos tendem a matar presas em locais específicos, como fundos de vales planos, onde a perseguição funciona melhor. Com o tempo, esses lugares viram verdadeiros "pontos de comida", e os corvos parecem memorizar esse padrão. Alguns indivíduos chegaram a voar até 155 quilômetros em um único dia, seguindo trajetórias bem definidas até essas regiões promissoras. Assim, para um corvo, o território funciona como um mapa de probabilidades, onde certas áreas oferecem melhores chances. Isso não significa que os corvos ignoram totalmente os lobos. Quando estão perto de uma alcateia, eles provavelmente usam pistas imediatas, como observar o comportamento dos predadores ou até ouvir uivos. Mas, em escala maior, a estratégia é de memória primeiro e pistas depois. Segundo o ecólogo John M. Marzluff, isso revela uma inteligência animal muitas vezes subestimada. "Eles não ficam presos a uma única alcateia. Com memória e sentidos aguçados, conseguem escolher entre muitas oportunidades de alimento espalhadas pela paisagem". Em outras palavras: os lobos fazem a caça, mas os corvos sabem exatamente onde vale a pena procurar o jantar. Mais Lidas

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