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Por que adolescentes mentem? Entenda o que pode estar por trás desse comportamento

Crescer - O principal portal de notícias para pais, mães e gráv… February 17, 2026
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Sabe aquela história estranha, aquela desculpa que parece “perfeita demais”, uma versão que muda toda hora, uma conta que não fecha? Boa parte dos pais e mães de adolescentes reconhecem quando o filho está tentando mentir ou enrolar. É um comportamento humano, que pode aparecer com mais frequência nesta fase, quando eles tentam entender quem são e testar os limites. Dependendo da situação, até passa. Porém, quando é algo que pode prejudicar ou colocar em risco o próprio adolescente ou outras pessoas ou mesmo quando as mentirinhas, por mais bobas que sejam, passam a ser frequentes, isso vira uma fonte de tensão. Com toda a razão, os pais se preocupam e procuram entender por que os filhos estão fazendo isso? É preciso entender o que está por trás das mentiras dos adolescentes Freepik Taboola Recommendation Para o médico hebiatra Maurício de Souza Lima, que atende exclusivamente adolescentes há três décadas, o primeiro passo é entender que nem toda mentira tem o mesmo peso — e nem sempre indica algo grave. “Existem mentiras inofensivas e existem aquelas pessoas que mentem de uma maneira muito usual. Nesse caso, pode ser um transtorno, conhecido como mitomania”, explica o especialista. No dia a dia, porém, o mais comum é que o adolescente minta para esconder algo dos responsáveis, algo que pode estar ligado ao próprio desenvolvimento. “Esse período da adolescência é marcado pela construção da identidade e pelo desejo de autonomia e pela necessidade também de experimentar limites, coisas novas”, afirma o médico. Mentir pode ser “normal” na adolescência? Segundo o especialista, sim, desde que seja algo pontual e dentro de um contexto específico. “Muitos adolescentes mentem para evitar conflitos, proteger a privacidade ou para testar até onde eles podem ir”, aponta. O problema maior é a consequência: quando o adolescente é “pego na mentira”, ou seja, quando os pais descobrem, isso pode abalar a base da relação familiar, que é a confiança, algo que leva tempo e muito esforço, de todas as partes, para ser reconstruído. Quando a mentira vira um sinal de alerta? Para Maurício, a bandeira vermelha aparece quando o comportamento se torna repetitivo e passa a trazer prejuízos reais. “Se a mentira se torna muito frequente e elaborada, deixa de ser um comportamento esperado para essa fase e pode sinalizar algum tipo de patologia e até algum tipo de sofrimento maior”, destaca. Ele explica que mentiras pontuais costumam estar ligadas a situações bem delimitadas: evitar punição, esconder algo constrangedor, ou tentar ganhar mais liberdade. Já quando o jovem mente mesmo sem risco real e cria versões inconsistentes, por exemplo, vale olhar com mais cuidado. “Às vezes, a mentira pode começar a causar prejuízos claros nas relações familiares, nas relações com os amigos e nas relações sociais”, diz ele. Nesses casos, é importante aprofundar a conversa ou buscar ajuda. Por que adolescentes mentem para os pais? Na prática, os motivos mais comuns têm menos a ver com “maldade” e mais com medo, vergonha e insegurança. “Pode ser um comportamento ligado ao medo de uma punição ou medo de decepcionar”, afirma o hebiatra. Ele também cita o desejo de autonomia e privacidade, além da dificuldade que muitos adolescentes têm de nomear sentimentos. “A vergonha ou a insegurança podem fazer parte desse processo. É preciso pensar que a mentira não é um ataque direto aos pais, mas uma tentativa de lidar com emoções mais complexas”, explica. Outro fator importante é a pressão do grupo. “Às vezes, o adolescente mente pela necessidade de pertencer a um grupo”, destaca. Também é uma situação frequente nessa fase da vida, em que a relação com os amigos ganha um peso extra. O que os pais podem