Como o desequilíbrio da flora vaginal afeta a saúde íntima das mulheres
Galileu [Unofficial]
May 6, 2026
Vulvovaginites e vaginoses, doenças definidas por sintomas como corrimento, coceira, odor desagradável ou ardor na região íntima, estão entre as principais queixas nos consultórios de ginecologia no Brasil. De acordo com dados da Febrasgo ( Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), esses dois problemas motivam cerca de 40% das consultas. Além do desconforto, essas condições também podem causar dor ao urinar ou durante a relação sexual. A infecção mais frequente associada a esses sintomas é a vaginose bacteriana (VB), seguida da candidíase vulvovaginal (CVV) e da tricomoníase. Apesar de serem problemas comuns, as infecções íntimas ainda carregam tabus. Não à toa, é comum que muitas mulheres evitem falar sobre o assunto por medo de julgamento. "Muitas pacientes chegam com vergonha, porque são taxadas de que a higiene delas é ruim, ou de que elas são promíscuas, e por isso que elas estariam com aquele tipo de vulvovaginite. Mas a grande realidade não é essa", disse a ginecologista e obstetra Marcela Mc Gowan, durante evento à imprensa feito em São Paulo (SP) na última terça-feira (28) pela farmacêutica Libbs. Marcela Mc Gowan Libbs Uma flora vaginal desequilibrada é a principal razão por trás de doenças do tipo. O conjunto de microrganismos que habita a vagina é como uma "tropa" microscópica de bactérias cuja principal arma é a acidez. Acontece que um ambiente vaginal com pH ácido (entre 4 e 5) dificulta a sobrevivência de invasores na região íntima. Os principais aliados nesse quesito são os lactobacilos, bactérias responsáveis por manter esse PH baixo e dificultar a proliferação de micróbios nocivos. Se esse equilíbrio se rompe, surge espaço para infecções. Ao contrário do que muita gente pensa, infecções do tipo podem acontecer justamente por excesso de cuidado. A ducha vaginal, por exemplo, não é recomendada: ela remove bactérias benéficas e desorganiza a flora. Ou seja, não é a falta de higiene que causa o problema — muitas vezes é o exagero. Outras causas para explicar o desequilíbrio são o uso excessivo de roupas abafadas e apertadas na região íntima, em especial calças como as leggings. Também podem contribuir com o problema o estresse, uma dieta rica em carboidratos e açúcares e a falta de exercícios físicos. O desbalanceamento da flora vaginal também é mais comum em mulheres com o sistema imune comprometido, bem como em diabéticas. E é mais recorrente durante períodos específicos da vida, já que a microbiota da vagina está constantemente em mudança. "A menina, antes de menstruar, tem uma microbiota muito parecida com a mulher na pós-menopausa, que é mais pobre em lactobacilos", compara Thalita Domenich, médica assistente do departamento de obstetrícia e ginecologia da Santa Casa de São Paulo. Thalita Domenich Libbs Domenich explica que a flora vaginal está muito relacionada à produção do hormônio feminino estrogênio. Na fase reprodutiva, a mulher tem uma melhora na produção desse hormônio e obtém um PH vaginal mais ácido. Contudo, uma vida sexual ativa implica no maior desequilíbrio das bactérias da vagina — não necessariamente pelo risco de contrair uma IST (doença sexual transmisssível), mas pelo próprio PH nocivo do espermatozoide. Além disso, as gestantes, por serem naturalmente imunocomprometidas, também têm alterações importantes na flora vaginal. A mesma piora na rede de bactérias da vagina atinge as mulheres na pós-menopausa, que sofrem queda de estrogênio, aumento do PH na região e afinamento da mucosa vaginal. Identificando a secreção da vagina A secreção vaginal considerada normal é incolor, sem odor e não causa coceira. Ao longo do ciclo menstrual, porém, podem ocorrer variações na quantidade e na consistência — o que é esperado. "Por exemplo, na fase da ovulação, a paciente aumenta a quantidade de secreção, e ela acha que ela está com uma infecção. Mas não está", cita Domenich. O alerta surge quando aparecem sintomas como coceira, mau cheiro ou mudança na cor do corrimento, que pode se tornar mais esbranquiçado, amarelado ou até esverdeado. Nesses casos, é importante procurar um médico. Entre as causas mais comuns está a vaginose bacteriana (VB), que provoca um corrimento mais ralo, acinzentado ou amarelo-esverdeado, geralmente abundante e com odor fétido. De acordo com o Manual MSD de doenças, esse odor pode se intensificar após a relação sexual e durante a menstruação. Já a candidíase vulvovaginal (CVV) é uma infecção fúngica definida por secreção espessa, branca e semelhante a uma coalhada, além de coceira intensa na vagina e na vulva. A tricomoníase, por fim, é uma IST causada pelo protozoário Trichomonas vaginalis que pode não gerar corrimento vaginal ou causar uma secreção copiosa, espumosa, de coloração amarelo-esverdeada e com odor de peixe. Também pode provocar sensibilidade na vulva e no períneo, além de dor na relação sexual e ardor ao urinar. Uma recomendação importante é evitar a automedicação. Usar remédios por indicação de terceiros — mesmo os que não exigem receita — ou recorrer a receitas caseiras, como a aplicação de leite fermentado ou vinagre, pode prejudicar a saúde da vagina e até favorecer a resistência de fungos ou bactérias. Recorrência é inimiga inconveniente A reincidência das vulvovaginites e vaginoses é bastante comum. Ela pode ocorrer tanto por tratamentos inadequados quanto mesmo após acompanhamento médico, muitas vezes relacionada aos hábitos da própria paciente. Por isso, além da terapia indicada, é fundamental manter uma alimentação equilibrada e um estilo de vida saudável para ajudar a prevenir novos episódios. "A gente tem muito bem estabelecido o eixo intestino-vagina, assim como temos estabelecido o eixo intestino-cérebro", destaca Domenich. "Então, ter uma dieta muito rica em carboidratos vai alterar essa flora intestinal e, por consequência, alterar a flora vaginal. Isso vai favorecer essa paciente a mais vulvovaginites", explica. Além do tratamento tradicional — que envolve o uso de antibióticos ou antifúngicos —, especialistas também têm discutido estratégias voltadas ao reequilíbrio da microbiota, como o uso de probióticos. Em parceria com a dinamarquesa Novonesis, a Libbs lançou no mercado nacional um suplemento voltado à redução da recorrência da vaginose bacteriana e da candidíase vulvovaginal. O produto reúne cepas de dois lactobacilos (Lacticaseibacillus rhamnosus GR-1 e Limosilactobacillus reuteri RC-14), e se anuncia como o primeiro probiótico lançado no país a ser testado na flora vaginal de voluntárias do Brasil. "A flora vaginal vai variar conforme os costumes de cada lugar, a alimentação e a etnia. A gente sabe que, por exemplo, as afrodescendentes têm uma flora mais diversificada. Então, é muito importante que a gente tenha um probiótico no Brasil que foi testado em mulheres brasileiras", diz Domenich.
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