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Estreia em Cannes filme feito 100% com inteligência artificial

Home | Época Negócios [Unofficial] May 21, 2026
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O primeiro longa-metragem inteiramente gerado por inteligência artificial a chegar ao Festival de Cannes foi produzido em duas semanas. O filme "Hell Grind", de 95 minutos, estreou no festival francês como uma demonstração do que a startup americana Higgsfield AI é capaz de entregar ao mercado cinematográfico. O orçamento total foi de US$ 500 mil (R$ 2,5 milhões), mas 80% desse valor, ou seja, US$ 400 mil, foram consumidos exclusivamente em custos de computação para rodar os modelos de IA. Cada personagem, cenário e objeto do filme foi gerado artificialmente, sem atores, câmeras ou sets físicos, informa reportagem do The Wall Street Journal. Do roteiro ao prompt O processo de produção consistia, essencialmente, em enviar instruções textuais (os chamados "prompts") para modelos de IA e receber trechos de vídeo em troca. Cada prompt gerava cerca de 15 segundos de filmagem. Para os primeiros 25 minutos do longa, foram necessárias 16.181 gerações iniciais de vídeo, que resultaram em apenas 253 takes finais. Os prompts eram altamente detalhados: em média, cada um tinha 3.000 palavras. A equipe precisava especificar estilo visual (como "8k IMAX, fotorrealista"), tipo de iluminação, movimentos de câmera e até instruções para que a IA respeitasse as leis da física, com comandos como "gravidade e inércia respeitadas, sem objetos flutuando". A iluminação foi um dos pontos mais críticos do processo. Segundo Adil Alimzhanov, responsável pelo conteúdo do projeto na Higgsfield, vídeos gerados por IA tendem a iluminar cenas de forma excessiva e artificial. Controlar esse elemento foi fundamental para evitar o que o mercado tem chamado de "slop", a aparência genérica e artificial típica de produções feitas por IA sem cuidado técnico. Técnica cinematográfica ainda é exigida Apesar do uso intensivo de IA, a equipe precisou de conhecimento técnico sólido em linguagem cinematográfica. "Você precisa entender composição de câmera, quais tomadas se alternam. Não dá para colocar dois closes seguidos; é necessário começar com um plano geral", disse Alimzhanov. "Você ainda precisa de habilidades de cinema." O diretor criativo do projeto, Adilet Abish, também da Higgsfield, ressaltou o papel da narrativa no uso da ferramenta: "O objetivo principal como cineasta é contar histórias. Este é o caso em que a IA pode te dar a ferramenta para mostrar ao mundo a sua história." A Higgsfield não desenvolve os próprios modelos de geração de vídeo. A empresa utiliza ferramentas externas, como o Veo 3, do Google. O diferencial da startup está na camada de controle que garante consistência visual entre as cenas, um dos maiores desafios técnicos na produção de longas por IA. Para controlar os custos de computação, a empresa recorreu a provedores alternativos de infraestrutura em nuvem, como Nebius e CoreWeave, em vez de grandes plataformas como AWS ou Google Cloud. Avaliada em US$ 1,3 bilhão em sua última rodada de captação e com receita anualizada superior a US$ 400 milhões em maio, a Higgsfield usou "Hell Grind" como cartão de visitas para estúdios de Hollywood. O lançamento acontece num momento em que o debate sobre IA em Cannes parece estar mudando de tom. Nos últimos anos, o festival foi palco de discussões tensas sobre os riscos da tecnologia para empregos e criatividade. Neste ano, segundo participantes ouvidos pelo jornal americano, o clima geral é de aceitação cautelosa. A atriz Demi Moore, em coletiva de imprensa no festival, defendeu que profissionais da área busquem formas de trabalhar com a tecnologia em vez de resistir a ela. Para a Higgsfield, a mensagem é a de que nenhuma IA faz um filme sozinha. "Você não pode chegar para a IA e dizer: me faça um vídeo legal de 95 minutos", resumiu Alimzhanov.

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