Que fim levou o uTorrent, um dos programas mais clássicos de download P2P?
O download de arquivos via torrent já é popular há bastante tempo. O protocolo de transferência de arquivos BitTorrent existe desde 2001 e o The Pirate Bay, primeiro grande site de sucesso na área, nasceu dois anos depois.
Para quem já é veterano nessa tecnologia, que é bastante usada no campo da pirataria, um programa em especial tende a ser o mais citado como o favorito de muita gente: o uTorrent, clássico de quem buscava um cliente para baixar e gerenciar o download desses arquivos.
Nos últimos anos, entretanto, ele é cada vez menos recomendado por quem ainda recorre ao download de torrents e magnets, em especial por uma série de decisões polêmicas dos responsáveis pelo projeto.
O que aconteceu para esse programa ter perdido tanto prestígio em tão pouco tempo? A seguir, relembre a trajetória e saiba por onde anda esse software antes icônico.
O início de uma lenda
O uTorrent na verdade se chama μTorrent — ou "Mi Torrent", na pronúncia da letra do alfabeto grego usada no nome no programa. O símbolo é normalmente usado para indicar "micro" e, neste caso, a ideia é reforçar que o software é leve e não consome muitos recursos do computador durante o uso.
O cliente para download de arquivos peer-to-peer (P2P) foi desenvolvido pelo programador sueco Ludvig Strigeus, o ludde , para solucionar um problema da época. Todos os demais softwares do ramo eram pesados e exigiam bastante memória para seguir funcionando.
A interface minimalista do uTorrent. (Imagem: Reprodução/Baixaki)
As versões iniciais da ferramentas foram muito bem recebidas justamente pela facilidade de uso do software e a leveza do cliente, que também não contava com anúncios e implementou com o tempo até criptografia de protocolos.
O funcionamento é o mesmo de qualquer outro programa do tipo. Ele é capaz de abrir e executar o download de um arquivo torrent ou link no formato magnet, que é fornecido por sites e outras ferramentas. A velocidade e a estabilidade da transferência dependem da quantidade de outros usuários (seeds) que têm o arquivo baixo e auxiliam com o upload de dados, além da proporção com mais pessoas que estejam baixando o arquivo (leechs).
A menos conhecida versão para celulares do serviço. (Imagem: uTorrent/Reprodução)
A qualidade chamou a atenção da própria companhia que criou o protocolo da tecnologia, a BitTorrent Inc. Ela adquiriu o μTorrent no fim de 2006, enquanto Strigeus foi trabalhar para uma plataforma de streaming de música ainda em desenvolvimento: o Spotify.
A partir da versão 6.0, o próprio cliente BitTorrent passou a usar o código do novo integrante da família como base de funcionamento. O sucesso foi crescente e, por volta de 2011, ele já acumulava mais de 132 milhões de usuários ativos , sendo o programa mais popular do setor inteiro.
As controvérsias do uTorrent
Os problemas envolvendo o programa começam em 2012 por causa de uma decisão estratégia. Neste ano, a empresa BitTorrent anuncia que começaria a exibir anúncios na versão gratuita do μTorrent , o que rapidamente irritou a base de usuários que por anos usou o programa sem esse inconveniente.
Nos anos seguintes, ele passa a ser sinalizado como malware em potencial por plataformas de cibersegurança como o Windows Defender, nativo no sistema operacional da Microsoft. O motivo é o uso do OpenCandy, uma biblioteca de instalação que exibe anúncios indesejados, muda a página inicial de navegadores e faz outras alterações no computador sem a devida autorização;
Esse espaço exagerado de anúncios trazia ainda brechas de segurança importantes: não só de acordo com a sinalização, mas por denúncias de especialistas na área, ele poderia abrir caminho para que invasores tivessem acesso ao controle remoto do PC ;
Só que a principal controvérsia aparecem em 2015. Foi neste ano que o cliente adicionou por padrão uma opção na instalação que instalava um minerador de criptomeodas silencioso no PC do usuário , o Epic Scale. Ele ajudava a arrecadar fundos para a BitTorrent Inc e parcialmente para instituições de caridade, mas a falta de aviso pegou mal e o programa foi removido semanas depois da denúncia;
Já em 2018, o pesquisador de cibersegurança Tavis Ormandy, da Google, descobriu uma série de vulnerabilidades graves no programa, que permitiam que agentes mal intencionados escondessem comandos dentro de sites que interagiam com a ferramenta;
Em 2018, a BitTorrent Inc é vendida para o empresário Justin Sun, fundador do projeto de blockchain Tron. A empresa até troca de nome no processo, passando a se chamar Rainberry, e o fundador Bram Cohen deixa o projeto.
O que aconteceu com o uTorrent?
O μTorrent ainda existe, pode ser baixado gratuitamente e segue bastante popular em taxa de downloads. Porém, ele não tem mais a mesma parcela de relevância ou reputação no mercado do que na década passada, muito pelas polêmicas envolvendo o software.
Atualmente, ele existe em três versões:
- o µTorrent Classic , que é o programa tradicional para PCs (Windows, macOS e Linux);
- o µTorrent Android , uma versão para tablets e smartphones com o sistema operacional da Google;
- e o µTorrent Web , que transmite direto no navegador o arquivo de mídia escolhido, em vez de fazer o download tradicional.
Baixar o software segue gratuito, com planos pagos que trazem mais benefícios e removem os anúncios. Ainda assim, ele hoje está longe de ser tão recomendado quanto concorrentes que nos últimos anos ganharam mais espaço, como o qBittorrent.
A versão web, que faz o streaming do conteúdo desejado. (Imagem: Reprodução/uTorrent)
A monetização agressiva por meio de anúncios e mineração , a falta de inovação em um programa que antes era o grande exemplo a ser seguido e a própria redução no uso desses clientes de torrent , preteridos pelo streaming legalizado ou plataformas de transmissão pirata mais diretas, porém, fizeram ele virar uma sombra do que era no período de auge.
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