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Mateus Solano: "Filhos são uma grande oportunidade de evolução, muito mais do que qualquer trabalho"

Crescer - O principal portal de notícias para pais, mães e gráv… May 27, 2026
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Mateus Solano já fez personagens que tomaram conta do imaginário coletivo brasileiro, como Félix Khoury, de Amor à Vida, da TV Globo, em 2013. Mas, há dois anos, ele vive um papel que parece ter tocado em algo ainda mais profundo: Augusto, de "O Figurante", monólogo que percorreu centenas de cidades no Brasil e em Portugal e que voltou à capital paulista com mais de 250 apresentações nas costas. A peça começa fazendo uma pergunta simples e desconcertante: você é o protagonista ou o figurante da sua própria vida? E termina sugerindo algo que poucos esperavam: talvez a resposta certa seja ser figurante. E ser isso com consciência, com beleza, com leveza. Mateus Solano conversa com a CRESCER sobre suas vivências no teatro e como elas servem de aprendizado para a educação dos seus dois filhos, Flora e Benjamin, fruto do relacionamento com a atriz Paula Braun Reprodução/redes sociais "O que considero mais poderoso é mostrar a vulnerabilidade", diz ator do novo He-Man Em conversa com a CRESCER, Mateus falou sobre o que essa jornada lhe ensinou, como esses aprendizados chegam à educação de Flora, 15, e Benjamin, 10, seus dois filhos com a atriz Paula Braun, e por que ele acredita que presença é a palavra mais subestimada no vocabulário da parentalidade. O que dois anos de figurante ensinaram sobre protagonismo Quando "O Figurante" estreou, a proposta era direta: recupere o protagonismo da sua vida, saia do automatismo, viva de verdade seus desejos e vontades. Mas, ao longo de quase dois anos de apresentações, o espetáculo foi adquirindo camadas que Mateus não previa. "A peça foi ganhando muita profundidade nesse lugar. Quanto mais a gente tenta ser protagonista hoje em dia, mais figurante a gente se torna", reflete o ator. A crítica que emerge do monólogo é pontual e contemporânea: o protagonismo que a sociedade vende hoje passa pelos likes, pelas redes sociais, pela exposição constante. No entanto, ao entrar nesse jogo, a pessoa se torna parte da manada do algoritmo, do Big Brother moderno, como Mateus descreve citando o escritor britânico George Orwell. "Nessa ânsia por nos tornarmos protagonistas, acabamos nos tornando mais e mais figurantes." A peça, ele conta, termina invertendo a pergunta inicial e propondo uma reconciliação com a impermanência. "Está faltando para a humanidade aceitar a beleza de ser poeira de estrela, de passar aqui tão brevemente, como passa um figurante atrás de uma história que é muito mais importante do que ele." Para Mateus, o grande protagonismo é outro: é descobrir o talento único que cada pessoa carrega, desenvolver quem se é de verdade, sem confundir importância com existência. "Cada um de nós é absolutamente fantástico em alguma coisa. Só que temos uma sociedade que nos empurra mais para sermos figurantes do que para descobrirmos esse protagonismo." E, essa reflexão, ele faz questão de dizer, chegou diretamente à forma como pensa a educação dos filhos. Initial plugin text Em trend, mãe viraliza ao apresentar filha gay com orgulho: “Dizem que o pessoal GLS é animado” Flora, Benjamin e a arte do diálogo Flora e Benjamin cresceram numa casa onde a conversa era regra, não exceção. Mateus e Paula Braun construíram desde cedo uma dinâmica familiar baseada no diálogo real, na escuta genuína e no respeito mútuo — e essa aposta rendeu dois adolescentes que argumentam, se colocam e não batem a porta quando algo não agrada. "A gente sempre conversou muito. Então hoje eu tenho dois adolescentes que conversam, que argumentam, que sabem se colocar. E tenho pais com ouvido, com escuta aberta, que não falam 'é coisa da fase, não vou escutar'", conta. Um dos elementos que Mateus destaca com mais entusiasmo é a disposição de se rever publicamente diante dos filhos. Num encontro recente com Benjamin, ele relembrou como teria reagido de forma muito mais intensa a uma mesma situação tempos atrás, e reconheceu em voz alta que cresceu. "Falei: 'lembra como papai ia ficar