Adolescentes que agridem animais: Por que isso acontece e o que os pais podem fazer com esse comportamento
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April 18, 2026
Maus-tratos a animais já são impactantes, mas quando pré-adolescentes e adolescentes estão envolvidos, o impacto é outro. E a pergunta que muitos pais não conseguem tirar da cabeça é: e se fosse o meu filho? Especialistas explicam o que fazer para prevenir que pré-adolescentes e adolescentes tenham atitudes violentas contra animais Freepik Luisa Mell conta o que mudou em casa depois de ver crueldade contra animais virar ‘conteúdo’: “Meu filho não tem celular” A sensação de que esses casos estão se multiplicando não é paranoia. O que antes chegava como denúncia local, hoje, circula em grupos e redes sociais em segundos, e o que mais preocupa especialistas não é só a frequência, mas o que esses episódios revelam: sobre desenvolvimento, vínculos, e o que acontece quando um adolescente cresce sem limite, sem modelo e sem consequência. É aumento real ou só mais visibilidade? Para quem está na linha de frente da proteção animal, a resposta é direta. "Os dois, na minha visão. A gente recebe cada vez mais denúncias envolvendo adolescentes e não é só impressão. O padrão mudou. Antes chegavam relatos isolados. Hoje, chegam vídeos, prints de grupos, nomes de escolas. A internet tirou a violência do anonimato e isso, por um lado, facilita a denúncia. Por outro, mostra que esses casos sempre existiram, só que agora a gente vê", afirma a ativista e protetora animal Luisa Mell. O que explica a sensação dos adolescentes de que “podem tudo"? Não existe uma causa única. O que a psicologia e a neurociência mostram é um conjunto de fatores que, juntos, criam um terreno perigoso para esse tipo de comportamento. Impulsividade e busca por status O cérebro adolescente ainda está em construção, especialmente nas áreas ligadas ao controle de impulsos e à avaliação de risco. Some isso a uma necessidade intensa de pertencimento, e a equação fica preocupante quando o grupo começa a reforçar a crueldade. "Estamos falando de um cérebro ainda em desenvolvimento, principalmente nas áreas ligadas ao controle de impulsos e avaliação de risco. Ao mesmo tempo, existe uma busca muito intensa por pertencimento e validação social. Quando isso se combina com ausência de limites claros e modelos adultos frágeis, o adolescente tende a testar até onde consegue ir. É um conjunto de fatores: impulsividade, necessidade de aceitação e pouca noção de consequência", explica o psicólogo Miguel Bunge. Se o grupo ri e compartilha, a violência vira moeda social, e o adolescente, aprovação. "A empatia se constrói a partir de vínculos, experiências de cuidado e da observação de modelos adultos. O que pode 'desligar' essa empatia inclui exposição constante à violência, dinâmicas de grupo que reforçam a crueldade e processos de desumanização", diz Bunge. Menino de 9 anos deixa cachorro em abrigo para salvá-lo de maus-tratos: "Não quero que meu pai bata nele" Falta de consequência ou percepção de impunidade Na cabeça do adolescente, a consequência parece distante, abstrata, improvável. E quando nenhum adulto intervém, essa percepção se confirma. A advogada Barbara Heliodora esclarece: "O adolescente não comete 'crime' no sentido técnico, mas, sim, um ato infracional. Ele pode ser submetido a medidas socioeducativas, que vão desde uma advertência até medidas mais restritivas, dependendo da gravidade." E os pais também podem responder. "Os pais respondem civilmente pelos danos causados pelos filhos menores que estejam sob sua autoridade e companhia. O simples 'não sabia' não afasta automaticamente a responsabilidade, se os pais deveriam saber e poderiam evitar, o desconhecimento pode ser interpretado como negligência", afirma Heliodora. É sempre sinal de transtorno? Nem todo adolescente que participa de um episódio de crueldade vai se tornar um agressor em série. Contexto importa. Pressão de grupo importa. Imaturidade importa. Mas ignorar o comportamento não é opção. "A crueldade pontual geralmente acontece em situações específicas, ligadas à pressão do grupo ou à imaturidade, e costuma vir acompanhada de algum arrependimento. Já um padrão preocupante envolve repetição, ausência de culpa, prazer no sofrimento do outro ou indiferença consistente. Quando há recorrência, é um sinal de alerta importante", diferencia Bunge. A ciência também aponta: "Há