Mãe que flagrou onça da varanda conta como é criar filhos no Pantanal: "O animal faz parte do cotidiano"
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May 13, 2026
Imagine olhar pela varanda da sua casa e ver uma onça-pintada! A produtora audiovisual e comunicadora Brendha Arruda, de 29 anos, já vivenciou essa experiência. Ela mora em Campo Grande (MS), mas também tem uma casa no Pantanal, onde cria os filhos — Bernardo, de 12 anos, e Benício, de 2 — em meio à natureza. Brendha flagrou onça de varanda de casa Arquivo Pessoal Brendha se lembra com detalhes do dia em que avistou a onça ."Eu estava num jantar da pousada, que fica do outro lado da lagoa, quando um guia nos avisou que uma onça-pintada estava ao redor da nossa casa", relatou. "Peguei a lanterna e saí correndo por diferentes recantos para verificar por onde a bichana se movia. Levei um baita susto ao me deparar com ela a poucos metros de mim e se dirigindo para os fundos da pousada, numa área de serviços, e logo seguiu caminhando nos arredores da baía". A mãe postou o momento em que viu a onça da sua varanda em seu perfil no TikTok (@brendhaarruda) e o vídeo alcançou mais de 2 milhões de visualizações. Avistar animais selvagens pode parecer um momento surpreendente para pessoas que moram em áreas urbanas, mas, para a produtora, isso faz parte do seu dia a dia. "A gente vive no território onde o IDS [Instituto Delta do Salobra — organização socioambiental em prol da conservação do meio ambiente] monitora esses indivíduos; já são mais de 50 onças identificadas. Então o avistamento faz parte da rotina, mas nunca deixa de ser impactante. Filmei com calma porque aprendi que a onça não quer contato. Ela estava no seu trajeto, em busca de jacarés e capivaras, e sem temer os humanos", Brendha contou à CRESCER. A comunicadora ressalta que muitas pessoas têm uma relação de fascínio e temor com as onças, como se fossem ser perseguidas e atacadas. "Para mim, é só uma vizinha diferente. Não é frequente chegar tão perto, mas, mesmo perto, desconhecem o humano como presa, como alimento, embora todo cuidado seja necessário, principalmente com crianças, no sentido de estarem sempre próximas dos adultos. É um sinal de que o território está saudável, que a presença de um topo de cadeia indica que todo ecossistema está provendo seu alimento", explicou. Registros de Brendha Arquivo Pessoal Como surgiu a paixão pelo Pantanal A relação íntima da produtora com o bioma brasileiro surgiu por meio do seu atual marido, Maurício Copetti. O documentarista trabalha e vive no Pantanal desde 1998. A princípio, ele se instalou para ajudar nos trabalhos na pousada Refúgio da Ilha e, em 2020, fundou o Instituto Delta do Salobra. Em meio a essa paisagem, Brendha e Maurício se encontraram e passaram a viajar juntos para expedições e filmagens em diferentes regiões. "O Pantanal foi então o cupido do nosso amor", revelou Brendha. Brendha já trabalhava com a produção de vídeos institucionais para projetos de conservação da natureza e com comunidades tradicionais e originárias do Mato Grosso do Sul. "Mas esse Pantanal selvagem, que já era parte da história dele, acabou também me encantando e, em um piscar de olhos, quando me dei conta, já estava residindo, sem ter feito qualquer plano", revelou. Família de Brendha reunida Arquivo Pessoal Hoje, Brendha trabalha no Instituto Delta do Salobra como comunicadora, onde filma e edita imagens e textos. Para a mãe, viver no conhecido "reino das águas" não é como ter uma casa de campo de férias. "É um lugar de aconchego e trabalho ao mesmo tempo. Nós nos dividimos entre Pantanal e a capital, Campo Grande, porque há compromissos nos dois lugares, a escola e atividades das crianças, mas o Pantanal é onde eu escolho estar sempre que posso", ela destacou. Brendha com o filho Arquivo Pessoal A rotina na selva O dia da família já começa com o nascer do sol, seja para um trabalho de campo ou no computador. Ao meio-dia, o rádio dos guias da pousada pode alertar para a presença de alguma espécie