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A dignidade menstrual não se limita ao acesso a absorventes

Galileu [Unofficial] June 13, 2026
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Além da morte, há uma certeza na vida das pessoas com útero: a menstruação. Ainda que seja um processo biológico inevitável, menstruar traz dificuldades que podem prejudicar o convívio de forma segura e sem constrangimentos. Não à toa, a dignidade menstrual não só exige o acesso a absorventes, mas também o acesso a infraestrutura adequada, água, saneamento e higiene. Outros problemas são o tabu e o estigma sociais associados à menstruação. O impacto é especialmente grave entre os jovens menstruantes, cuja frequência escolar, saúde, autoestima e desenvolvimento são diretamente afetados. Segundo a PeNSE (Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar) de 2024, divulgada neste ano, 15,3% das adolescentes de 13 a 17 anos deixaram de ir à escola ao menos um dia no período de um ano por falta de itens para cuidados menstruais. Nas escolas públicas, o percentual sobe para 16,9%. Não é apenas nas instituições de ensino que falta apoio e acessos materiais, sobretudo o de itens como absorventes. Um relatório do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) divulgado em 2021, mostrou que a pobreza menstrual também é um grave desafio nas casas brasileiras, com mais de 713 mil meninas vivendo sem acesso a banheiros ou chuveiros, fundamentais para a higiene íntima durante os ciclos menstruais. Para menstruar é preciso segurança Estudantes das regiões Norte e Nordeste do país continuam a ser os mais prejudicados em relação à dignidade menstrual. Segundo o Censo Escolar 2025, mais 4.600 escolas brasileiras ainda não possuem banheiro, afetando mais de 416 mil alunos que menstruam. A longo prazo, se não forem tomadas medidas eficazes, esse cenário poderá causar lacunas na educação brasileira. Gabriela Mora, do UNICEF, afirmou, em comunicado, que “garantir dignidade menstrual significa garantir condições para que meninas e adolescentes possam permanecer na escola com segurança, privacidade e acolhimento. Isso envolve garantir o acesso a água, saneamento e higiene, incluindo banheiros adequados, informação de qualidade e ambientes livres de estigma”. A ausência de infraestrutura básica afeta de forma desproporcional meninas e adolescentes que menstruam, especialmente em áreas rurais, indígenas, quilombolas e ribeirinhas Paulo Diogenes/UNICEF Os tabus e os estigmas, no entanto, são um desafio ainda maior, já que, diferente das infraestruturas e dos itens para os cuidados menstruais, eles são intangíveis. Por vezes, são sustentados pelo silêncio e pela desinformação referentes à menstruação, o que leva muita gente a sentir vergonha de falar sobre o assunto. Entre as pessoas que menstruam, com destaque para as mais jovens, a menção à temática pode causar desconforto, fazendo com que elas deixem de buscar apoio nas suas escolas, núcleos familiares e até nos serviços de saúde. “É muito comum que adolescentes deixem de participar de atividades de esporte, lazer e percam oportunidades de aprender por algo tão natural que jamais deveria ser uma barreira para o seu desenvolvimento”, disse Mora. Para ela, a discussão sobre a dignidade menstrual também envolve promover igualdade entre os gêneros, informação, acolhimento e participação social, principalmente dos adolescentes. Essa participação pode vir de diferentes formas. Na zona rural de Manaus, no estado do Amazonas, por exemplo, estudantes participaram de um hackathon (uma espécie de “maratona”, só que sem a parte da corrida, apenas com o cérebro) para cocriar soluções de saneamento escolar voltadas à dignidade menstrual. A iniciativa, do UNICEF, resultou na construção de um banheiro-modelo desenvolvido a partir da escuta de adolescentes, incorporando elementos adaptados à realidade local. A perspectiva é que o assunto continue a ser discutido por diferentes grupos sociais Brasil afora. “Por muito tempo, a menstruação foi tratada como um assunto que não podia ser nomeado. Não falar sobre menstruação também é uma forma de falar. O avanço começa quando o tema deixa de ser tabu e passa a ser tratado como uma questão de direitos, dignidade e desenvolvimento”, reforçou Mora.

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