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Projeto no Rio transforma fantasias descartadas da Sapucaí em renda para mulheres: 'Dignidade para que invistam em si mesmas'

Um só Planeta [Unofficial] February 15, 2026
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“Por ano, o Carnaval do Rio produz cerca de 100 mil fantasias. Na Sapucaí, as escolas conseguem retirar 95% para reaproveitar o material, mas ainda sobram 5 mil fantasias para o descarte”, aponta Mariana Pinho, idealizadora do projeto Sustenta Carnaval. Em 2002, ela trabalhava na criação de alegorias da Mocidade Independente de Padre Miguel, escola de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro. Foi no barracão da agremiação que a artista passou a se incomodar com o descarte de sobras na produção e com o abandono de diversas peças pela Marquês de Sapucaí após o fim dos desfiles. Parte dos descartes também iam parar em aterros no Rio de Janeiro, causando grande impacto ambiental. Os materiais, na maioria tipos de plástico e restos de tecido, podem levar centenas de anos para se decompor. Além disso, há uma grande emissão de carbono em toda a cadeia produtiva. “Através de levantamentos, entendemos que os figurinos podem gerar até 47,2 kg de CO₂, mais do triplo da nossa emissão diária ao comer e tomar banho, por exemplo”, conta. Em 2022, nasceu o Sustenta Carnaval, que através do upcycling, procura dar um novo destino às fantasias, gerando impacto positivo no meio-ambiente e trabalho para diversas pessoas. O projeto, que tem acordo de cooperação com a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA-RJ) e Secretaria de Meio Ambiente e Clima (SMAC), começa em meio à folia. Durante os desfiles das escolas de samba, em parceria com a Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio (Comlurb), equipes recolhem os restos deixados pelo caminho. Depois, as plumas, fantasias e adereços de cabeça são destinados ao varejo. Lohanne Tavares com look feito por fantasias coletadas pelo Sustenta Carnaval. Arquivo pessoal Há também uma união de esforços com o Mulheres do Sul Global, movimento que promove o desenvolvimento profissional de mulheres refugiadas e em vulnerabilidade social. O instituto capacita as participantes, promovendo a criação de novos produtos, que são vendidos, gerando renda. “Os insumos do Carnaval possuem transversalidade. As meninas transformam as lonas, os tecidos e a memória que o material carrega em coisas úteis ao cotidiano. Elas produzem bolsas, ecobags, porta-passaportes e carteirinhas”, diz Mariana. Foliões também podem comprar peças O Sustenta Carnaval também vende as peças por quilo, incentivando o consumo de moda consciente durante os dias de folia. O projeto ainda conta com aulas, em que profissionais da moda ensinam como reutilizar os tecidos em novas roupas, como biquínis, shorts e saias, e reaproveitar a estrutura de grandes adereços. Mentora do projeto, a figurinista Lohanne Tavares entrou para a iniciativa há dois anos, repaginando peças ao seu gosto. Apaixonada pelo consumo consciente, ela se tornou parte da equipe e tem exposto figurinos feitos a partir dos resíduos – algumas de suas criações foram exibidas em uma reunião do G20 no Brasil, em 2024. “Muita gente não entende as propostas sustentáveis por ‘ranço’ do assunto. Quando eu falava nas minhas redes sobre o tema, via as pessoas ‘revirando os olhos’, tentando fugir. Porém, hoje, acredito que a seriedade e crescimento de um projeto como o ‘Sustenta’ faz com que elas acreditem mais na ideia do upcycling”. Assim como Mariana, a figurinista acredita que, com criatividade, as peças podem ser transformadas em novas roupas, tanto para o cotidiano quanto para eventos culturais: “De várias formas diferentes, as fantasias podem ser usadas em eventos como as Festas Juninas ou na customização de roupas normais mesmo. É um material muito viável. Com ajuda das nossas oficinas, podemos mostrar para o público que é possível vestir esse material tão rico”. O projeto também promove a exportação de resíduos para eventos na Inglaterra, como o Carnaval de Notting Hill e o Dendê Nation, em Londres. Há também uma parceria com a faculdade de Moda de Norwich. “São três dias de residência e é somente no último dia que eles têm contato com os photoshoots. Nos outros dias, eles passam pela teoria, é o momento em que eles ficam mal, e depois, escolhem as fantasias que irão reaproveitar. Ficamos de olho para que o impacto não seja negativo, porque não adianta pegar 2kg de fantasia e produzir um look de 200g, é um desperdício. Queremos trabalhar neles a consciência da mitigação.” Um projeto de reparação Mariana Pinho, idealizadora do Sustenta Carnaval. Eliane Góes A idealizadora do Sustenta Carnaval também nota o impacto social das ações de seu projeto. Além das mulheres que estão envolvidas na cadeia sustentável pelo Instituto Mulheres do Sul Global, o núcleo da organização também é composto em parte por grupos socialmente invisibilizados. “Não buscamos nada excessivo que possa desmoralizar a equipe. Por isso, temos muito cuidado em fazer com que essas pessoas sejam acolhidas pelo trabalho. Não é somente sustentabilidade, mas também, reparação social. Pois são mulheres trans, negras e de famílias monoparentais que fazem o projeto acontecer.” Através do trabalho, Mariana nota sua equipe mais confiante e profissionalmente realizada: “Temos funcionárias que saem de relações abusivas, porque em muitos casos as relações são baseadas numa dependência financeira. Elas nos relatam que saíram da depressão, porque o trabalho deu a elas dignidade e elas podem investir em si mesmas”. Os desafios de um Carnaval sustentável Ao comentar os desafios, Mariana explica que o projeto ainda sofre com sua saúde financeira, já que precisam pagar seus funcionários, contadores, impostos e o aluguel, setores que necessitam de mais verba. Atualmente, o projeto tem sede em um imóvel comercial da Gamboa, na zona portuária da cidade do Rio de Janeiro. “Nosso problema sempre começa no pós-Carnaval. O custo do projeto não se encerra na coleta. No ano passado, nos vimos sozinhos, ficamos paralisados após recebermos um aviso prévio do imóvel em que estávamos e só conseguimos um espaço novo graças a uma proposta de compra de uma tonelada de material. Hoje, o mais difícil é a gente se manter sustentável também na questão financeira.” Mariana espera conseguir mais incentivo da iniciativa privada, sem perder os principais valores do Sustenta Carnaval: “Nossa esperança vem de patrocínios. No entanto, precisam vir de empresas que tenham a ver com a gente. Já chegamos a negar uma parceria financeiramente benéfica, mas que era com uma empresa de glitter, algo que polui muito o meio-ambiente. Enquanto buscamos investimentos, temos muito cuidado, porque temos uma base ética e um legado”. Mais Lidas

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