Cólicas menstruais fazem 4 em cada 10 meninas faltarem à aula no Brasil
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May 29, 2026
Seis em cada dez estudantes do ensino fundamental e médio que menstruam afirmam sofrer com cólicas moderadas ou intensas, a ponto de afetarem a rotina escolar e exigirem o uso de medicamentos. Além disso, quase quatro em cada dez alunas (37,1%) dizem faltar às aulas todos os meses por causa das dores menstruais. Os dados fazem parte de uma pesquisa do Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.info, divulgada na última quarta-feira (27). Menina com cólica Magnific O levantamento foi feito em fevereiro deste ano com 2.551 estudantes – sendo 770 estudantes que menstruam –, 303 docentes e 181 gestores escolares, das redes pública e privada de ensino de todas as regiões do país. Cólicas ginecológicas: quais são os tipos, como identificar e amenizar as dores Menarca: o que você precisa saber sobre a primeira menstruação da menina A pesquisa inédita mostra que a cólica é o principal sintoma menstrual responsável por afastar alunas das aulas, citado por 57,7% das entrevistadas. Outros sintomas relacionados à menstruação também foram mencionados, como: cansaço e dores no corpo, citado por 30,1% das entrevistadas; dores de cabeça (28%); dor de barriga, por 20,1%; vergonha e medo de vazamento, por 19,3%; falta de banheiro ou produtos de higiene, por 8,2%. Ausências e atrasos Os dados indicam que os sintomas ligados ao período menstrual podem resultar em cerca de dois dias de ausência escolar por mês. Segundo Sofia Reinach, líder da iniciativa de Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual do Instituto Alana, o absenteísmo — caracterizado pelas faltas ou pelo não cumprimento da carga horária escolar — durante os dias de dor pode comprometer a aprendizagem, o vínculo das estudantes com a escola e suas oportunidades educacionais ao longo da vida. Por isso, afirma, o problema precisa ser encarado com seriedade. “Quase 40% das meninas no Brasil estão perdendo pelo menos um dia de aula por mês por conta das dores [menstruais]: uma parcela muito grande da população que deve ser cuidada para que isso não signifique defasagem escolar e uma desvantagem crônica na aprendizagem”. O levantamento apontou que parte das faltas relacionadas aos sintomas menstruais ainda é encarada como uma questão individual, privada ou até inevitável. Para o Instituto Alana, é necessário reconhecer a dor menstrual como um problema coletivo. A entidade defende a criação de protocolos para justificar faltas e orientar professores e demais profissionais da escola. A expectativa é que essas medidas ajudem a diminuir o constrangimento enfrentado pelas alunas e aprimorem o registro desses episódios. Desigualdade racial na menstruação O estudo também identificou desigualdades raciais. Embora meninas negras relatem sentir menos cólicas intensas, elas são as que mais faltam às aulas por questões menstruais. Nesse recorte, estudantes negras chegam a perder até 1,5 vez mais dias letivos — entre dois e cinco dias por mês — em comparação às alunas brancas. Entre as estudantes negras, 14,5% afirmam faltar às aulas nesse período por causa da menstruação. Já entre as brancas, o índice é de 9,6%. A experiência da dor menstrual também varia entre os diferentes grupos raciais, segundo o levantamento. As meninas brancas relatam sofrer mais com cólicas intensas do que as negras. Entre as estudantes brancas entrevistadas, 37,5% classificam as dores como fortes. Já entre meninas e adolescentes negras, esse percentual cai para 25,9%. Por outro lado, 16% das estudantes negras afirmam não sentir cólicas menstruais, enquanto entre as brancas o índice das que dizem não sentir qualquer dor é de 8,5%. A idade que a mãe menstruou pela primeira vez influencia na idade que a filha terá a menarca? Para Sofia Reinach, os dados indicam que o índice de dores intensas pode, na prática, estar subestimado entre as alunas negras. Segundo ela, meninas negras tendem a naturalizar mais a dor, por serem culturalmente ensinadas a enxergá-la como algo que não demanda cuidado ou tratamento. “As meninas negras nomeiam menos a sua dor como forte. Aparentemente, elas têm um limiar de dor maior, portanto, reconhecem menos como uma dor incapacitante. Mas, na prática, o impacto da dor as tira de suas atividades e da escola”, explica. A especialista defende que os profissionais das áreas da educação e da saúde “desaprendam esse viés antigo de que corpos negros sentem menos dor” ou que são mais resilientes. “É muito importante que essa percepção mude, porque as meninas negras estão sentindo dor, mas falam menos sobre ela. Os ouvidos dos profissionais têm que estar mais atentos. A escola deve fazer parte de uma rede de cuidado”, frisa Sofia. Para garantir que meninas negras recebam acompanhamento adequado e sofram menos impactos causados pela dor, a especialista em saúde menstrual e dor pélvica ressalta a importância de professores estarem atentos aos sintomas relatados pelas alunas, de gestores escolares abordarem o tema e de as famílias serem envolvidas nesse processo. Diferenças regionais Além disso, o estudo observou disparidades entre as diferentes regiões do Brasil. O Norte e o Centro-Oeste sofrem mais com a falta de infraestrutura e produtos. Falta de banheiro e de produtos de higiene menstrual aparecem como motivos de ausências nas aulas especialmente no Norte (18,9%) e Centro-Oeste (30,2%). O estudo considera que o acesso à infraestrutura adequada é condição básica de permanência escolar. 14 coisas que você precisa saber sobre a primeira menstruação da sua filha Aumento da menarca precoce A pesquisa traz destaque para outro ponto importante: a menarca (primeira menstruação) é cada vez mais precoce no Brasil. Em média, 65,2% das meninas ouvidas menstruaram até os 11 anos e 36,5% até os 10 anos. A prevalência de menarca precoce também varia por região: as maiores proporções estão no Nordeste (45,5%) e no Sul (43,9%) e a menor no Centro-Oeste (16,1%). Na média nacional, a proporção de menarca precoce é semelhante entre as populações brancas e negras. Na região Sul, 64% das alunas negras e 32,9% das brancas tiveram menarca precoce. No Sudeste, esse índice sobe para 61,6% entre as meninas negras e 5,3% das brancas. No Nordeste, 53,9% das brancas e 35,4% das negras. O levantamento também identificou uma relação direta entre menarca precoce e dores menstruais mais intensas. Entre as estudantes que tiveram a primeira menstruação aos 10 anos, 43% relataram cólicas fortes. O percentual diminui para 27% entre aquelas que menstruaram aos 11 ou 12 anos. Já entre as adolescentes que tiveram a menarca aos 13 anos, uma em cada quatro afirma sofrer com dores intensas. Entre as que menstruaram pela primeira vez aos 14 anos ou mais, o índice das que relataram cólicas fortes foi de 28%. “Para muitas meninas, menstruar não significa apenas lidar com uma nova fase do corpo, mas também com dores que podem afetar a frequência às aulas, a concentração, a prática de esportes e a convivência com colegas”, informa o estudo do Instituto Alana. *Com informações da Agência Brasil
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