rara. Quando isso acontece, o casal corre para documentar o momento e, às vezes, até consegue levar os pequenos. "O Bernardo tem mais liberdade, ajuda em algumas atividades do ecolodge [meio de hospedagem sustentável], às vezes vai instalar câmeras-armadilhas, ou se relaciona com hóspedes da mesma idade que estejam na pousada e acaba inclusive aprendendo línguas", a mãe relata. Brendha trabalha com o filho caçula do lado e com a vista para o rio. "É uma rotina exigente, dinâmica, sem feriados ou finais de semana, mas sem dúvida com a compensação do desfrute das paisagens e de estar muito mais presente com os filhos", comentou. Benício Arquivo Pessoal Gravidez no Pantanal A produtora também passou por um dos momentos mais especiais de sua vida, rodeada pela vida selvagem. Quando engravidou de Benício, Brendha já estava dividindo sua vida entre o Pantanal e Campo Grande. "Tem algo muito poderoso em estar grávida em contato com esse território, que também está em constante ciclo de vida. Eu sentia a cheia do rio acontecendo ao mesmo tempo que a barriga crescia, [o bebê] se mexia cada vez mais no ventre, parecendo uma sucuri!". Brendha se lembra de viver com as malas feitas. Afinal, tinha que manter a rotina escolar do filho mais velho em Campo Grande e também fazer o acompanhamento do pré-natal. "Senti os mesmos medos que toda gestante sente, só que somados aos meus medos específicos: trabalho, filho mais velho, distância, urgência, o que fazer se algo acontecesse fora de hora. Mas o que ficou foi a sensação de que meu corpo e aquele lugar estavam no mesmo ritmo". Brendha vivenciou a gestação em meio à natureza Arquivo Pessoal A mãe conta que o filho nasceu no período de seca (agosto): "quando o rio está mais baixo e o Pantanal revela tudo que estava debaixo da água. Uma metáfora bonita demais", diz ela. Para Brendha, a natureza é como a força feminina. "Vejo isso o tempo todo, em cenas que ficam. O acará-açu, peixe lindo que cuida dos filhotes em casal, protegendo a prole na barranca de lagos e rios, com uma vigilância que qualquer mãe entende: protege, ensina, acompanha." "Já testemunhei uma onça ensinando seus dois filhotes a caçar e se alimentarem de um cervo do Pantanal na beira do rio. É uma cena bruta e, ao mesmo tempo, profundamente maternal. Ela ensinando o sustento e a sobrevivência, com muito amor", acrescentou. Criação em meio à natureza A infância no Pantanal trouxe muitos aprendizados para os filhos de Brendha. Bernardo já identifica os animais apenas pelos rastros e sabe que o alarde das capivaras indica a presença próxima de uma onça. "Isso não se aprende em nenhuma escola convencional", afirma a produtora. Já seu irmão, mesmo com apenas 2 aninhos, já identifica mais de 20 espécies da fauna. "Ele diz: 'Mamãe, cadê a lanterna? Quero ver a "cabolé'!. Ele espreita os animais com encantamento, não com medo." O aprendizado deles não vem só do Pantanal. Crescem conhecendo o Cerrado, a Chapada dos Veadeiros, Bonito. Cada bioma ensina uma coisa diferente, e isso forma uma criança com noção de Brasil, não só de quintal, a mãe ressalta Para a comunicadora, há uma responsabilidade muito grande em criar os filhos em meio à selva. Afinal, é preciso saber até onde deixar uma criança explorar. "Imagine criar seus filhos num local com onças, sucuris, lagos e rio. Você tem que estar sempre atento, mas, da mesma forma que está atento ao atravessar uma rua, tem que deixar os portões de casa fechados, cuidar as janelas, utilizar o cinto de segurança." Como o marido conhece o território desde 1998, Brendha se sente tranquila ao estar com os filhos no Pantanal. "Ele carrega um conhecimento que não está apenas nos livros, mas na experiência acumulada de observar, respeitar e compreender os ritmos do Pantanal e da natureza como um todo." Bernardo está familiarizado com a vida selvagem Arquivo Pessoal Desde cedo, os pequenos aprendem que não se invade o espaço dos animais, não se toca o que não se conhece, não se pisa sem atenção. "Bernardo já entende esse código quase