muito nervoso? Tá vendo como o papai tá reagindo diferente? O papai fica tentando melhorar também.' A gente tá o tempo todo nesses papéis que não são impositivos nem rígidos." Isso não significa ausência de limite. Mateus é claro: há um pai e uma mãe que estabelecem fronteiras, que existe uma hierarquia e que há coisas que uma criança simplesmente ainda não tem idade para decidir por si só. Mas dentro dessa estrutura, há uma ponte riquíssima de trocas. "Sempre se perguntando muito mais do que afirmando. Muito mais do que muito menos." Quando Flora grita e, no segundo seguinte, ri de si mesma porque percebe que exagerou, Mateus vê o resultado de anos de uma relação onde o erro pode ser nomeado sem drama e sem vergonha. A mãe psicóloga, a natureza e uma infância diferente A educação que Mateus recebeu foi diferente da que oferece hoje, e ele não esconde isso. Criado pela mãe, psicóloga, depois que os pais se separaram, ele construiu com ela uma relação de muito afeto, muita conversa e muita curiosidade sobre o que ele estava vivendo. "Muito diálogo e muita curiosidade sobre o que eu tava passando na escola, o que acontecia. Muito afeto e a importância da cultura." Essa relação com a mãe, diz ele, foi decisiva para que entendesse a cultura não como entretenimento, mas como alicerce. Como o lugar onde o ser humano se faz humano. "A gente é humano porque é criativo. Porque inventa alguma coisa além do que os nossos genes estão programados. Isso que nos faz humanos." A natureza também foi uma presença forte na infância de Mateus, e ele a identifica como um dos elementos que plantaram nele o senso de pertencimento ao mundo real, físico, sensível — bem diferente do que as telas oferecem. Telas, redes sociais e o perigo de crescer sem senso crítico Mateus não é do tipo que demoniza a tecnologia com simplicidade, mas tampouco suaviza o que pensa. Para ele, o celular é uma arma e uma droga entregues sem cerimônia nas mãos das crianças, e os efeitos disso são visíveis na geração que está crescendo hoje. "Meus filhos sempre entenderam, a partir de mim e da mãe, que a internet é um lugar muito perigoso. Não é um lugar de poder. Pelo contrário: é um lugar que tira o seu poder, que vicia, que te deixa longe de você mesmo, dos seus amigos, da vida real." O resultado, segundo ele, é que Flora e Benjamin têm uma visão mais crítica do que a maioria dos jovens da mesma idade. Não porque sejam imunes ao fascínio dos vídeos curtos e do scroll infinito, mas porque aprenderam a questionar o que consomem. "Eles têm uma visão mais crítica do que filhos de pais que simplesmente entregam essa arma na mão de uma criança." Para Mateus, o senso crítico não se desenvolve sozinho: ele nasce da leitura, do diálogo, da exposição à arte e à cultura. "A leitura é fundamental para a gente não ficar refém do que dizem. Para pensar por si mesmo, a partir de referências reais, não de coisas que a gente simplesmente replica da internet." Presença: o que realmente significa estar com um filho No final da conversa, Mateus chega ao ponto que parece reunir tudo o que disse antes. A presença. Não a presença física, não a quantidade de horas, mas a qualidade do que acontece no tempo que pai ou mãe têm com a criança. "Um pai, uma mãe que moram longe, se se fazem presentes, ligam, perguntam, se interessam, isso é estar presente. E pode não ser, mesmo morando na mesma casa." Para ele, um dos maiores erros que os adultos cometem é transformar os filhos em mais um compromisso no dia. "A criança não pode ser mais um compromisso. A criança é a grande oportunidade da gente viver, brincar, ensinar, se rever, se ver através dela. Lembrar de como você era. Ver como se fazia. É sempre uma revisão de como você vem, do que construiu, de como se desenvolveu." Isso, diz Mateus, tem mais valor do que qualquer trabalho que não faça sentido. E quando o trabalho faz sentido, como o teatro faz para ele, a equação muda. "Se você tem um trabalho estimulante, quando você tem tempo com seu filho, você é seu do seu filho. Aquele momento de interesse genuíno pela criança. Uma troca genuína." Não é fácil. Mas é, segundo ele, a definição mais honesta de paternidade que conhece.

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