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Mãe do jogador Lucas Paquetá conta como criou, protegeu e gerenciou a carreira dos filhos dentro do futebol

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Era domingo, a família passeava na Praia da Moreninha, no Rio de Janeiro, quando um amigo parou e fez uma pergunta que mudou tudo: "Vocês já viram o filho de vocês jogar?" Cris Tollentino, mãe de Matheus e Lucas Paquetá, diz que, naquela época, nem parava para observar. Trabalhava, cuidava da casa, vivia corrida como a maioria das mães. No entanto, aquelas palavras ficaram em sua cabeça. Cris Tollentino é mãe do jogador Lucas Paquetá, jogador do Flamengo e da Seleção Brasileira de Futebol Reprodução/redes sociais Jordana Araújo, da GE TV, fala sobre rotina de beleza nos estádios e revela truques para o dia a dia "Eu sempre fui uma pessoa que presta muita atenção nas dicas, nas orientações. Aquilo ficou no meu subconsciente. E eu falei: se estão dizendo que meus filhos têm talento, vale a pena começar a olhar diferente para eles." Começou a olhar. E nunca mais parou. O recorte de jornal que começou tudo Sem pretensão nenhuma, Cris folheava um jornal quando viu o anúncio: peneira no Ninho do Urubu. Recortou. Ligou para o Flamengo. Perguntou como levar dois filhos para um teste. Marcou tudo. E levou. "No começo, foi simplesmente o futebol como esporte, para eles poderem fazer algo que gostassem. Eu não tinha nenhuma visão de futuro ainda. Só fui lá e fiz acontecer." Esse "faz acontecer" é uma marca da empresária. Ela mesma admite: sempre foi assim. Aquela pessoa que resolve, que não espera, que age. E foi exatamente essa característica que acabou colocando uma mulher no centro de um mundo historicamente dominado por homens. Initial plugin text Pais são proibidos de assistir aos jogos dos filhos, em decisão da Federação Paulista de Futebol Mãe na vida, empresária na mesa Conforme os filhos cresciam dentro do Flamengo, Cristiane foi entendendo que acompanhar uma carreira de atleta exigia muito mais do que amor. Exigia estratégia. "Gestão de carreira não é fácil para um pai ou uma mãe. A gente pensa muito com o coração e isso atrapalha. Por isso, muitas crianças ficam pelo caminho. O pilar principal na carreira de um filho é a estrutura familiar." Foi ela quem montou essa estrutura: irmãos, sogros, avós, toda uma rede de apoio funcionando para que o futebol acontecesse de forma leve na vida dos filhos. Mas, havia um desafio muito específico para ela: saber separar o papel de mãe do papel de empresária na hora certa. "Quando eu me sentava na mesa de um clube, a mãe do Paquetá não estava ali. Quem estava ali era a empresária, a gestora, era eu, Cristiane. Eu tirava rapidamente esse rótulo de mãe. Meu filho é um negócio e eu vou tratá-lo como um negócio. Em casa, eu o trato como filho." O coração apertado das viagens Lucas entrou no Flamengo com 8 anos e logo começou a jogar uma categoria acima, viajando com meninos de 12 e 13 anos. Cris não podia ir em todas as viagens e, como ela relembra, esse foi o momento mais difícil. "Eu tinha que criar um relacionamento muito aberto com ele. Sentava, explicava tudo que podia acontecer fora dos meus olhos. Falava: você é um menino de talento, tudo tem que vir do seu esforço. Nada pode ser de graça." Ela foi direta, como poucas mães conseguem ser. Falou sobre abuso, sobre treinadores que se aproximam de forma errada, sobre amigos mais velhos que podem tentar intimidar. "Eu falava: se um treinador te chamar no quarto depois do horário, tentar colocar a mão em você ou oferecer algo em troca de uma posição no time, você tem que sempre confiar na mamãe. Sempre falar comigo." E o coração? "Ficava apertado. Mesmo conversando com ele, eu não tinha garantia de que ele teria esse entendimento, de como ele iria agir numa situação. Mas você precisa ter essa conversa, sim. Eles precisam amadurecer um pouquinho