intuitivamente: sabe se afastar quando precisa, esperar quando preciso, observar antes de agir. Benício, ainda pequeno, vive sob uma vigilância mais próxima, mas já começa a assimilar essa lógica de respeito", a mãe explica. Brendha ainda acrescenta que uma das principais lições é: "ensinar a estar sem interferir, a observar sem alterar, a existir sem deixar impactos negativos. E, no fundo, acho que é isso que toda mãe ensina aos filhos. Só muda o cenário onde a lição acontece." As crianças também estão familiarizadas com os animais e já não sentem medo. "O Bernardo já superou bastante coisa, nada perto de jacaré e ama avistar as onças. Ele tem um respeito saudável, não medo. O Benício está na fase de descoberta: tudo é novidade e fascinante", a mãe relata. Benício está com dois anos e está na fase da descoberta Arquivo Pessoal Para a produtora, o medo surge quando a criança não tem referência. "Quando ela só vê animais na TV ou em desenho animado, muita desinformação circula e histórias fantasiosas são reforçadas por adultos em filmes e mídias. Aqui, o animal faz parte do cotidiano, então a relação é outra". Segundo Brendha, os filhos têm uma relação de equilíbrio com a natureza."O Bernardo cresceu entendendo que ele faz parte desses ecossistemas; não é um visitante, é alguém que pertence. E isso ele aprendeu nos vários lugares onde a gente vive e por onde passa". Aos seis anos, o pequeno já estava fazendo trilha com a mãe na Chapada dos Veadeiros (GO); já plantou 100 árvores. "Plantar é diferente de só visitar: você deixa raiz no lugar". Do encontro com a onça a outro planeta Viver em meio à natureza já proporcionou momentos memoráveis para as crianças. Um deles foi quando Bernardo foi revisar algumas trilhas de quadriciclo com Maurício. "Era quase horário do almoço quando os dois encontraram uma onça-pintada deitada a poucos metros deles. Era a Kim, de 84kg, uma fêmea já habituada que já não se importa com a presença humana. O Maurício queria voltar para casa para que eu também pudesse vê-la, mas o Bernardo vetou: de tão acostumado a ver onças, alegou que se eu fosse ver a Kim, o almoço atrasaria e ele estava com fome." Outra lembrança inesquecível ocorreu no Cerrado. "O Bernardo tinha 6 anos quando fizemos o Vale da Lua, na Chapada dos Veadeiros. Aquela paisagem rochosa, a água trabalhando a pedra há milhões de anos. Ele me olhou com aquela cara de criança que descobriu uma coisa grande e disse que parecia outro planeta. Lembra disso até hoje. Foi a primeira vez que vi nele a sensação de que o mundo é maior do que ele imaginava". Brendha com os filhos Arquivo Pessoal "Existem mais de um jeito certo de viver com a terra" "O que as pessoas deveriam saber sobre criar filhos em meio à vida selvagem?". Ao responder a essa pergunta, Brendha é categórica: " É preciso seguir um certo protocolo de cuidados que são simples, como horários em certos locais e a presença constante de adultos próximos aos pequenos. Mas acho ainda mais tranquilo que na cidade!". A mãe também cita um outro aspecto importante: a relação com a comunidade. "Esse convívio começou por meio do meu trabalho documentando comunidades e projetos de proteção à natureza, e os meninos foram junto, naturalmente. Hoje têm contato com famílias Terena, com a Comunidade Salobra, com gente que cuida desses territórios há séculos. Isso ensina uma coisa que nenhum livro ensina: que a natureza não é só fauna e flora, é também gente. E que existem mais de um jeito certo de viver com a terra". Por fim, a produtora reforça: não precisa morar no Pantanal para oferecer isso aos filhos. "Uma janela com passarinhos, observar o céu para descobrir o nome das nuvens por meio de suas formas, uma praça, um bosque, parques… Manoel de Barros dizia: "Meu quintal é maior que o mundo". Que seu olhar, a pausa para observar, o contato e o respeito te inspirem a viver uma vida conectada com a natureza também", finaliza. Abaixo, confira o vídeo que viralizou Initial plugin text
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