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O que estas múmias de cachorro revelam sobre povo milenar que vivia no Peru

Galileu [Unofficial] June 29, 2026
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A cultura Tiwanaku tinha o hábito de enterrar cães para acompanhar seus donos na vida após a morte. E essa parceria com os companheiros de quatro patas não era apenas um privilégio da elite, que costumava ter túmulos mais recheados de itens. É o que indica um estudo publicado na revista Latin American Antiquity, que analisou dois cães mumificados encontrados em sítios arqueológicos no sul do Peru. Os animais viveram há cerca de 1.100 anos, quando o Estado Tiwanaku dominava áreas que hoje pertencem à Bolívia, ao Peru e ao Chile, entre os anos 600 e 1000 d.C. Ao contrário do que costuma ser observado em sociedades andinas mais recentes, os cães não foram enterrados em templos ou túmulos de membros da elite, mas próximos a residências comuns. As múmias pertencem a uma cadela marrom e branca com menos de um ano de idade, encontrada no sítio arqueológico de Rio Muerto, e a um filhote de até três meses descoberto em Omo, um centro cerimonial localizado no Vale de Moquegua. Em ambos os casos, fragmentos de pelos preservados permitiram confirmar que os restos pertenciam a cães, e não a raposas, uma distinção frequentemente difícil nos sítios arqueológicos da região. "As pessoas comuns que viviam em uma colônia de Tiwanaku tinham animais de estimação e os tratavam com carinho após a morte. Acho que isso demonstra que as pessoas vivenciavam a perda de animais com emoção, embora não possamos ter certeza absoluta", afirma Susan deFrance, arqueóloga da Universidade da Flórida e principal autora do estudo, em entrevista ao Phys.org. Para reconstruir a história desses animais, os pesquisadores analisaram isótopos (assinaturas químicas) presentes nos ossos, dentes e pelos, capazes de revelar informações sobre alimentação, mobilidade e ambiente em que viveram. Os resultados mostram que ambos nasceram e passaram toda a vida na mesma região onde foram enterrados, diferentemente das lhamas, frequentemente transportadas entre diferentes localidades. A alimentação da cadela de Rio Muerto também chamou a atenção dos pesquisadores. Sua dieta era praticamente igual à dos moradores da vila, composta por vegetais e carne. Isso sugere que o animal compartilhava os espaços domésticos e provavelmente se alimentava dos mesmos recursos disponíveis às famílias. deFrance et al. 2026 Filhote fêmea mumificada de Rio Muerto "Os conceitos de lixo e resíduos são muito específicos de cada cultura", explica a autora principal. "As pessoas que viviam em Rio Muerto não tinham um lixão da mesma forma que nós pensamos em lixo." Ela acrescenta que, independentemente de o cão receber alimento diretamente ou buscar restos de comida, implica que o cão tinha permissão para estar no mesmo espaço que as pessoas que viviam no local. Entretanto, o filhote encontrado em Omo apresentava uma dieta relativamente mais rica em carne, indicando que poderia circular por áreas diferentes das zonas residenciais. Mas, para a pesquisadora, a maior surpresa não foi a alimentação dos animais, e sim a forma como foram enterrados, porque nas culturas andinas posteriores, cães eram frequentemente sepultados em túmulos de indivíduos importantes, associados à função de proteger ou guiar seus donos na vida após a morte. Em Tiwanaku, porém, o cenário parece diferente. Os pesquisadores interpretam esses sepultamentos como um momento intermediário na relação entre humanos e cães na região andina. Antes de se tornarem símbolos ligados ao prestígio social, os animais já eram valorizados como companheiros dentro das casas. Embora não seja possível descartar que tenham participado de rituais religiosos ou até de sacrifícios, o estudo conclui que a localização das sepulturas, próximas às residências, e o cuidado empregado no enterro reforçam a hipótese de que eram animais queridos por seus tutores. Assim, valorizados tanto como possíveis participantes de práticas religiosas quanto como companheiros domésticos dignos de um sepultamento respeitoso.

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