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Esta região sofre um terremoto a cada 5 anos. Um novo estudo descobriu por quê

Galileu [Unofficial] May 21, 2026
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Nas profundezas do Oceano Pacífico Oriental, a cerca de 1.600 km da costa do Equador, uma falha geológica submarina vem intrigando cientistas há décadas. Conhecida como Falha de Gofar, essa fratura no fundo do oceano produz terremotos de magnitude 6 em intervalos quase perfeitos de cinco a seis anos — um comportamento extremamente raro na sismologia. Agora, uma equipe de pesquisadores dos Estados Unidos e do Canadá acreditam finalmente ter encontrado uma explicação física para esse fenômeno. Segundo um estudo publicado no dia 14 de maio na revista Science, duas zonas especiais ao longo da falha funcionam como verdadeiros “freios” naturais, impedindo que os terremotos cresçam além de um certo limite. Padrão sísmico quase impossível de prever Em geral, terremotos são eventos difíceis de prever, já que podem variar enormemente em localização, frequência e intensidade. Na Falha de Gofar, porém, os grandes tremores acontecem repetidamente nos mesmos trechos, com magnitudes semelhantes e intervalos regulares. “Sabemos que essas barreiras existem há muito tempo, mas a questão sempre foi: do que elas são feitas e por que continuam a impedir terremotos de forma tão confiável, ciclo após ciclo?”, questiona o sismólogo Jianhua Gong, professor da Universidade de Indiana em Bloomington e principal autor do estudo, em comunicado. A Falha de Gofar está localizada ao longo da Dorsal do Pacífico Leste, uma cadeia montanhosa submarina onde as placas tectônicas do Pacífico e de Nazca deslizam lateralmente uma em relação à outra. O movimento acontece a uma velocidade de cerca de 14 cm por ano — aproximadamente a mesma taxa de crescimento de unhas humanas. Embora isso pareça lento, o deslocamento acumula enormes quantidades de energia ao longo do tempo, liberadas depois em forma de terremotos. O diferencial de Gofar está justamente no modo como essa energia é liberada. Entre os segmentos que produzem grandes terremotos existem áreas chamadas pelos cientistas de “barreiras”, regiões que aparentemente absorvem tensão sem gerar grandes rupturas sísmicas. Até agora, no entanto, não estava claro como essas zonas conseguiam interromper os terremotos de maneira tão consistente. Dentro das “barreiras” da falha Para investigar o fenômeno, os pesquisadores realizaram duas grandes campanhas científicas no fundo do mar: uma em 2008 e outra entre 2019 e 2022. Durante as expedições, equipes instalaram dezenas de sismógrafos diretamente no leito oceânico. Esses instrumentos registraram dezenas de milhares de pequenos tremores antes e depois de dois terremotos de magnitude 6, permitindo aos cientistas reconstruir em detalhes o comportamento da falha. Os dados revelaram um padrão surpreendentemente consistente. Nas semanas e meses anteriores aos grandes terremotos, as zonas de barreira apresentavam intensa atividade sísmica de baixa magnitude. Logo após o tremor principal, porém, essas regiões praticamente silenciavam. O comportamento se repetiu em diferentes segmentos da falha, mesmo com um intervalo de 12 anos entre os ciclos observados. A falha transformante de Gofar está situada ao longo da Dorsal do Pacífico Leste, a oeste do Equador. Esta imagem mostra a rota de cruzeiro de uma expedição de 2021 a bordo do navio de pesquisa Thomas G. Thompson até Gofar, com o objetivo de recuperar e reinstalar sismógrafos de fundo oceânico que partiram de San Diego e terminaram em Port Everglades, Flórida Emily Roland/Western Washington University Segundo os pesquisadores, isso ocorre porque as barreiras não são blocos sólidos e inertes de rocha, mas áreas estruturalmente complexas. Nessas regiões, a falha principal se divide em múltiplos ramos, separados por deslocamentos laterais de 100 a 400 metros. Essa geometria cria pequenas zonas de extensão onde a água do mar consegue infiltrar-se profundamente nas rochas. Quando um grande terremoto chega a essas áreas, acontece um processo chamado “fortalecimento por dilatância”. O movimento brusco faz a pressão dos fluidos presos nas rochas cair rapidamente, fazendo com que o material se torne temporariamente mais rígido e resistente ao deslizamento. Na prática, a própria estrutura da falha age como um mecanismo de frenagem, interrompendo a propagação do terremoto antes que ele alcance magnitudes ainda maiores. “Essas barreiras não são apenas características passivas da paisagem”, explica Gong. “Elas são partes ativas e dinâmicas do sistema de falhas, e entender como elas funcionam muda a forma como pensamos sobre os limites dos terremotos nessas falhas.” Implicações para o restante do planeta Apesar de os terremotos da Falha de Gofar representarem pouco risco direto, uma vez que ocorrem longe de áreas povoadas, os resultados desse estudo ainda podem ter implicações globais. Falhas transformantes semelhantes existem em diversos oceanos do planeta, e cientistas há muito observam que grandes terremotos submarinos costumam ser menores do que a geologia aparentemente permitiria. O projeto sugere que barreiras semelhantes às de Gofar podem estar espalhadas pelo fundo oceânico, funcionando como um sistema natural que limita a magnitude máxima desses terremotos. A descoberta também pode contribuir para modelos mais precisos de avaliação de risco sísmico, especialmente em regiões costeiras próximas de falhas submarinas. Compreender como terremotos começam, se propagam e eventualmente param é considerado um dos maiores desafios da geofísica moderna. E, neste caso específico, uma falha remota no meio do Pacífico pode oferecer pistas valiosas para proteger populações ao redor do mundo.

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