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Grilos feridos cuidam das próprias antenas e reforçam hipótese de que insetos sentem dor

Galileu [Unofficial] May 17, 2026
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Os insetos sentem dor? A pergunta, que durante décadas ficou restrita aos laboratórios e debates filosóficos, acaba de ganhar novas evidências científicas. Um estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society observou que grilos submetidos a um estímulo doloroso passaram a cuidar repetidamente de suas antenas feridas, um comportamento considerado pelos pesquisadores como um forte indício de experiência dolorosa A pesquisa, conduzida por cientistas da Universidade de Sydney, analisou dezenas de grilos divididos em três grupos. Em um deles, os insetos receberam o toque de uma sonda aquecida a 65 °C em uma das antenas. Outro grupo recebeu a mesma sonda sem aquecimento, enquanto um terceiro serviu como controle. A equipe observou que os grilos expostos ao calor passaram a limpar e proteger de forma persistente a antena atingida, comportamento que não apareceu nos outros grupos. "Eles não estavam apenas agitados ou confusos. Estavam direcionando sua atenção especificamente para a antena atingida pela sonda quente", afirmou o entomologista Thomas White, professor associado da Universidade de Sydney e um dos autores do estudo, ao The Guardian. Segundo White, o comportamento observado se encaixa no conceito de “autoproteção flexível”, considerado um dos principais sinais de dor em animais. Diferentemente de um simples reflexo nervoso imediato, esse tipo de reação envolve uma resposta prolongada e direcionada para proteger a região lesionada. "Se vemos um cachorro mancando ou lambendo a pata machucada, imediatamente entendemos aquilo como um sinal de dor. A questão é: por que hesitamos em fazer a mesma inferência quando observamos insetos?", questiona o pesquisador. A ideia de que insetos possuem experiências conscientes ainda divide a comunidade científica, mas o debate vem ganhando força nos últimos anos. Pesquisas recentes mostram que abelhas podem apresentar sinais de pessimismo quando submetidas ao estresse, enquanto zangões demonstram comportamentos semelhantes a brincadeiras ao interagir com pequenas bolas de madeira. Grilos se encaixam em declaração que vê a “possibilidade realista” de experiências conscientes não apenas em vertebrados maryannandco/ pixabay "Eles não são apenas pequenas máquinas. Possuem grande capacidade de aprendizado, conseguem tomar decisões complexas e fazer concessões", afirma. O estudo também dialoga com discussões mais amplas sobre consciência animal. Em 2024, a Declaração de Nova Iorque sobre Consciência Animal, assinada por centenas de cientistas e filósofos, reconheceu existir uma “possibilidade realista” de experiências conscientes não apenas em vertebrados, mas também em muitos invertebrados, incluindo insetos. As implicações vão além da ciência básica. Em diferentes países, leis de bem-estar animal já passaram a incluir cefalópodes e crustáceos entre os seres considerados sencientes. Agora, especialistas acreditam que os insetos podem ser os próximos. "Do ponto de vista evolutivo, os insetos são crustáceos terrestres e compartilham um ancestral comum", explica Kate Umbers, professora associada da Western Sydney University e diretora-geral da organização Invertebrates Australia, que não participou da pesquisa. "Os humanos são notoriamente ruins em apreciar coisas que são diferentes deles", continua a pesquisadora. "Espero que este estudo incentive as pessoas a olhar além dessas diferenças e a desenvolver mais empatia por outras formas de vida." A discussão ganha ainda mais relevância diante da crescente indústria de criação de insetos para alimentação humana, ração animal e pesquisas científicas. Apenas os grilos já são produzidos aos bilhões em diversas partes do mundo. "Se eles são capazes de ter vidas melhores ou piores, então precisamos levar isso em consideração", conclui White.

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