uma correlação relevante entre violência contra animais e outras formas de violência interpessoal. Não significa que todo adolescente que agride um animal vá se tornar violento com pessoas, mas é um indicativo de risco", completa o psicólogo. O que funciona para interromper esse ciclo? O psicólogo cita que a punição isolada tem pouco efeito a longo prazo e que a responsabilização e a intervenção precisam andar juntas. Medidas socioeducativas bem estruturadas, acompanhamento terapêutico e práticas de justiça restaurativa são mais eficazes porque promovem consciência, reparação e desenvolvimento emocional", explica Bunge. Para pais que descobrem que o filho esteve envolvido, ele é direto: "O primeiro passo é não ignorar nem minimizar. Abordar com clareza, sem passar pano, mas também sem agir só de forma punitiva. Entender o contexto, conversar sobre consequências e buscar ajuda profissional. É um momento de intervenção e orientação, não só de correção." Menino abandona cachorro e escreve carta para salvá-lo de maus-tratos: "Cuidem muito bem dele" Sinais de alerta para pais e escola Fique atento se o adolescente apresentar: Crueldade repetida com animais ou pessoas, mesmo em situações diferentes Prazer em filmar ou mostrar o sofrimento do outro Ausência de remorso após o ato, indiferença ou até satisfação Escalada de comportamento: o que era verbal passa a ser físico; o que era com animais passa a envolver pessoas Histórico de agressividade ou bullying na escola ou em grupos Consumo frequente de conteúdo violento e naturalização do que vê Se mais de um desses sinais aparecer ao mesmo tempo ou com frequência, é hora de buscar avaliação profissional. O que fazer se você presenciar ou souber de um caso Não confronte sozinho se houver risco à sua integridade Registre com responsabilidade: guarde provas sem compartilhar o vídeo (isso pode configurar disseminação de conteúdo violento) Denuncie ao Conselho Tutelar, Delegacia de Proteção Animal ou pelo 190 Acione uma ONG local de proteção animal, elas orientam e articulam com as autoridades Busque socorro ao animal com urgência: leve a um veterinário ou contate o CRMV da sua cidade Luisa Mell reforça o que mais trava a apuração na prática: "As pessoas não fazem a denúncia, não juntam provas. É preciso fazer realmente um Boletim de Ocorrência para que seja efetivo, muitas vezes a pessoa não quer se envolver, nem ser testemunha. É importante que façam denúncias e B.O., por mais que lidemos com muita impunidade, temos que seguir com a denúncia." E depois da denúncia? O sistema ainda é muito insuficiente. "O sistema falha em tudo. O acolhimento do animal é uma coisa muito grave, em alguns casos a polícia nem vai porque não tem como ficar com o animal, não tem pra onde mandá-lo, e até acabam me ligando. O governo é incapaz de resolver essa questão. Eu mesma acabo fazendo o acolhimento", relata Luisa. Não é só sobre o adolescente Violência não nasce do nada. Ela cresce onde falta limite, falta modelo, falta adulto presente. Os vídeos que chocam as redes são sintomas: de uma geração exposta demais e supervisionada de menos, de grupos que normalizam o que deveria causar horror, de uma cultura digital que ainda não sabe o que fazer com o conteúdo que produz. Ninguém "pode tudo" quando o adulto assume o seu papel. Quando a escola percebe. Quando os pais perguntam. Quando a lei é aplicada. Quando o adolescente encontra consequência, mas também encontra escuta. "Quando há repetição de comportamentos agressivos, ausência de remorso, envolvimento em situações de crueldade, prazer em causar sofrimento ou escalada de risco, é hora de buscar ajuda. Também diante de isolamento extremo ou mudanças bruscas de comportamento", alerta Bunge. Para a advogada, a responsabilidade é coletiva e legal: "Pode haver responsabilização criminal dos pais quando há participação ou falha relevante, como omissão, negligência grave, incentivo ou conivência. Se os pais sabiam da conduta e nada fizeram para impedir, eles podem responder criminalmente." A mensagem é clara: proteger os animais começa por não abandonar os adolescentes à própria sorte. Onde denunciar maus-tratos a animais: Disque-Denúncia: 181 (disponível em vários estados) Delegacia de Proteção Animal (capitais e grandes cidades) Conselho Tutelar (quando o agressor é menor de idade) ONGs locais de proteção animal (orientam e acompanham cada caso)
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