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Cientistas criam lentes de contato que dão choques no cérebro para tratar depressão

Galileu [Unofficial] May 15, 2026
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Cientistas podem ter encontrado uma possível alternativa para futuras abordagens de tratamento da depressão. Um novo estudo sugere que lentes de contato capazes de emitir sinais elétricos muito leves pela retina podem estimular regiões cerebrais associadas ao transtorno e produzir efeitos semelhantes aos observados com o uso de fluoxetina, um antidepressivo bastante utilizado ao redor do mundo. No estudo, publicado em 14 de maio na revista Cell Reports Physical Science, pesquisadores da Universidade Yonsei, na Coreia do Sul conduziram testes apenas em camundongos. Nos animais, que passaram por uma depressão induzida, a equipe observou sinais comportamentais ligados à melhora de sintomas da depressão após três semanas de tratamento com as lentes de contato. Como as lentes funcionam As novas lentes de contato também são transparentes e flexíveis, mas vêm equipadas com eletrodos que emitem pequenos sinais elétricos ao sistema visual. Esses sinais são transmitidos pela retina e chegam a regiões cerebrais específicas ligadas ao humor e comportamentos associados à depressão. Esse método usado pela tecnologia é chamado de interferência temporal. A ideia de utilizar os olhos como vias para estimular o cérebro veio justamente por esse papel que a retina tem em se conectar com essas regiões mais específicas. Em tratamentos disponíveis atualmente para depressão, que incluem medicamentos, terapia eletroconvulsiva e implantes cerebrais, as mesmas áreas e circuitos cerebrais são alcançados. “Como o olho é anatomicamente parte do cérebro, nos perguntamos se uma simples lente de contato poderia servir como uma porta de entrada suave e não invasiva para os circuitos cerebrais que controlam o humor”, disse Jang-Ung Park, pesquisador da Universidade Yonsei e autor sênior do estudo, em comunicado. De acordo com o pesquisador, os sinais elétricos transmitidos são semelhantes a duas lanternas. “Cada feixe de luz individualmente é fraco, mas onde se sobrepõem, surge um ponto brilhante, e esse ponto brilhante pode ser criado a uma grande distância das próprias lanternas. Nossas lentes de contato fazem o mesmo com dois sinais elétricos inofensivos”, explicou. “Embora os eletrodos fiquem na superfície do olho, os sinais só se tornam ativos onde se encontram na retina, no interior do olho, ativando suavemente as conexões naturais que levam o sinal para as regiões do cérebro relacionadas ao humor.” Testes em camundongos Para o estudo, a equipe de pesquisa comparou quatro grupos: camundongos de controle não deprimidos, camundongos deprimidos que não receberam tratamento, camundongos deprimidos que receberam interferência temporal e camundongos deprimidos que receberam fluoxetina. Para avaliar a depressão dos animais antes e após o tratamento, os pesquisadores utilizaram ensaios comportamentais, registros eletrofisiológicos cerebrais e análise de indicadores sanguíneos e cerebrais ligados à depressão. Os resultados indicam que o tratamento com as lentes de contato, feito por 30 minutos por dia durante três semanas, diminuiu os sinais do distúrbio nessas três categorias avaliadas. Os registros da atividade cerebral também mostraram que o tratamento restaurou a conectividade entre o hipocampo e o córtex pré-frontal — conexão que tinha sido perdida devido à depressão. Os camundongos que passaram pela interferência temporal apresentaram uma redução nos níveis de moléculas inflamatórias no cérebro. Em comparação aos camundongos deprimidos não tratados, aqueles que receberam tratamento tiveram uma diminuição de 48% na corticosterona no sangue (hormônio de estresse em roedores), e um aumento de 47% nos níveis de serotonina (neurotransmissor que atua na regulação do humor e sono). Além disso, os pesquisadores também utilizaram um modelo de aprendizado de máquina que agrupou os animais com base no comportamento, atividade cerebral e níveis de biomarcadores de cada um deles. De forma consistente, o modelo agrupou os camundongos do grupo de tratamento com lentes de contato junto aos camundongos de controle não deprimidos. “Ficamos impressionados com o fato de as melhorias terem surgido simultaneamente no comportamento, na atividade cerebral e na biologia, e que o efeito fosse comparável ao de um medicamento antidepressivo amplamente utilizado [fluoxetina]”, disse Park. Como aponta a equipe, esta é a primeira vez que lentes de contato inteligentes foram usadas para o tratamento de um transtorno cerebral. Antes disso, esse tipo de tecnologia tinha sido utilizada para monitorar distúrbios oculares e metabólicos, medindo a pressão intraocular ou níveis de glicose. O pesquisador ressalta, no entanto, que o dispositivo ainda precisa passar por uma série de testes clínicos rigorosos em humanos. Os próximos passos a serem seguidos pela equipe incluem desenvolver uma versão da lente totalmente sem fio, avaliar sua segurança em animais maiores e personalizar os estímulos elétricos para cada usuário antes do início dos testes clínicos. Para Park, a tecnologia pode abrir caminho para novas formas de tratar distúrbios cerebrais. “Acreditamos que essa abordagem sem medicamentos tem um enorme potencial para transformar a maneira como a depressão e outras condições cerebrais são tratadas, incluindo ansiedade, dependência química e declínio cognitivo”, destacou.

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