fazer? A forma como os adultos reagem pode, sem querer, alimentar o ciclo da mentira – ainda que eles acreditem estar corrigindo o problem. “Reações muito exacerbadas, punições desproporcionais, vigilância excessiva e interrogatórios constantes costumam aumentar o uso da mentira, porque o adolescente vê a verdade como algo perigoso”, ressalta. Isso significa que esse tipo de resposta passa para o jovem a mensagem de que dizer a verdade resulta em bronca, castigo pesado ou humilhação. Então, ele aprende que mentir é mais seguro e faz isso para se proteger e evitar conflitos. O que fazer, então? Não é simples, mas é preciso fortalecer uma relação de confiança, com diálogo e equilíbrio, mesmo em situações que parecem desafiadoras para os adultos. “O que mais ajuda é um ambiente que a verdade possa ser dita e não necessariamente como sinônimo de punição”, orienta. É claro que você não precisa passar a mão na cabeça do seu filho, mesmo quando ele faz algo errado, ou abrir mão de limites. O ideal é construir um espaço onde conversar não seja sempre uma ameaça. “Os adultos devem buscar o porquê dessa mentira. É preciso conversar, ouvir, e explicar que a construção de uma relação saudável não pode envolver a mentira”, orienta. Até porque mentir pode ser uma forma indireta de o adolescente pedir ajuda, algo que os pais nem sempre percebem. Em vez de querer resolver com bronca ou castigo, é preciso tentar entender o que está por trás daquela mentira. “Pode existir sentimento de medo, de ansiedade, de vergonha, de culpa… Ou até mesmo uma tristeza maior”, explica Maurício. Nem sempre, os filhos querem enganar os pais na maldade. Às vezes, eles só não sabem como falar a verdade sem se sentirem expostos. “Alguns adolescentes ainda não sabem como dizer a verdade sem que eles sejam expostos, julgados, rejeitados”, diz. O que fazer quando o adolescente mente muito? Para Maurício, a chave não é transformar a relação em um jogo de “pegar no flagra”, já que o efeito disso é apenas desgastar todo mundo, sem resolver o problema. “O foco é buscar entender o que essas mentiras estão tentando esconder, proteger”, orienta. Ele recomenda manter o diálogo aberto, sem humilhações, e estabelecer limites claros e proporcionais. “É preciso mostrar que a verdade nem sempre é agradável de dizer, mas que ela é sempre valorizada”, diz. Na hora de aplicar consequências, o hebiatra sugere que elas sejam curtas e diretamente ligadas ao fato. “Quando houver uma punição, ela precisa ser curta, pontual e deve ter a ver diretamente com aquele fato que originou a mentira”, explica. Por exemplo, se o adolescente mentiu sobre onde estava, dizendo que estava na casa de um amigo, mas foi a outro lugar: combine que nas próximas semanas, você sempre vai confirmar com um adulto responsável ou com a família dos amigos antes. O objetivo não é exagerar na vigilância, mas reconstruir a confiança. “É um processo gradual. Ninguém restabelece a confiança no dia seguinte”, lembra ele. “Mais do que perguntar ‘por que o meu filho mente’, talvez seja útil se perguntar: será que ele está seguro para dizer a verdade? Quando ele disser a verdade, qual vai ser a minha postura?”, sugere. Esqueça também aquelas frases clichês e ameaçadoras, como: “Toda vez que você mentir, eu vou descobrir”. Até porque isso, por si só, é provavelmente uma mentira. “Pode ser que, algumas vezes, o adolescente seja bem-sucedido na mentira. É melhor dizer: ‘Se você mentir de novo e se eu descobrir que você está me enrolando, a nossa confiança vai ficar prejudicada e você vai ter que lutar para restabelecê-la’”, orienta. Parece uma troca pequena, mas escolher as palavras certas e verdadeiras faz toda a diferença. “Dependendo do tipo de mentira, vale observar sinais de sofrimento emocional e, quando necessário, buscar a ajuda de um profissional. Lembre-se de que a confiança não nasce da vigilância, mas da sensação da segurança que o vínculo traz”, completa.

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