Menina com vitiligo surpreende mãe com pergunta: "Por que você quer tirar as minhas manchinhas?"
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April 14, 2026
"Eu amo as minhas manchinhas" — quando ouviu isso da filha, a fisioterapeuta Ana Cristina Mario de Castro, de 44 anos, ficou emocionada. Manchas começaram a aparecer quando Letícia tinha entre 3 e 4 anos Arquivo Pessoal Afinal, ela tinha passado os últimos anos em uma busca incansável por tratamento desde que a pequena Letícia foi diagnosticada com vitiligo — doença autoimune que é desencadeada pelo desaparecimento de células chamadas melanócitos. Os melanócitos são responsáveis por produzir melanina, substância que dá cor à pele. Ana mora com as filhas Letícia, de 9 anos, e Clara, de 15 anos em Belo Horizonte (MG). Os primeiros sinais do vitiligo surgiram quando sua filha caçula tinha entre 3 e 4 anos. "Comecei a notar, em volta dos olhinhos dela, uma pele mais clara, mais translúcida", descreveu a mãe em entrevista à CRESCER. Na época, a fisioterapeuta se incomodou com as manchas, mas, por outro lado, ela tinha receio de descobrir o real motivo. Ela chegou a perguntar para os médicos, mas foi informada de que poderia ser apenas lesões monocromáticas. Vitiligo na infância: "25% dos casos iniciam antes dos 10 anos de idade", diz especialista Cachorro com vitiligo ajuda crianças com a mesma doença que ele Do luto ao diagnóstico Além das manchinhas nos olhos da filha, a fisioterapeuta tinha ainda que lidar com outros problemas. Era a época da pandemia, momento em que as famílias precisaram se isolar e as escolas fecharam. Sua mãe, que era sua rede de apoio, não pôde mais ficar com as crianças. "Ela estava no primeiro mês da escola, parou tudo! Foi uma bola de neve e minha sogra teve um problema cardíaco", Ana lembrou. "Ela chegou a ser internada, mas não podíamos visitá-la, foi muito ruim para as minhas filhas. Poucos meses depois, minha sogra faleceu". Letícia tem manchas ao redor dos olhos e na perna Arquivo Pessoal Com o tempo, as manchas da pequena Letícia foram aumentando e já estavam aparecendo no outro olho. Vale lembrar que o estresse pode ser um gatilho para agravar o quadro de vitiligo. Em meio ao luto pela sogra e aos problemas de saúde da mãe, Ana não conseguiu investigar o caso da filha com mais atenção. Mas havia também um medo de saber a verdade O assunto das manchinhas voltou à tona quando a saúde da mãe da fisioterapeuta começou a melhorar e com o avanço da doença. "Começaram a surgir nas perninhas, no joelho, no peito e no pé", disse a mãe. Preocupada, ela levou Ana ao pediatra que, a princípio, disse que eram apenas áreas sem pigmentação. "'Falei: tem chance de ser vitiligo?' Como não tinha caso na família, ela disse que não. Era tudo que eu precisava ouvir". O diagnóstico só veio em 2023 com uma consulta com o dermatologista. "Ela examinou com a lupa e viu que a Letícia tinha zero melanina", a mãe revelou. Ao saber que a filha tinha vitiligo, Ana ficou muito impactada. "Meu mundo desabou, porque eu sabia o que era vitiligo. Como sou da área da saúde, já estudei sobre isso. Sei que os principais problemas não são tanto de saúde, mas, sim, estéticos. Pensei que isso afetaria muito o psicológico dela. Poderia machucar e atrairia muito bullying" Letícia passou por vários exames para avaliar se o vitiligo estava associado à outra doença autoimune. Felizmente, a pequena não tinha mais nenhuma outra condição. Os desafios do tratamento Letícia passou a tomar a medicação e iniciar o tratamento com fototerapia. No entanto, essa jornada foi bem difícil e dolorosa. "Minha filha ficou toda inchada. As manchinhas começaram a pigmentar pouco e a do pé aumentou. Ela também ficou mais estressada e angustiada com o tratamento. O estresse era compreensível. De repente, a pequena estava fazendo sessões de fototerapia, indo ao neurologista e psicólogo. Não foi fácil também para Ana mergulhar nesse universo. "Foi um processo esquisito e doloroso para mim. Eu chorava todas as vezes". Um dia, Letícia questionou a mãe sobre a sua condição. A fisioterapeuta tentou explicar à filha da forma mais didática possível, mas foi surpreendida com uma pergunta da pequena: "Por que você quer tirar as minhas manchinhas? Elas são feias?". A garotinha ainda continuou: "Eu não me importo, não gosto da fototerapia e não queria tomar remédio". Para Ana, o principal problema era a filha ser julgada na rua, mas o próprio tratamento já estava a impactando psicologicamente. "Ela começou a ter tique nervoso. Quando falava da fototerapia, ela começava a tremer", a mãe lembrou. "Ela me pediu para não fazer mais fototerapia