Descoberta de nova espécie do mamífero mais traficado do mundo desfaz erro de 190 anos
Galileu [Unofficial]
July 1, 2026
À primeira vista, ele parece uma mistura entre um tamanduá, um tatu e uma pinha. Coberto por escamas rígidas, com garras longas e uma causa robusta, o pangolim é o único mamífero do mundo que apresenta esse tipo de proteção natural. No entanto, é justamente essa característica que o transformou no mamífero mais traficado do planeta. Agora, um novo estudo, publicado nesta quarta-feira (1º) na revista Communications Biology, revelou que uma população de pangolins que vive nas florestas do Nepal e do norte da Índia pertence, na verdade, a uma espécie diferente. Nomeada como Manis aurita, ela permaneceu “escondida” por quase dois séculos devido a uma confusão na classificação científica. A descoberta não só muda a compreensão sobre a evolução desses animais, como também pode se tornar uma ferramenta importante para prevenir a caça ilegal. Segundo os pesquisadores, reconhecer corretamente as espécies é essencial para desenvolver estratégias eficientes de conservação. "Não podemos proteger o que não conhecemos", afirma Anderson Feijó, mastozoólogo do Museu Field de História Natural, nos Estados Unidos, e coautor do estudo, em comunicado. “Agora que confirmamos a existência dessa outra espécie de pangolim, podemos usar essa informação para ajudar a proteger esses animais ameaçados de extinção.” A pesquisa é resultado de mais de cinco anos de trabalho iniciado no Nepal. O autor principal do estudo, Narayan Koju, da Universidade de Pokhara, explica que as evidências coletadas ao longo desse período já indicavam que os pangolins da região do Himalaia pertenciam a uma linhagem evolutiva própria. A confirmação veio graças à combinação de análises de DNA, características físicas e ao estudo de exemplares preservados em coleções de museus. Erro de classificação A história da nova espécie envolve um erro taxonômico que atravessou gerações de pesquisadores. Em 2025, outro grupo de cientistas concluiu que o chamado pangolim-chinês, considerado durante muito tempo uma única espécie, era formado por duas espécies diferentes. Uma população vive principalmente na China, enquanto a outra pode ser encontrada nas montanhas do Himalaia, e essa recebeu o nome de Manis indoburmanica, ou pangolim indo-birmanês. No entanto, Feijó e sua equipe descobriram que um nome ainda mais antigo já existia para esses animais. Em 1836, a espécie Manis aurita foi descrita pela primeira vez, e posteriormente passou a ser considerada apenas uma subespécie do pangolim-chinês. Para resolver a dúvida sobre qual nome era o correto, a equipe recorreu ao espécime original preservado no Museu de História Natural de Londres e realizou o processo de sequenciamento de DNA do animal coletado há 190 anos. O material genético do exemplar histórico foi comparado ao DNA de pangolins atuais da região do Himalaia, confirmando que ambos pertenciam à mesma espécie. Com isso, os pesquisadores concluíram que o nome correto da espécie descrita em 2025 deve ser Manis aurita, substituindo Manis indoburmanica. Espécimes de pangolim no Museu Field de História Natural, em Chicago, nos Estados Unidos Bella Koscal/Museu Field Visualmente, distinguir as duas espécies não é uma tarefa simples. O pangolim-do-Himalaia (M. aurita) possui corpo maior, cauda mais longa e orelhas menores em comparação com o pangolim-chinês (M. pentadactyla). Além disso, cada espécie ocupa regiões geográficas diferentes, sem sobreposição conhecida entre suas áreas de distribuição. Embora pareçam detalhes pequenos, essas diferenças físicas e o conhecimento dos locais exatos onde cada espécie vive, faz toda a diferença para a conservação e proteção desses animais. Com a confirmação mais recente agora existem, ao todo, nove espécie diferentes de pangolim no mundo. Os pangolins são alvo constante da caça ilegal devido a suas escamas, utilizadas na medicina tradicional chinesa, na qual acredita-se que possuam propriedades medicinais e afrodisíacas, como destaca a Popular Science. Segundo Feijó, o problema é que, nos mercados ilegais, geralmente restam apenas as escamas do animal, tornando bastante difícil identificar somente pela aparência qual sua espécie e de que lugar vieram. Agora, com as novas análises desenvolvidas no estudo, pesquisadores poderão identificar a espécie por meio do DNA presente nas escamas coletadas. A partir dessa informação, será possível rastrear as regiões de origem dos animais e identificar áreas onde a caça ilegal é mais intensa. Esses dados também podem evitar erros em programas de conservação. De acordo com os autores, antes da revisão das espécies, por exemplo, era possível reintroduzir pangolins chineses em áreas do Nepal sem saber que ali vivia outra espécie. A pesquisa também destaca a importância das coleções de museus. Como os pangolins são raros e difíceis de encontrar na natureza, espécimes preservados em museus permitem que cientistas comparem indivíduos coletados em diferentes épocas e localidades. Foi justamente um exemplar guardado por quase dois séculos que permitiu resolver a identidade do pangolim-do-Himalaia. Segundo a equipe, esse tipo de acervo amplia significativamente a quantidade de informações disponíveis sobre espécies ameaçadas e pode continuar fornecendo respostas para desafios futuros da conservação desses animais.
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