mais cedo." Initial plugin text Fausto Carvalho, o 'Menzinho', conta como transformou abuso sexual no esporte em humor e gratidão aos pais O "não" que o Lucas não queria ouvir Nem só de conquistas é feita essa história. Houve momentos em que o próprio Lucas queria desistir. "Sabe quantas vezes ele chegava para mim e falava: 'mãe, eu não consigo, eu não quero mais?' E eu falava: não, meu filho. Você acha que eu nadei para morrer na beira da praia? Nós vamos até o final. Você só vai sair do Flamengo jogador profissional." Cristiane também conta que errou com Matheus, o filho mais velho, antes de aprender. Foi com ele que entendeu o que fazer e o que evitar. E foi dessa aprendizagem que nasceu o desejo de compartilhar o que sabe. "Ninguém divide os erros e os acertos. Então, fazer o que eu estou fazendo, trazendo essa consciência, é o que eu sinto que precisa ser feito." Cris com o filho mais velho, Matheus Arquivo Pessoal Menino supera asma grave, é convocado para jogar em Barcelona e família vende geladinhos para custear viagem Sempre por perto O futebol é um meio cheio de renúncias e quando Cris viu Lucas na sua fase de adolescente, quase adulto, precisou trazer para perto as festas, a diversão e o que pudesse deslumbrá-lo fora dos campos. “No sábado, ele tinha jogo e, na sexta-feira, todo mundo tinha festinha para ir, é normal isso, inclusive algumas mães deixavam os filhos irem e estavam no dia seguinte no jogo normalmente. Mas, eu fazia o contrário. Reunia os primos em casa mesmo, fazíamos churrasco, se divertiam, mas, dava 22h, eu já falava pra ele ir descansar, e sempre respeitou”. Cris sempre fazia com que o ambiente favorecesse o filho, o mantendo por perto sempre, facilitando o dia a dia da carreira de Lucas. Mulher numa mesa de homens Quando Cristiane chegou para negociar com os clubes, o estranhamento era visível. "Eu cheguei no Botafogo e sinto que eles esperavam um homem de dois metros de altura. Entrou a Cris. Eu até brinquei: desculpa por não ser homem. E, no início, rola aquela coisa, 'mas é uma mulher'." O que calou qualquer dúvida foi o conhecimento. Ela estudou, buscou informação, aprendeu inglês para se comunicar quando Lucas foi para a Europa, começou a estudar italiano quando ele foi para o Milan. "Se eu não tivesse autonomia para falar algo com propriedade, eu perderia o respeito. Porém, quando uma mulher fala de algo consolidado, de algo que ela estudou e viveu, as pessoas respeitam." Hoje, Cristiane é agente registrada pela FIFA no Rio de Janeiro e tem sua própria empresa, a Paquetá Sport. Caminha em parceria com Eduardo Uran, da Brasil Soccer, a quem credita parte importante da trajetória. “Eu nunca deixaria de falar do Eduardo Uran. Nós chegamos aonde chegamos porque tivemos o suporte de uma pessoa idônea e sensacional. Isso também importa muito, porque tem muito empresário que se aproxima e, em vez de trazer oportunidades, traz tudo de ruim.” O recado para outros pais A empresária começou a produzir conteúdo nas redes sociais para dividir o que aprendeu ao longo de todos esses anos. A motivação veio de uma dor que ela observou de perto: jogadores que chegaram longe e viraram as costas para a família que os apoiou. E famílias que se tornaram financeiramente dependentes dos filhos depois de anos de dedicação. "Trabalhei 15 anos da minha vida. Não pode ser em vão. Não pode ser para eu ficar dependente do meu filho, dele me dar uma pensão." O recado que ela mais repete é simples e poderoso: quanto mais conhecimento os pais tiverem, mais assertividade vão ter na carreira dos filhos. E mais protegidos eles estarão, dentro e fora de campo. "O futebol deixa de ser alegria e vira pressão quando a família não sabe lidar. A gente precisa criar estratégia para que o filho se sinta acolhido e incluído, nunca excluído. Esse é o maior desafio. E a maior recompensa."

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