e disse: 'Eu amo minhas manchinhas, elas não me incomodam'". A partir dessa conversa, Ana entendeu que ela própria estava tendo dificuldade para aceitar o diagnóstico da filha. "Eu não precisava correr atrás de tratamento, psicólogo, neuro... Ela me mostrou que consegue viver com aquelas manchas, que são só dela. Ela não esconde hora nenhuma. Pelo contrário, ela faz questão de mostrar". Em um momento emocionante, Letícia ouviu uma conversa da mãe com a tia comentando sobre um tratamento para tampar suas manchas. Imediatamente, a pequena retrucou: "Eu amo minhas manchas, não vou tampar". Na ocasião, a fisioterapeuta ficou sem reação: "Eu vou falar o quê? Absolutamente nada. Eu simplesmente a abracei e falei: 'também amo as suas manchas'. Hoje, a pequena não faz mais tratamentos específicos para o vitiligo, mas começou a realizar outras atividades para ajudá-la psicologicamente, como desenho e aulas de circo. "Deixei a minha filha viver. Parei de tumultuar a cabeça dela com vários tratamentos", ressaltou. O que é vitiligo? Segundo a dermatologista Luciana Passoni, o vitiligo é uma doença autoimune, que ocorre após o desaparecimento de células chamadas melanócitos, que produzem a melanina — substância que dá 'cor' à nossa pele. “A doença é caracterizada pelo desenvolvimento de manchas branco-nacaradas, com tendência a aumentar de tamanho e pode acometer qualquer fototipo de pele, destacando-se na pele parda ou negra. As áreas afetadas não apresentam incômodo ou dores”, diz a especialista. Quais são os sinais na infância? As lesões podem aparecer em todas as idades, mas, geralmente, surgem mais em pessoas entre 10 e 30 anos e podem estar ligadas à hereditariedade — 30% dos pacientes têm familiares com a mesma condição. "É comum o aparecimento das manchas na infância, até mesmo nos primeiros meses de vida. Estima-se que 50% dos casos iniciam-se antes dos 20 anos e 25% antes dos 10 anos de idade", explica Passoni. A especialista recomenda que os pais fiquem de olho no couro cabeludo, nos cílios e sobrancelhas, pois esses lugares também podem indicar início do vitiligo. “Para alguns, o vitiligo pode ser apenas uma pequena alteração estética. Para outros, uma ameaça ou um desafio. No entanto, para quase todos, ele cria um ponto de reflexão em suas vidas. Quando o vitiligo aparece, as pessoas são confrontadas com medos e dúvidas e subitamente levadas a tomar decisões a respeito do tratamento e de como lidar com a doença. Somente um profissional está apto para diagnosticar e realizar o tratamento individualizado da doença”, afirma. Quais são as causas? As causas não estão determinadas de forma explícita, porém, podem estar relacionadas às manifestações autoimunes e fatores como mudanças ou traumas emocionais. "Em crianças expostas a situações de estresse, a doença poderá se agravar. Por isso, mantê-las em um ambiente equilibrado e saudável é muito importante. Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Dermatológica (SBCD), se a criança ou adolescente tiver predisposição genética a desenvolver o vitiligo, ele pode se manifestar após uma situação de grande tensão", diz a dermatologista. Existe tratamento? De acordo com a especialista, não há maneiras de evitar o vitiligo, mas ela sugere ao paciente o controle emocional, acompanhamento psicológico e tratamentos como laser e microagulhamentos que visam estacionar a evolução da doença e repigmentar algumas regiões afetadas. “A fototerapia com radiação ultravioleta B de banda estreita (UVB-nb), por exemplo, é indicada para quase todas as formas de vitiligo, com resultados excelentes, principalmente para lesões da face e tronco. Pode ser usada também a fototerapia com ultravioleta A (PUVA). Também se pode empregar tecnologias como o laser, bem como técnicas cirúrgicas ou de transplante de melanócitos”, explica. No entanto, vale ressaltar que a pele das crianças é mais sensível que a dos adultos. Por isso, no caso delas, o tratamento deve ser feito com cautela. "Procure sempre um médico dermatologista para um tratamento adequado para a doença e a faixa etária. Medicações tópicas, tais como pomadas e loções para tentar conter o avanço das manchas e pigmentar a região afetada são as mais indicadas para crianças, pois são menos invasivas que os demais tratamentos (fototerapia, cirurgia e despigmentação total da pele)", orienta. Para os pequenos com vitiligo, recomenda-se ainda evitar o uso de roupas apertadas ou que provoquem atrito ou pressão sobre a pele, o que contribui para reduzir o aparecimento de novas manchas, bem como o crescimento das existentes.
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