A ciência por trás dos gramados da Copa do Mundo
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June 15, 2026
Os 104 jogos da Copa do Mundo FIFA 2026 vão acontecer sobre grama natural. A FIFA proíbe gramado sintético nos jogos do torneio, mas suas exigências vão além da composição do “tapete”: a bola deve se comportar da mesma forma em qualquer um dos 16 estádios espalhados pelos Estados Unidos, México e Canadá. Para cumprir essa exigência em arenas espalhadas por países com condições climáticas diversas, a entidade montou uma equipe de pesquisadores e trabalhou por oito anos tentando resolver o que seu gerente sênior de campos, Alan Ferguson, descreveu ao New York Times como "o maior desafio" da competição. O desafio começa na biologia Existem duas dezenas de espécies de grama esportiva, e cada uma tem um comportamento diferente dependendo do clima, da luz e do corte: A grama-bermuda — a mesma usada em muitos gramados brasileiros — tolera bem o calor, mas murcha à sombra; A grama azul do Kentucky, espécie típica do clima frio norte-americano, aguenta menos luz e estações de crescimento mais curtas; O azevém perene germina rápido, mas deixa o campo mais sujeito a marcas de chuteiras. A decisão sobre qual grama usar em cada estádio coube a uma equipe liderada pelos pesquisadores John Sorochan, da Universidade do Tennessee, e John Rogers, da Universidade Estadual de Michigan. Os dois trabalham desde 2018 com testes mecânicos e biológicos, e um dos instrumentos que desenvolveram é o fLEX: um dispositivo portátil equipado com um pé impresso em 3D usando uma chuteira, que reproduz o impacto, a aceleração e o movimento de corte de um atleta de 76 quilos — peso médio de um jogador masculino de Copa. O aparelho mede quanta energia o gramado absorve e devolve ao jogador a cada pisada. A equipe também lançou bolas a 55 km/h em ângulos específicos e usou câmeras de alta velocidade para medir como cada tipo de superfície altera a trajetória. O resultado foi uma divisão por clima: nos estádios ao ar livre de Miami e de Monterrey, no México, entrou a grama-bermuda. Nos ginásios fechados e nas arenas mais ao norte dos Estados Unidos, optou-se por uma mistura de 84% de Kentucky com 16% de azevém. O objetivo, segundo Sorochan, é que a experiência de jogo seja "uniforme e homogênea" nos 16 estádios. A logística do plantio foi outra parte da equação As placas de grama de 15 estádios foram cultivadas em nove fazendas no Canadá, no México e nos Estados Unidos. O campo do Estádio Azteca, na Cidade do México, foi o único plantado por semente diretamente no local, por conta da altitude de 2.240 metros, equivalente à de cidades como Bogotá. No trajeto mais longo, 24 caminhões frigoríficos levaram rolos de grama por cerca de 2.250 quilômetros — do estado do Colorado até Atlanta, na Geórgia — em 30 horas de viagem. Para esta edição, a FIFA adotou uma técnica chamada "sod sobre plástico". Normalmente, quando a grama é colhida, as raízes são cortadas, o que provoca uma espécie de choque de transplante e deixa o gramado mais frágil nos primeiros dias. Desta vez, a grama foi cultivada sobre uma fina camada de areia em cima de uma lona plástica: as raízes crescem para baixo, encontram a barreira e se ramificam para os lados, formando uma trama densa e resistente. O rolo pode ser transportado e instalado sem que esse entrelaçamento se desfaça. Depois de assentado, o gramado ainda recebe fibras plásticas costuradas no solo por uma máquina que lembra a combinação de um rolo compressor com uma máquina de costura. As fibras funcionam como chumbadores para as raízes naturais — uma espécie de armação de aço no concreto, como descreve o próprio método. O maior problema são os cinco estádios fechados, onde a grama precisa sobreviver sem luz solar direta. As coberturas modernas — projetadas para proteger as arquibancadas e melhorar a experiência dos torcedores — bloqueiam justamente o que o gramado mais precisa. Iluminação artificial do gramado do Dallas Stadium Getty Images Nesses locais, os campos temporários da Copa funcionam sobre um sistema de suporte que inclui camadas de areia e uma malha de drenagem capaz de bombear água para dentro ou para fora conforme necessário. Refletores de LED de duas toneladas ficam ligados 12 horas por dia, enquanto ventiladores industriais circulam ar sobre a superfície para inibir fungos. E o monitoramento das condições do gramado segue durante o torneio. Ferguson vai acompanhar cada partida do Centro de Operações da FIFA em Miami, onde dezenas de funcionários monitoram clima, logística e condições dos campos em tempo real, avaliando tração, umidade e firmeza do gramado diariamente em todos os estádios. *Com supervisão de Lia Hama Mais Lidas
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