Pesquisa mostra dados da influência da religião sobre a política na América Latina
Galileu [Unofficial]
June 7, 2026
Não há como negar que o cristianismo é um dos principais elementos do “starter pack” de qualquer pessoa nascida na América Latina. Até quem não segue uma religião está suscetível à sua presença, seja nos santos pendurados em quadros nas casas das avós, nos escapulários ganhos de presente ou nas eleições de líderes políticos. Acontece que muitos latino-americanos reconhecem a importância da religião em aspectos-chave da vida pública. Entre os brasileiros, que vão às urnas em outubro deste ano, cerca de dois terços – ou 66% – da população adulta afirma que ter um presidente que defenda as crenças religiosas, sobretudo as protestantes, é importante. Isso é o que revelam pesquisas realizadas pelo Pew Research Center em 2024 e divulgadas em março deste ano. O cenário é semelhante entre os nossos hermanos. Na Colômbia e no Peru, que realizarão o segundo turno das suas eleições presidenciais nas próximas semanas de junho, os índices chegam próximos ao dos brasileiros: 63% e 67%, respectivamente. Já na Argentina, no Chile e no México, a mesma opinião é compartilhada por quase metade dos adultos. Está na Bíblia? A presença da religião nas discussões políticas, no entanto, vem carregada de paradoxos. Afinal, mesmo que a proporção de católicos na população dos países da América Latina esteja reduzindo já há uma década, a crença em Deus continua a ser generalizada e, por vezes, estrutural, com nove em cada dez adultos credores. No Brasil, por exemplo, os números chegam a ser quase unânimes: 98% dos adultos acreditam na existência de um Pai divino e 76% afirmam orar pelo menos uma vez por dia, seja um fiel fervoroso ou uma pessoa “sem religião” – o que a pesquisa englobou como ateus, agnósticos e aqueles sem crença específica. Esse último grupo, a propósito, praticamente dobrou no país em dez anos, chegando aos 15% em 2024. Maioria dos protestantes brasileiros consideram que "ser cristão" é uma característica central da identidade nacional Pew Research Center A maioria dos adultos latinos, no entanto, são religiosos em algum grau e de acordo com determinados critérios. Por isso mesmo que, em quatro dos seis países analisados, metade ou mais dessa faixa etária considera a religião como um aspecto muito importante das suas vidas. Entre os brasileiros e as brasileiras maiores de idade, por exemplo, 79% vê a religião como um aspecto identitário fundamental. Muitos latino-americanos também consideram o cristianismo fundamental para o sentimento de pertencimento nacional, até porque muitos – mesmo aqueles que deixam de seguir o cristianismo quando crescem – foram criados no catolicismo. Nessa medida, a religião acaba por influenciar nas tomadas de decisões políticas, tanto que até mesmo 51% da população brasileira sem religião afirma que a Bíblia deve nortear as leis do país. Escolhido por Deus? Mas, o Brasil é um país constitucionalmente laico. Então, como tantos brasileiros acreditam que a religião deve influenciar na política? Criação e vivências são as principais justificativas. Embora católicos, protestantes e pessoas sem religião tendam, em algum grau, a considerar importante que os líderes nacionais defendam suas crenças, os protestantes são os mais propensos a expressar essa opinião. Entre aqueles que não seguem nenhuma religião, o apoio costuma ser menor, mas não irrelevante, tanto que 53% destes adultos afirmam que é importante ter um presidente que represente suas visões religiosas. Na maioria dos países da América Latina, a população adulta valoriza políticos alinhados com as suas crenças religiosas Pew Research Center A relação entre religião e política, no entanto, parece ir além da simples identificação com uma fé. Há indícios de uma conexão entre identidade cristã e posicionamento ideológico nessas questões. Católicos e protestantes latino-americanos tendem a se inclinar mais à direita do espectro político e, de modo semelhante, adultos que se identificam com a direita costumam demonstrar maior preferência por líderes nacionais que tenham características religiosas marcantes ou compartilhem das suas crenças. Essa proximidade também se manifesta na forma como muitos latino-americanos enxergam a elaboração das leis. Em diversos países da região, uma parcela significativa da população acredita que a Bíblia deveria exercer influência sobre o sistema jurídico nacional.
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